Mostrar mensagens com a etiqueta os Educadores. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta os Educadores. Mostrar todas as mensagens

sábado, 22 de maio de 2021

[0285] Como nos faz bem brincar!

Na próxima Sexta-feira, dia 28 de Maio, celebra-se o Dia Mundial do Brincar.

Brincar é a principal actividade das crianças, e a que elas, ao se tornarem adultas, chamam «jogar».

Louro Artur, pintor almadense nascido em 1943, mostra neste seu «Sonho de Infância» a contiguidade que existe entre as brincadeiras de crianças (jogo do berlinde) e o atrevimento com que exploram o mundo que as rodeia (a escada que dá acesso aos cachos de uvas): 


Os promotores das comemorações do Dia Mundial do Brincar escolheram para este ano em que ainda se vivem as limitações provocadas pela pandemia, o tema brincar é saúde. O seguinte esquema mostra como as crianças se desenvolvem fisicamente, cognitivamente, socialmente e emocionalmente quando brincam:


Já houve tempos em que brincar se fazia sobretudo «na rua». Entretanto surgiram espaços para brincar, por um lado mais controlados, mas também com propostas de «brincadeira» que só aí podem ser realizadas: as ludotecas.
O Instituto de Apoio à Criança tem recenseado regularmente as ludotecas existentes no nosso país. Da última vez que o fez identificou, na Nossa Banda, as seguintes ludotecas (não sendo certo se todas elas estarão ainda hoje a funcionar, nem sendo de excluir a possibilidade de novas ludotecas terem sido abertas):


Neste blogue, o Dia Mundial do Brincar já foi referido nas mensagens «0058» (em 2017) e «0238» (em 2020).

 

Fontes: mensagem de Artur Vaz no Facebook (pintura de Artur Louro) e informações prestadas pelo Instituto de Apoio à Criança (ludotecas)

sábado, 20 de março de 2021

[0277] O Dia Mundial da Árvore na Nossa Banda

O Dia Mundial da Árvore, ou Dia Mundial da Floresta, é comemorado em 21 de Março, início da Primavera.


Em Portugal, a primeira comemoração que teve uma intenção semelhante aconteceu na Vila do Seixal, no dia 27 de Maio de 1907, numa altura em muitos outros países já se realizavam festas que celebravam o culto da árvore.
Nesse dia, as crianças das escolas oficiais, mais os seus professores, dirigiram-se ao Campo dos Mártires da Liberdade e plantaram diversas árvores. A cerimónia foi presidida pelo grande animador nacional desta ideia, o professor Borges Grainha, acompanhado pela Comissão Organizadora local, formada por António Augusto Louro, Alfredo dos Reis Silveira, D. José Maldonado, António Jorge Evangelista, Eduardo Figueiredo, padre António Coutinho e professora Dª Júlia Pinto (os nomes dos dois primeiros estão, hoje, associados a duas escolas deste concelho).

Alguns meses depois, em 20 de Dezembro desse ano, comemorou-se de modo semelhante em Lisboa, onde as crianças das escolas plantaram 38 árvores na rua Alexandre Herculano.

Rapidamente estas iniciativas se multiplicaram por todo o país, graças à acção da Liga Nacional de Instrução, da Academia de Estudos Livres e do jornal O Século.
Sabe-se que em Maio de 1918, no dia da Festa da Árvore, Antónia Adelaide Mota Ferreira plantou uma árvore no jardim da Cova da Piedade; sabe-se que estas comemorações foram longamente interrompidas, devido à mudança do regime político; mas também se sabe que os alunos do primeiro ano em que funcionaram as Escolas do Clube Desportivo da Cova da Piedade, em 1947, festejaram o seu curso com a plantação de uma árvore.

