domingo, 9 de agosto de 2020

[0246] Cinco «Visita(s) Guiada(s)» a Património Cultural da Nossa Banda

O programa Visita Guiada, que a RTP2 exibe regularmente desde 2014, escolheu cinco objectos da Nossa Banda nas suas séries correspondentes aos anos de 2016, 2017 e 2018.

Convento de Santa Maria da Arrábida (11 de Abril de 2016; 35 minutos)
Sinopse da visita:
Numa das paisagens mais idílicas do mundo, a Serra da Arrábida banhada pelo Atlântico, fixou-se o mais radical grupo dos franciscanos portugueses: os Capuchos Arrábidos, ermitas cuja regra de vida era a máxima austeridade. Com fundações no início do séc. XVI, o Convento de Santa Maria da Arrábida permanece um deslumbramento e um enigma
O medievalista João Luís Fontes, Investigador do Centro de Estudos de História da Religião da Universidade Católica, conduz-nos nesta visita guiada. 

Ponte 25 de Abril (11 de Julho de 2016; 28 minutos)
Sinopse da visita:
A Ponte 25 de Abril faz 50 anos em agosto de 2016 e para comemorar o aniversário deste ícone da capital portuguesa levamo-lo num passeio sem precedentes: Paula Moura Pinheiro e o Engenheiro António Reis, que nos anos 90 ampliou o tabuleiro rodoviário e introduziu na ponte o tabuleiro ferroviário, vão percorrer, do topo às bases, os cantos todos à ponte. E recordar como no dia 6 de agosto de 1966 esta, a Ponte Salazar, era a maior ponte suspensa da Europa. Será que sobreviveria a um terramoto como o de 1755? Eis uma pergunta que quererá ver respondida ...
  
Farol do Bugio (26 de Setembro de 2016; 27 minutos)
Sinopse da visita:
Farol do Bugio, na foz do rio Tejo.
Olhando a mansa barra do Tejo ninguém diria que é, afinal, uma perigosa armadilha de correntes ferozes e marés violentas. Mas foi aqui, neste estuário enganador, que se erigiu um forte isolado que constitui, até hoje, uma referência internacional da história da engenharia militar marítima. Uma difícil aventura que levou cerca de cem anos a concluir-se. No início do processo, em finais do séc. XVI, chamou-se Torre de São Lourenço da Cabeça Seca, depois foi o Forte de São Lourenço e só em meados do séc. XX, quando foi desarmado, é que passou a ser conhecido como Farol do Bugio. Joaquim Boiça, filho, neto e bisneto de faroleiros, é o historiador que, com a historiadora Maria Barros, mais tem trabalhado sobre o Forte de São Lourenço do Bugio. São eles os nossos guias nesta visita.

Museu da Música Mecânica (11 de Dezembro de 2017; 37 minutos)
Sinopse da visita:
Caixas de música, fonogramas e gramofones, de finais do séc. XVIII à primeira metade do séc. XX. Quase todas aptas a funcionar, são centenas de peças que representam as mais variadas tipologias de mecanismos capazes de produzir som e compõem um acervo de excelência em qualquer parte do mundo. Inteiramente privado, este museu abriu as portas em 2016 e conta duas histórias: a do fascínio que as caixas de música sempre provocaram em adultos e crianças e a do espanto que gerou a invenção da gravação - pela primeira vez, era possível ouvir a voz de alguém que não estava fisicamente presente.
Uma visita surpreendente e divertida guiada por Leonor Losa, etnomusicóloga, e por Luís Cangueiro, o colecionador e proprietário do museu.

Fragata D. Fernando II e Glória (21 de Maio de 2018; 42 minutos)
Sinopse da visita:
Foi o último veleiro português a fazer a Carreira da Índia e é o quarto navio de guerra mais antigo do mundo.
Premiada pela prestigiada World Ship Trust pela qualidade do seu restauro e pela exemplar reconstituição dos ambientes a bordo, a Fragata D. Fernando II e Glória é um testemunho de um modo de navegar e de viver que hoje, mais de 170 anos depois, dificilmente conseguimos imaginar.
O Comandante Rocha e Abreu é o guia desta visita aos quatro pavimentos desta fragata, que é hoje um navio-museu.

segunda-feira, 27 de julho de 2020

[0245] Educação Patrimonial (I)

Quem hoje circula pela N10, entre Cacilhas e a Cova da Piedade, na margem Sul do Tejo, e sobretudo para quem sai desta estrada para se aproximar do rio, onde ficam o Caramujo e a Romeira, depara-se com uma paisagem pós-industrial onde abundam os espaços e os edifícios degradados ou em ruínas. O que já foi urbanamente central é, agora, urbanamente limítrofe:



O Caramujo e a Romeira são uma pequena parte da chamada Frente Ribeirinha nascente de Almada, uma faixa que acompanha a margem do rio Tejo desde Cacilhas até ao Arsenal do Alfeite, no Laranjeiro:



Toda a Frente Ribeirinha, e em particular o Caramujo e a Romeira, tiveram muitos usos ao longo da História. Aí existiram quintas agrícolas e de recreio. Aí existiram moinhos, oficinas, fábricas e estaleiros destinados à moagem da farinha, à construção naval e à transformação da cortiça, dando um profundo contributo para o arranque e o desenvolvimento da revolução industrial em Portugal. E foi aí, entre as grandes e as pequenas instalações dessas indústrias, que muitos dos que nelas trabalharam viveram. Observando com atenção, ainda se pode adivinhar como neste espaço se misturaram oficinas e fábricas, casas e vilas, tabernas e cafés.


Ainda vivem hoje no Caramujo e na Romeira muitas pessoas que outrora aí trabalharam, e outras que entretanto aí chegaram:



Tomando esta extensa zona pós-industrial como exemplo para a Educação Patrimonial, importa atender às estruturas que sobreviveram (o património material) mas, sobretudo, às memórias e às aspirações daqueles que aí trabalharam e viveram e daqueles que ainda aí trabalham e vivem (o património imaterial).


Entrevistas feitas a actuais moradores dão-nos uma ideia do que as suas memórias nos têm a dizer…

… sobre o papel económico que este espaço desempenhou desde as lutas liberais do século XIX: “O processo de desenvolvimento do nosso país passava todo por aqui …

… sobre o ambiente de trabalho:Vocês não imaginam o que era isto aqui. Às oito horas tocavam 18 apitos.

… sobre a pujança da vida local: “Isto era o bairro que mais vida tinha”.

E também nos dão uma ideia acerca dos desejos e dos receios sobre o futuro deste espaço …

… daqui a 100 anos, disse um rapaz, ele será “Uma piscina com água de mar com escorregas. Um hotel.” Para um jovem, “Não há-de melhorar muito vão ver. Vai continuar tudo igual”. Mas, para uma jovem, será “Uma área de referência, não como agora, hoje ninguém sabe onde está a Romeira.” Ou, para uma primeira moradora: “Para mim tudo o que fizeram que seja pelo melhor, tudo bem.” E, para outra: “Para mim também, já não tenho ideia de sair daqui. Já aqui estou quase há 70 anos. E agora já não vou para lado nenhum.” Já a proprietária de um estabelecimento comercial achou “Que aqui é uma área tão grande, num sítio tão bonito, tão perto ao rio (um sítio) onde as pessoas pudessem de facto viver e trabalhar de forma sustentável, não é? Podem fazer um museu, podem fazer aquilo que entenderem, sustentabilidade para as pessoas que aqui vivem e que aqui trabalham. E que houvesse uma evolução”. E um homem de certa idade: “Gostava que voltasse a ser uma zona industrial de construção naval. Se alguma vez isto acontecer era bom.


Um das apresentações que serviu de base para esta mensagem está acessível a partir da página «Documentos» deste blogue (clicar, aí, em Documentos da Nossa Banda).


Fonte: apresentações em Power Point de Blum (2019; 2020)

Imagens: duas composições de fotografias de Eva Maria Blum e um mapa adaptado a partir de imagem do Google Maps

Revisão da mensagem: Eva Maria Blum


terça-feira, 21 de julho de 2020

[0244] 20 de Julho: a nova data para o Dia Internacional do Xadrez


Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), os Dias Internacionais são ocasiões para “educar”, para “mobilizar” e para “celebrar”.
A proposta de um destes dias novo é feita pelos Estados membros da ONU, cabendo depois à Assembleia Geral aprová-los, cuidando que eles reflictam as preocupações com a “paz” e a “segurança” internacionais, com o “desenvolvimento sustentável”, os “direitos humanos”, a “lei internacional” e a “acção humanitária”.
A ONU cuida ainda de acompanhar o modo como cada um destes dias é publicamente adoptado todos os anos. E concluiu que entre os mais populares se encontram o Dia Internacional dos Direitos Humanos (10 de Dezembro), o Dia Internacional das Mulheres (8 de Março), o Dia Mundial da Água (22 de Março) e o Dia Internacional da Paz (21 de Setembro).