Apresentação do Dia Internacional das Florestas pela FAO
Lema de 2021: Restauração das Florestas

A história das árvores no concelho do Seixal exemplifica o que talvez tenha sido a história das árvores em toda a Península de Setúbal.
Ao chegar à Idade Média a floresta desta região era do tipo mediterrânico, com Aroeiras, Carrascos, Carvalhos, Medronheiros, Pinheiros-mansos, Sobreiros, Urzes, Zambujeiros, … A sua utilização como coutada, por reis e fidalgos, e a exploração silvícola foi transformando esta floresta em charneca. D. Fernando e os seus sucessores introduzem-lhe o Pinheiro-bravo, originário da Flandres.
Com as viagens marítimas, os jardins encheram-se com espécies exóticas, com fins ornamentais: as os Plátanos, as Pimenteiras, as Palmeiras, as Magnólias, os Jacarandás, os Dragoeiros, os Cedros, as Casuarinas, as Borracheiras, as Araucárias, as Acácias, …
E, em paralelo, as quintas tinham nos seus pomares, para venda dos frutos em Lisboa, Figueiras, Laranjeiras, Limoeiros, Tangerineiras, …; e nos seus campos, Videiras e Oliveiras, mais os respectivos lagares.

Era um tempo em que se vivia a «festa da árvore» todos os dias.

Os Eucaliptos só chegaram no século XIX, sendo hoje dominantes, conjuntamente com o Pinheiro-bravo.

Fontes: livros de Manuel Lima (1997b, pp. 81-83; e «A árvore no concelho do Seixal») e livro do Colectivo das Escolas do Clube Desportivo da Cova da Piedade (2019; p. 26)

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

[0272] Educação Patrimonial VII

 Corroios, onde o concelho do Seixal se inicia para quem vem de Almada, foi a terra que, em 1976,  “acolheu” Manuel Lima, como residente e como professor. Naturalmente, Manuel Lima ganhou “apego, carinho e entusiasmo pelas coisas que a ela dizem respeito.”

Durante mais de uma década pesquisou-a através das mais diversas “áreas de saberes”. “Trabalho de campo, pesquisa bibliográfica, consulta de organismos técnicos especializados e principalmente recolha oral”: uma “pesquisa transdisciplinar”, com “abordagens entrelaçadas”.
No livro em que reuniu os diversos artigos que foi escrevendo e publicando sobre a sua terra, Manuel Lima “aborda de uma forma globalizante conhecimentos locais, nas áreas não só da geologia, da biologia ou da geografia, mas também do domínio do ambiente, da história, das ciências sociais ou económicas.” Não se trata de um livro publicado agora, mas sim há 20 anos, sendo intuito desta mensagem lembrar o potencial com que o seu conteúdo nos continua a desafiar:

 

Corroios. Minha Terra co(m a)rroios



Diz-nos Manuel Lima, na nota prévia com que no-lo apresenta: “a maioria da população da freguesia de Corroios reside neste território há relativamente pouco tempo, desconhecendo por vezes as raízes culturais desta terra.” Ora, “só conhecendo a sua área residencial melhor se poderá integrar e participar na vida colectiva.
Em particular, é “cada vez maior a necessidade de enraizar a escola no meio, preparando-a para dar respostas aos problemas da sociedade local.”

 

Os saberes familiares e os saberes locais serão os primeiros contextos em que cada criança enraíza o desenvolvimento do seu próprio saber sobre o mundo. Contextos concretos, portanto capazes de proporcionar um sentido aos contextos mais abstractos que lhe irão chegar quando for solicitada a interagir com os saberes globais.
Então, quais são os contextos que Manuel Lima nos descreve no seu belo livro sobre Corroios?
Alterando a ordem pela qual eles são nos apresentados, como capítulos, para começarmos pela natureza e depois chegar à acção humana:
Os recursos hidrológicos e geológicos. Que, antes de serem «recursos» (ponto de vista do Homem), são a Terra antes da existência da Vida.
O Sapal de Corroios e o seu ecossistema. A interacção primordial entre a Terra e o Mar, com a Vida a nascer dela.
Património vegetal. A primeira grande expansão da Vida: a das plantas.
Ornitologia e antigas actividades cinegéticas. A segunda expansão da Vida: a dos animais, aqui representados pelas aves. Mas a não confundir, por enquanto, com o modo como o Homem dela procurou viver.
Antigas quintas e actividades rurais. Se as actividades cinegéticas recordam o nosso passado de Caçadores e Recolectores, as quintas recordam o nosso passado como Agricultores.
Património construído, tal como o crescimento urbano e populacional. Depois da sedentarização, o crescimento em número, devido à agricultura e a outros contributos civilizacionais.
Modos de vida e actividades do passado, bem como as antigas artes, profissões e ofícios. O modo como vivemos até há não muito tempo atrás, e que ainda é a matriz das nossas Culturas e das nossas Técnicas.
Indústria a economia local. Tudo tem vindo a mudar desde a Industrialização, e o âmbito local não lhe é alheio.
Colectividades e outras associações. Elas têm sido uma das respostas culturais às grandes mudanças que estão em curso desde há dois séculos.
Educação e escolas. E aqui residirão as esperanças para que o prosseguimento dessas mudanças se enraíze em todos nós.
Protecção do ambiente. Último capítulo, e aí bem colocado: teremos de voltar a olhar para o princípio, se nos queremos proteger de nós próprios.

 

Como integrar toda esta riqueza de saberes nos currículos escolares é, portanto, o permanente desafio com que este livro nos confronta.

Será então necessário observar como as escolas o estão, ou não, a trabalhar!

 

Fontes: livro de Lima (2001; citações das pp. 7-8)

sábado, 29 de agosto de 2020

[0249] Educação Patrimonial (II)


A Escola Profissional de Arqueologia, uma escola pública criada em 1990, com sede em Marco de Canavezes, tem como actual oferta educativa os seguintes cursos:

Curso Profissional (Ensino Secundário):

Assistente de Arqueólogo
Técnico em Animação de Turismo
Técnico de Fotografia
Técnico de Museografia e Gestão do Património

Curso de Educação e Formação, tipo 3 (3º ciclo):
 
Operador de Fotografia

Como forma de enriquecer os seus currículos, esta escola está a produzir um conjunto de vídeos cuja motivação central se traduz através do lema Ensinar com Património.
Neste âmbito, a professora Dulcineia Pinto teleconversou, via Zoom, no passado dia 16 de Julho, com a animadora patrimonial Elisabete Glória Gonçalves, visando conhecer o seu trabalho para o Plano Municipal de Promoção do Sucesso Educativo no concelho de Almada, aí designado por Projecto Mais Leitura, mais Sucesso.

Vídeo: O Nosso Tesouro / Recolha do Património Cultural dos Alunos de Almada

Duração: 1 hora 1´ 33´´


Ligando o Património à Literacia, à Arte e ao Território, e não se encerrando em Almada, o projecto de Elisabete Glória Gonçalves pretendeu envolver as famílias nas actividades dos jovens alunos, contribuir para a sua integração comunitária e promover um conceito de Património Cultural que parte das pessoas, das famílias e das comunidades, em vez de se impor a partir de cima.
A lista dos tesouros patrimoniais que foram recolhidos através deste projecto mistura referências culturais vindas tanto dos vários continentes como de Almada, das suas das proximidades e do resto do país, sendo umas festivas, outras materiais e outras tão só do dia a dia:


O resultado desta recolha será apresentado em breve numa exposição itinerante, podendo passar por vários equipamentos culturais de Almada e, se as condições o permitirem, também por escolas.

Fonte: sítio da Escola Profissional de Arqueologia
Revisão da mensagem: Elisabete Glória Gonçalves

sábado, 28 de setembro de 2019

[0206] Duas actividades do Centro de Arqueologia de Almada, em Outubro


Já no próximo Sábado, dia 5 de Outubro, apresentação do livro Sobreda ontem e hoje, da autoria de Elisabete Glória Gonçalves, no Salão Nobre do Solar dos Zagallos, pelas 16h00:


E no dia 24 de Outubro, na Travessa Luís Teotónio Pereira (Cova da Piedade 2805-187 Almada), pelas 18h00, conversa sobre a história do Serviço Educativo do Centro de Arqueologia de Almada, animada por Ana Braga, Elisabete Glória Gonçalves e José Carlos Serra


segunda-feira, 27 de maio de 2019

[0191] Apresentação de um livro sobre o cinquentenário das Escolas do Clube Desportivo da Cova da Piedade


No salão nobre do Estádio Municipal José Martins Vieira (Cova da Piedade), será apresentado no próximo Domingo (2 de Junho), pelas 16h00, o livro

50 Anos ao serviço do Ensino Popular e da Democracia,

uma história sobre as Escolas do Clube Desportivo da Cova da Piedade.
A apresentação estará aberta aos interessados.



sábado, 24 de fevereiro de 2018

[0120] Um compasso de espera na organização do encontro «Memórias em Educação no Território de Almada e Seixal»

Entre o final de 2016 e o início de 2017 este Encontro foi alvo de três mensagens neste blogue («0009», «0018» e «0031»).