O dia em que são celebrados simultaneamente mais Dias Internacionais é o 21 de Março (cinco celebrações). E o mês em que o mesmo acontece é Junho.
Além dos Dias Internacionais, e com os mesmos propósitos, existem também Semanas Internacionais, Anos Internacionais e Décadas Internacionais.

Ontem, 20 de Julho, comemorou-se pela primeira vez o Dia Internacional do Xadrez nesta data.
A Federação Internacional do Xadrez (FIDE) comemorava-o, desde 1966, no dia 19 de Novembro, dia do nascimento de um dos mais extraordinários campeões mundiais, o cubano José Raúl Capablanca, em 1888. Mas foi proposto passar a comemorá-lo no dia em que a própria FIDE foi fundada, 20 de Julho de 1924, o que a ONU aprovou em Dezembro passado.


Na fundamentação apresentada para esta aprovação a ONU recorda assim as origens deste jogo:


O Xadrez é um jogo de estratégia para dois jogadores. Nele são movidas diferentes peças, num tabuleiro quadrado e quadriculado, dispondo cada tipo de peça de um conjunto de possíveis movimentos, cada jogador visa capturar a peça Rei do opositor.
Há hoje mais de 2 mil variantes deste jogo já recenseadas. Segundo uma teoria, esta família de jogos foi iniciada no Norte do Subcontinente Indiano, no período Gupta (de cerca 319 a 543 d.C.), sendo então designado por Chaturanga, tendo sido difundido, para Oeste, através da Rota da Seda, até à Pérsia.
Quando o Chaturanga chegou à Pérsia dos Sassânidas, por volta de 600 d.C., chamava-se Chatrang, transformando-se, mais tarde, em Shatranj. Esta data corresponde ao mais antigo manuscrito conhecido que se refere a este jogo. É de origem persa e descreve a chegada de um embaixador vindo do Subcontinente Indiano para visitar o Rei Khosrow I (531 – 579 d.C.) e que o presenteia com este jogo.
A partir da Pérsia, e seguindo a Rota da Seda para Sul e ainda mais para Oeste, o Shatranj chegou à Península Arábica e a Bizâncio.
Em 900 d.C., dois mestres Abássidas, al-Suli e al-Lajlaj, escreveram sobre as técnicas e a estratégia deste jogo. E por volta de 1000 d.C. o Xadrez era popular por toda a Europa e na Rússia, onde fora introduzido através da estepe euro-asiática.
Os manuscritos do Rei Alfonso que hoje são conhecidos como «Libro de los Juegos» (Livro dos Jogos) referem-se a três tipos de jogos muito populares no século XIII, entre eles o Xadrez, cujas regras são descritas de modo muito parecido às do Shatranj persa.

E apresenta deste modo os argumentos para que o Xadrez tenha o seu Dia Internacional:

Os desportos, as artes e as actividades físicas têm o poder de mudar as percepções, os preconceitos e os comportamentos, ajudando as pessoas a quebrar as barreiras raciais e políticas, a combater a descriminação e o conflito, pelo que contribuem para promover a educação, o desenvolvimento sustentável, a paz, a cooperação, a solidariedade, a inclusão social e a saúde aos níveis local, regional e internacional.
O Xadrez é um dos jogos mais antigos, intelectuais e culturais, combinando desporto, pensamento científico e elementos artísticos.
Sendo um jogo global, promove a justiça, a inclusão e o mútuo respeito, podendo contribuir para uma atmosfera de tolerância e compreensão entre os povos e as nações.

Fonte: sítio da ONU (os textos, adaptados, foram traduzidos do inglês)

Imagem: sítio da organização Chess.com

sábado, 11 de julho de 2020

[0243] Dois meses com a Ciência Viva no Verão




A 24.ª edição da Ciência Viva no Verão é uma edição especial que destaca o projecto Circuitos Ciência Viva, cujo lema é “Deixe-se guiar pela curiosidade!”. Nestas férias conheça Portugal com cultura e ciência, sempre na companhia de especialistas: são mais de 200 acções, em 500 datas, por todo o país, organizadas por Centros Ciência Viva, associações científicas, autarquias e empresas.

Visitas nocturnas de exploração dos Jardins do Bom Jesus, em Braga, passeios de moliceiro à descoberta dos tesouros naturais da Ria de Aveiro, visitas a uma das maiores jazidas com pegadas de dinossáurios jurássicos da Península Ibérica, em Vale de Meios, percursos no Aqueduto das Águas Livres, passeios de caiaque à descoberta da Ria Formosa e descidas à Mina de Sal-Gema Campina de Cima, em Loulé, são algumas das acções a decorrer entre 15 de Julho e 15 de Setembro.