Através dessas mensagens, procurou-se prolongar as informações que um outro blogue, com designação semelhante à do Encontro, o www.memoeducsa.blogsopt.pt, já tinha dado sobre ele - e que fora suspenso por falta de alimentação regular pelos leitores.


Os três dinamizadores centrais deste processo de memorialização, Carlos Abreu, Joaquim Sarmento e Pedro Esteves, esclareceram há dias as dificuldades por que ele passou, deixando em aberto os caminhos para o seu prosseguimento. O essencial desse esclarecimento é o seguinte:

Faz agora um ano que reunimos pela última vez para pensar e partilhar Memórias em Educação nos concelhos de Almada e Seixal e os amigos e colegas que aceitaram participar neste desafio têm o direito de saber qual o ponto de situação deste projeto.
Como certamente todos terão presente, o projeto inicial de recolha, guarda e divulgação das Memórias evoluiu para a organização de um Encontro para um universo alargado de protagonistas e participantes, tornando este desafio mais aliciante mas também mais complexo e difícil de operacionalizar.
A equipa dinamizadora constituída pelo Carlos Abreu, Joaquim Sarmento e Pedro Esteves, ficou reduzida com a saída por motivos pessoais do Carlos e fortes limitações do Sarmento, residente no Algarve interior. Na impossibilidade de reforçar esta equipa de missão optou-se por suspender a organização do Encontro e deixar este projeto em hibernação, podendo vir a ser desenvolvido, se existir da parte do grupo alargado de aderentes, condições favoráveis para ser retomado.
Nestas circunstâncias caberá a cada um de vós avaliar e dar opinião sobre o futuro das nossas Memórias em Educação.

domingo, 12 de março de 2017

[0042] O tempo que os professores hoje trabalham

Visando conhecer os horários de trabalho dos docentes, a Federação Nacional de Professores realizou um inquérito a que foram dadas 5 709 respostas, aproximadamente 10 % do total dos docentes do ensino público.


Segundo os resultados deste inquérito, os professores trabalham, em média, mais de 46 horas por semana quando o seu horário, por lei, deveria ser de 35 horas.
As chamadas «componente lectiva» (tempo de aulas) e «componente não lectiva» (apoio aos alunos, reuniões, etc.) estão dentro dos limites estabelecidos pela lei. O que já não acontece com a chamada «componente de trabalho individual»: os professores inquiridos afirmam que, em média, despendem 23 horas por semana na preparação de aulas, na correcção de testes, fichas e trabalhos para casa e nas tarefas administrativas, entre outras actividades. Esta componente não deveria ultrapassar as 11 horas semanais.
Segundo o Sindicato, os resultados do inquérito demonstram que os professores tinham razão quando apontavam os horários de trabalho como “um dos maiores problemas que enfrentam diariamente”. Pelo que voltará a reivindicar que a atribuição de tarefas aos professores seja compatível com o horário de 35 horas semanais e que sejam clarificadas as actividades que se incluem na componente lectiva e aquelas que fazem parte da não lectiva, onde entram actualmente por exemplo os apoios extra aos alunos (que o Sindicato considera serem actividades “claramente lectivas”).

Fonte: Viana (2017a)

sábado, 25 de fevereiro de 2017

[0040] Menos poder para os directores, defendem 92% dos professores

A Federação Nacional de Professores (Fenprof) promoveu um inquérito a que quase 25 mil professores de escolas públicas responderam (cerca de 16% do total).


Segundo o jornalista Samuel Silva, que noticiou a apresentação dos resultados, 92% dos professores inquiridos responderam que a gestão das escolas deve ser colegial: “A maioria dos inquiridos discorda do actual modelo de gestão dos estabelecimentos de ensino, que estabelece que os poderes se concentram na figura de um director, que tem depois o papel de escolher o sub-director e os seus adjuntos. Apenas 7% concordam com a manutenção deste modelo.”
Sensivelmente a mesma percentagem das respostas apontou para que “o órgão de gestão da escola deve ser eleito por todos os professores, funcionários e representantes dos encarregados de educação e alunos,” sendo a “eleição entre os pares” o “modelo favorito”, “seja para a coordenação de departamento (94%) como para a coordenação de turma (87%). Além disso, 79% apontam que qualquer docente deve poder candidatar-se ao órgão de gestão, cabendo aos eleitores avaliar a sua competência.”