Acções disponíveis no distrito de Setúbal:

No Moinho de Maré da Mourisca (Herdade da Mourisca, concelho de Setúbal)

Movimento das aves (18 de Julho, às 9h30)
Entre o Mar e a Terra: Interpretação da paisagem, fauna e flora (25 de Julho, às 17h30)

No Complexo de Salinas do Samouco (Samouco, concelho de Alcochete)

Observação de aves selvagens para Iniciantes (18, 19, 25 e 26 de Julho, às 10h00
Ciclo do Sal (22 e 29 de Julho e 5 de Agosto, às 10h00)

No Centro Ciência Viva do Lousal (Lousal, concelho de Grândola)

Cobras de Portugal (18 de Julho, às 10h30)
O Lobo vai ao Lousal (25 de Julho, às 10h00)
Viagem ao Centro da Terra (1 de Agosto, às 10h00)
Plantas em Movimento (1 de Agosto, às 16h00)
Nos trilhos da Serra (5 de Setembro, às 9h00)

No Cristo Rei (rotunda do Cristo Rei, concelho de Almada)

Do Cristo Rei ao Tejo – Uma descida no tempo (23 de Julho, às 9h15)

No Parque da Paz (Cova da Piedade, concelho de Almada)

Estação da Biodiversidade do Parque da Paz (24 de Julho, às 9h15)

A descrição e a localização destas e das outras acções já está acessível em




As inscrições abrem às 15h00 do dia 13 de Julho (2ª feira), sendo feitas através do anterior endereço.

Fonte (texto e imagem): sitio da Ciência Viva

segunda-feira, 6 de julho de 2020

[0242] As antigas praias de Tróia: entrevistas feitas por alunos de Setúbal


Em 2008-09 as turmas do 9º ano da Escola Secundária D. João II, em Setúbal, realizaram, na disciplina de História, um levantamento sobre como a população setubalense passava as férias de Verão na Península de Tróia, nas décadas de 1950, 1960 e 1970:

Capa do livro (recortada)

A sua principal fonte consistiu nos testemunhos recolhidos, através de entrevistas, aos seus familiares e vizinhos mais velhos, tendo o material recolhido sido trabalhado em aulas e fora delas. Por fim, seis professores transformaram essa recolha num livro, cuja primeira edição saiu em Maio de 2009.

Nos Verões dos anos 50 não era apenas Tróia a praia escolhida pelos setubalenses, também o eram as da Figueirinha e de Albarquel. E também vinham para estas praias as gentes de Palmela e de Azeitão e, ao fim-de-semana, do Montijo, do Barreiro e do Pinhal Novo.
Alguns dos entrevistados lembram-se de, sendo ainda jovens nessa altura, passarem em Tróia quase todo o Verão, estando grande parte desse tempo os seus pais a trabalhar. Outros lembram-se de lá passarem apenas um mês, um ou semana, ou tão só alguns dos fins-de-semana.

Testemunhos de alguns dos entrevistados:

A época balnear começava em Junho e acabava no final de Setembro.

Por volta dos anos 60, as carreiras eram limitadas: dois barcos que iam de manhã para Tróia e duas carreiras que vinham de tarde para Setúbal. Era muito limitado! É claro que com o passar dos anos, com o número de pessoas a aumentar, a frequentar a praia, começou a haver mais carreiras, mas no princípio era assim.

Vinha tudo carregado com as panelas e com os tachos dentro do barco da Tróia.

As pessoas, se quisessem, podiam até fazer casas em madeira, pois na altura não se pagava o terreno. Mas a maioria arranjava a areia de modo que ficasse direitinha. De seguida punham a tendinha e uma manta por baixo, outra por cima, estava feito! Ou então dormiam por cima de um todo ou uma manta, com aquelas velas dos barcos e os mastros faziam um tipo de tenda por baixo das velas com uma manta.

As mulheres que não trabalhavam tomavam conta dos seus filhos e também dos filhos daquelas que iam trabalhar.

Iam para a praia tomar banho, passar o dia … levavam o almoço já feito em casa. Estendiam uma toalha mesmo na areia e era aí que comiam. Outras faziam-no nas barracas que havia na praia, com fogareiros a carvão e onde se vendia bebidas.

Pela tarde, as crianças corriam ao ouvir o pregão: «Cá está o Ervilha! O Ervilha nunca falha». Este pregão era do homem dos sorvetes.

Antigamente a gente corria aquilo tudo de lés a lés.

O nosso passatempo nessa altura era irmos à pesca, os mais velhos e os mais novos. Naquele tempo [1955] havia muito peixe, muita amêijoa e berbigão, muitas navalhas e entretínhamo-nos a apanhar petiscos.

Berbigão aberto na brasa, ameijôas da marinha feitas de cebolada e também havia navalhas abertas na brasa.

Jantávamos e depois mais tarde conversávamos uns com os outros. Fazíamos uma fogueira, preparávamos uma cafeteira de café e depois havia um senhor que sabia tocar viola. Ele tocava e nós conversávamos uns com os outros sobre a vida.

Na Caldeira existe uma capelinha com a Nossa Senhora do Mar. Todos os anos, em Agosto, a senhora sai da capela levada pelos pescadores numa procissão. Essa festa começava numa sexta e acabava numa segunda com os pescadores todos atrás do barco que levava a Santa.

Nos anos 50 e 60 as fábricas de conserva de peixe que hoje já não existem apitavam todas e as operárias vinham para a muralha acenar à santa com lenços brancos, mas hoje já não se vê isso porque as fábricas fecharam.

Em 1961 o arquitecto Rafael Botelho, no jornal «O Setubalense», defendeu que não se deveria valorizar a Península de Tróia através da construção, mas sim pela sua natureza e pelo usufruto desta. No entanto, por volta de 1970, o mesmo jornal anuncia as primeiras propostas oficiais e privadas para a promoção do grande turismo em Tróia.

Fonte: Colectivo do 9º ano da Escola Secundária D. João II (2019; os testemunhos correspondem às pp. 24, 28, 32, 36, 37, 42, 43, 43-44, 45, 48 e 97)

domingo, 28 de junho de 2020

[0241] Parte de uma entrevista a Nuno Santos, ou ao rapper Chullage


Nuno Santos nasceu em Lisboa, em 1977, filho de pais cabo-verdianos, mas cresceu e vive na Margem Sul, primeiro no Monte da Caparica, depois na Arrentela. Licenciou-se em Sociologia, foi um dos fundadores da «Khapaz — Associação Cultural de Afrodescendentes», com sede no Seixal, e desenvolve trabalho de acção social e cultural.
É um dos músicos fundamentais do hip hop português, com uma carreira de mais de duas décadas, onde é conhecido por Chullage. Através das suas letras questiona as desigualdades sociais e o racismo, como nos álbuns Rapresálias (2001), Rapensar (2004) e Rapressão (2012).
Nos últimos anos alargou a sua intervenção a outras áreas, integrando o «Teatro Griot», co-fundando o «Peles Negras Máscaras Negras - Teatro do Escurecimento» e colaborando com os artistas visuais Vhils e Mónica de Miranda. Actualmente dedica-se ao desenvolvimento de «Prétu», alter-ego artístico em que explora as suas origens africanas.

Fotografia de Daniel Rocha para o jornal «Público»

Cinco perguntas (de Mário Lopes), cinco respostas (de Nuno / Chullage), de uma entrevista ao jornal «Público»:

É músico e sociólogo, trabalha em teatro e em artes visuais. Todas actividades afectadas pelas pandemia. Como foi a sua vida neste período?
Devo confessar que aqueles primeiros dias até foram bons. Estava muito cansado e há muito que me propunha estar em casa. Ao mesmo tempo que o meu corpo estava a entrar num espaço de descanso, a cabeça estava a acelerar, a tentar perceber o que se estava a passar. A minha preocupação, inicialmente, não foi tanto do ponto de vista da saúde, mas de tentar perceber, do ponto de vista político e económico, o que se poderia instalar a partir disto.

Como dizem os manuais de auto-ajuda e como ouvimos tantas vezes durante a crise financeira anterior, esta crise também será uma oportunidade?
Esta crise é trágica, mas será uma oportunidade para a grande finança e para o fascismo tecnológico. Quando for dito às pessoas que serão instalados sistemas de vigilância para que possam circular em segurança e saber quem está contaminado, vão aceitar. Porque têm medo de morrer. Aceitando isso, terão de aceitar também tudo o que permitirá essa tecnologia: saber onde estás a cada momento, como bate o teu coração, o que acabaste de comprar, com quem estiveste. As tecnologias trazem possibilidades e trazem o outro lado, mais sombrio. O que me assustou foi não saber se iremos reflectir sobre tudo isto a tempo, com a mesma velocidade com que esta acção da natureza chegou e se impôs enquanto nós andamos aos tropeções a tomar medidas. Não acho que devamos pôr a nossa saúde em risco, digo é que temos de ser críticos e não ficar pela câmara de eco do Twitter e do Instagram. Se já nem podemos tomar como verdade o que é tido por informação, quanto mais viver numa sociedade em que a opinião se tornou a verdade.

Durante a pandemia, foi abordada a forma como a crise de saúde pública espelhou as desigualdades sociais. Por exemplo, o Bairro da Jamaica, no Seixal. Foi estigmatizado como foco do vírus, ou levantou a discussão sobre a falta de condições de habitação?
A questão do Jamaica é consequência de um discurso que se está a instalar de que os pretos e os ciganos é que estão a passar o covid. Mas, como disse o presidente da câmara de Loures, “e os transportes?”. As pessoas foram postas em casa, a seguir disseram-lhes que tinham de ir trabalhar e os transportes não acompanharam essa necessidade. Já viajei em hora de ponta num transporte público e era como se não houvesse covid. É um discurso que está a aparecer cada vez mais: “Estes gajos é que propagam isto”. Não é verdade, existem focos, de várias formas, em sítios diferentes. Tal como acontece nos Estados Unidos, há uma racialização desta doença. É uma situação complicada, mas haverá gente a ter epifanias: “temos de melhorar as condições de habitação”. Mas essa consciência devia vir associada à ideia de que a habitação é um direito, porque este tipo de habitação não pode existir para ninguém. Temos mais de 40 anos de democracia e desde o início desta democracia que se definiu que a habitação é um direito. Não é só um direito quando a falta de condições de umas pessoas põe em causa a saúde de outras. Não pode haver luxo e miséria porta a porta. Habitação não é mercadoria, é um direito.

Parece certo que estamos num momento de transição, mas não sabemos ainda para que futuro.
Não temos de saber. Temos sempre construído a História sem saber em que direcção, muitas vezes em reacção a algo que deixa de ser possível. Acredito que há pessoas que estão a pôr em causa os seus velhos hábitos. Teremos de transformar-nos, porque isto assustou-nos e é bom que nos tenha assustado, para entendermos que a natureza ainda tem poder e que nós podemos ter o poder de queimar a Amazónia, mas não conseguimos lidar com este bichinho que nem vemos. A natureza não são só as árvores, os leões e os elefantes para tirar uma foto. A natureza regenera-se. E nós? Se o ser humano quer mais umas centenas de anos de vida tem de pôr em causa o seu paradigma económico e social. É interessante pensar em como coexistir com os outros animais e plantas, mas também reflectir neste modelo económico que assenta no racismo, na exploração, na habitação como mercadoria pura, nas relações de poder hemisfério norte-hemisfério sul, que vive de conflitos mundiais para extrair. Uma economia global em que as pessoas circulam à toa a toda a hora, com os aviões a subirem e a descerem em low-cost ininterruptamente, o combustível a poluir tudo.

Deste lugar em que estamos agora, em plena pandemia, olha para o futuro e sente-se optimista ou pessimista?
Estamos numa transição e esta era que vamos atravessar agora será um desafio. Não quero pensar que transformação será essa porque me assusta. Quero assumir que é um tempo de transformação e que não nos permitirá ficar quietos. Vamos viver tempos muito polarizados, mas alguma mudança advirá deles e é a mudança que temos de procurar. Há um escrito anarquista que diz que ficamos à procura da luzinha lá ao fundo sem nunca sair do túnel porque, se cavássemos um buraco no túnel, íamos ter medo daquela luz toda. Mas se o agora não nos serve, por que é que haveremos de lutar para ficar com ele? Vamos tentar manter o que temos agora porque lá à frente está o desconhecido? Mesmo que se instalem regimes totalitários, tecnológicos ou económicos, isso não será novo. Já aconteceu antes e sempre houve resistência. Este marasmo, esta ideia feita de que o capitalismo e a globalização são o fim da História, é que não pode continuar. Não digo que o desafio não seja assustador, pela crispação, pela falta de sítios a que nos agarrarmos no meio de tantas vozes e de tantas verdades, mas isso obriga-nos a procurar o nosso centro, espiritual e ideologicamente. Gosto de pensar que há um sítio na História em que não somos pretos e brancos, homens e mulheres, mas em que somos humanos e em que, como humanos, somos como outro bicho qualquer, com as nossas características específicas. Há um caminho tecnológico que nos quer transformar em Deus e há um pensar económico que quer massacrar todas as outras espécies em prol da nossa. Esse é o caminho que seguimos até agora e esse é o caminho que não serve. Esta transformação vai trazer conflito, mas também vai trazer uma mudança de pele.

Esta entrevista pode ser acedida na sua totalidade através da página Documentos deste blogue, clicando na pasta Documentos da Nossa Banda

Fonte: entrevista de Chullage a Lopes (2020)

domingo, 21 de junho de 2020

[0240] Três formas de perspectivar as Cidades Educadoras


A Rede de Cidades Educadoras abrange hoje 505 cidades, situadas em 34 países de todos os continentes, e tem como referência comum a Carta das Cidades Educadoras (ver mensagem «0014»).
Esta Carta resultou de um processo iniciado no 1º Congresso Internacional das Cidades Educadoras, realizado em Barcelona (em 1990), em cujo final as cidades nele representadas aprovaram a sua primeira versão, depois foi revista nos congressos realizados em Bolonha (1994) e em Génova (2004). Externamente, ela inspirou-se na Declaração Universal dos Direitos do Homem (1948), no Pacto Internacional dos Direitos Económicos, Sociais e Culturais (1966), na Declaração Mundial da Educação para Todos (1990), na Convenção nascida da Cimeira Mundial para a Infância (1990) e na Declaração Universal sobre Diversidade Cultural (2001).


Têm sido propostas diversas perspectivas para o conceito e a prática de Cidade Educadora:

A cidade como meio educativo envolvente (aprender na cidade)

A cidade é considerada como o contexto, a não ignorar, da educação.

A cidade como agente educativo (aprender da cidade)

Os habitantes e a vida da cidade são considerados como agentes da educação.

A cidade como conteúdo educativo (aprender a cidade)

A cidade, onde os aprendentes se situam, é considerada um conteúdo da sua educação.

Há, neste momento, 82 cidades portuguesas integradas na Rede de Cidades Educadores:

(clicando em cada um deste nomes acede-se à informação sobre a participação dessa cidade na rede)

A Carta das Cidades Educadores pode ser acedida através da Página Documentos deste blogue (clicando em Documentos de outras organizações internacionais)

Fontes:
para a rede, sítio da Rede das Cidades Educadoras / Portugal (acedido em 21 de Junho de 2020);
e, para as diferentes perspectivas, tese de mestrado de Helena Bernardo (2007; ponto 1.4.)

segunda-feira, 8 de junho de 2020

[0239] Uma ferramenta digital para identificar plantas


O projecto internacional PlantNet disponibilizou uma ferramenta digital que nos permite identificar plantas ao vivo (observando-as através de uma aplicação instalada num Smartphone) ou a partir de imagens de arquivo (colocando-as num sítio acedido por computador): https://identify.plantnet.org.

Algumas experiências com esta ferramenta aconselham a sua aplicação a vistas / imagens próximas e nítidas e a não aplicação a plantas muito pouco frequentes (caso das plantas dos sapais).
Como em relação a tudo, é preciso utilizar esta ferramenta criticamente.

Três exemplos que mostram o resultado da identificação de árvores / arbustos da Nossa Banda (a partir de imagens digitais arquivadas):

Fotografia de 29 de Março de 2016, em Setúbal:


Identificação pela flor e pela folha:
Trata-se (com probabilidade 2,55 em 5) de uma Árvore-de-São-Tomé
(espécie Bauhinia variegata, da família Leguminosae),
ou de (probabilidade 1,48 em 5) uma Bauhinia purpúrea, também Leguminosae

Fotografia de 13 de Maio de 2017, no Barreiro:


Identificação pela flor:
Trata-se (com probabilidade 4,27 em 5) de um Metrosídero
(espécie Metrosideros excelsa, família Myrtaceae)

Fotografia de 9 de Fevereiro de 2018, no Museu da Música Mecânica, Pinhal Novo:


Identificação pelo fruto e pela folha:
Trata-se (com probabilidade 3,05 em 5) de uma Aroeira-vermelha
(espécie Schinus terebinthifolia, da famíla Anacardiaceae)

Fonte: sítio do Projecto PlantNet
Fotografias: Eva Maria Blum

quinta-feira, 28 de maio de 2020

[0238] Se só 10 % dos nossos alunos «gostam muito da escola», será que se brinca suficientemente nela?!


Hoje, 28 de Maio, comemora-se o Dia Mundial do Brincar.
Que nos diz este Dia acerca de todos os outros Dias que as crianças passam na escola?

Tendo há dias sido publicado o relatório em que a Organização Mundial da Saúde (OMS) analisou o que se passava em 2018 com o comportamento das crianças em idade escolar, o Health Behaviour in School-aged Children (HBSC), é inevitável começar por dar uma vista de olhos ao que aí se escreveu.

O modo como a jornalista Andreia Sanches descreveu a evolução do gosto dos adolescentes portugueses em relação à escola, ao longo dos últimos vinte anos, está resumida nesta expressão: uma queda a pique.


Em 1998, primeiro ano em que Portugal participou no HBSC, 29 % dos nossos adolescentes gostavam muito da escola (entre 28 países, estavam em 2º lugar, a seguir à Letónia).
Em 2018, apenas 9,5 % dos nossos adolescentes responderam do mesmo modo (entre 45 países estavam em 38º lugar)

Este estudo da OMS é realizado de 4 em 4 anos, sendo baseado em amostras representativas de alunos com 11, 13 e 15 anos e repetindo um conjunto de perguntas, de edição em edição, para poder comparar as respostas.
A pergunta que permite ter uma ideia do sentimento dos adolescentes acerca de pressão exercida pela escola diz respeito aos trabalhos de casa. Segundo a coordenadora portuguesa do HBSC, Margarida Gaspar de Matos, “Sobretudo os mais velhos e as raparigas põem Portugal nos piores lugares, o que acontece desde 1998”: seis em cada dez alunos portugueses de 15 anos (49 % dos rapazes e 73 % das raparigas) dizem sentir-se pressionados ou muito pressionados com os trabalhos académicos. Mas a média de 45 países analisados também subiu nos últimos anos, estando agora nos 44 %.
A escola está realmente a ser «menos amada» por toda a Europa”, afirmou Margarida Gaspar de Matos. “Depois, pela Europa inteira há empregos mais incertos e fica mais indefinido o papel da escola nesses «bons empregos». Os alunos desinteressam-se (ou stressam pelas classificações), a concorrência é grande, o que aprendem depois até parece que «não serve para nada» e quando conseguem arranjar um emprego parece que têm sempre «poucas competências» e vão fazer cursos de preparação. Acontece um pouco por todo o lado.

Os alunos portugueses queixaram-se sobretudo do excesso de matéria nas aulas e do aborrecimento sentido na escola. Mas estão acima da média quanto ao apoio dos colegas que referem: 70 % dos rapazes e 60 % das raparigas de 15 anos sentem-se muito apoiados pelos colegas, contra uma média de 60 % e 51 %, respectivamente, a nível internacional. E 80 % sentem-se seguros na escola, envolvendo-se menos em lutas do que os adolescentes de outros países.


O Dia Mundial do Brincar relembra-nos que brincar é um direito, tal como foi declarado no artigo 31º da Convenção sobre os Direitos da Criança das Nações Unidas. E também nos relembra que esse direito se mantém como essencial para todas as idades, por nos proporcionar diversão, convívio e concentração, por nos desafiar à exploração e à criatividade. Tal como se defende no seguinte vídeo:

https://www.youtube.com/watch?v=xBJSGcOFe7c

Não poderá a escola ser organizada de modo a que possamos aí aprender através do brincar: experimentando, exprimindo, simulando, cooperando, organizando, sonhando?!

Fontes: notícia de Sanches (2020); sítio do Calendarr Portugal

segunda-feira, 25 de maio de 2020

[0237] Em tempos de apresentações virtuais: o Instituto Português da Qualidade e o seu Museu de Metrologia


Em 20 de Maio passado celebrou-se o Dia Mundial da Metrologia.
A origem desta celebração remonta a 1875, quando, precisamente no dia 20 de Maio, foi assinada por 17 países, entre os quais Portugal, a chamada Convenção do Metro.

Habituado a celebrar este dia com um evento aberto a especialistas e ao público, o Instituto Português da Qualidade, decidiu celebrá-lo desta vez, devido às restrições que visam conter a expansão da pandemia do Covid-19, divulgando um vídeo onde mostra a importância da Metrologia em muitas das áreas das nossas vidas, incluindo nele uma breve apresentação do Museu de Metrologia, nele integrado:

Clicar em: https://www.youtube.com/watch?v=ABk6d5w12AY

Imagem: sítio do Instituto Português da Qualidade

segunda-feira, 18 de maio de 2020

[0236] 18 de Maio: Dia Internacional dos Museus


Espaços vocacionados para estar abertos, os Museus encontram-se agora, forçosamente, fechados!

Mas nem os museus, nem os seus públicos, se resignam!


Na Nossa Banda, o Museu do Trabalho / Michel Giacometti disponibiliza interessantíssimos (e muito bem feitos) vídeos que nos ajudam a mantermo-nos em contacto:


Veja-os, antes ou depois de visitar este Museu!