“Na avaliação ao actual regime de gestão das escolas, 71 % dos professores inquiridos consideram que o sistema aumentou as situações de abuso do poder, o clima de insegurança e de medo e o alheamento em relação aos assuntos da vida escolar, ao passo que 18 % acreditam que melhorou as relações de trabalho e as condições de participação nos processos de discussão e decisão.
A única matéria em que as opiniões dos professores ouvidos pela Fenprof estão divididas prende-se com a liderança do Conselho Pedagógico. Enquanto 52 % entendem que aquele órgão deve poder ser presidido por qualquer um dos seus membros, 47 % defendem que apenas o director ou o presidente do conselho de gestão deverão poder assumir aquele papel.
Os resultados deste inquérito estão a ser discutidos em cada escola desde a semana passada, num conjunto de reuniões que se prolongam até ao final do mês. A Fenprof vai também promover, no dia 14 de Março, um debate nacional sobre o tema, que contará com a presença das duas confederações de pais, o sindicato que representa os trabalhadores não docentes e o movimento estudantil.”

Fonte: Silva (2017)

sábado, 11 de fevereiro de 2017

[0036] O duplo problema do «tempo»

Na passada 5ª feira (dia 8 de Fevereiro), Manuel Carvalho da Silva proferiu uma conferência na sede Sul do Sindicato dos Professores da Grande Lisboa. Título: Agir contra a corrente: Desafios aos Professores e aos Sindicatos (mensagem «0033»).


O seu raciocínio sustentou-se (implicitamente) numa preocupação que começa a tornar-se central: em quê basear uma reformulação social?


Um exemplo desta preocupação está patente num artigo recente do sociólogo Razmig Keucheyan: «Aquilo de que (realmente) precisamos».
Aí ele refere o pioneiro da «ecologia política», desde os passados anos 50 e 60, André Gorz (1923-2007) que procurou fundamentar as opções do colectivo numa teoria das necessidades humanas.
Escreveu Keucheyan: “Segundo André Gorz, a sociedade capitalista tem como divisa: «O que é bom para todos não vale nada. Tu só serás respeitado se possuíres algo ´melhor` do que os outros». Podemos opor-lhe uma divisa ecologista: «só é digno de ti o que é bom para todos. Só merece ser produzido o que não privilegia nem rebaixa ninguém». Aos olhos de Gorz, uma necessidade qualitativa caracteriza-se por não conferir «distinção».

Carvalho da Silva propôs dois grandes princípios para responder a esta preocupação: o da «saúde» e o do «tempo». Na sua intervenção foi possível distinguir duas formas de abordar o menos óbvio princípio do «tempo»: por um lado, o da luta, porque ele nos é crescentemente «roubado» (através da intensificação do trabalho, da acessibilidade permanente a quem trabalha, etc.); por outro lado, o da afirmação, pois também nós procuramos definir (e impor) o que fazer com ele.

O irreversível «tempo» não foi sempre encarado do mesmo modo, porque as sociedades mudaram. No século XVII, por exemplo, Frei António das Chagas (1631-1682) escreveu sobre ele o seguinte poema, cantado hoje por Camané:

Conta e Tempo

Deus pede {hoje] estrita conta de meu tempo.
E eu vou, do meu tempo, dar-lhe conta.
Mas, como dar, sem tempo, tanta conta.
Eu, que gastei, sem conta, tanto tempo?

Para dar a minha conta feita a tempo
O tempo me foi dado, e não fiz conta,
Não quis, sobrando tempo fazer conta,
Hoje quero acertar conta e não há tempo.

Oh! vós, que tendes tempo sem ter conta,
Não gasteis vosso tempo em passatempo.
Cuidai, enquanto é tempo, em vossa conta.

Pois aqueles que sem conta gastam tempo,
Quando o tempo chegar de prestar conta
Chorarão, como eu, o não ter tempo.

Mas Frei António das Chagas escrevia já num tempo em que a noção de tempo começara a mudar fortemente. Patricia Fara, historiadora da ciência, escreveu sobre essa mudança: “Registar o tempo implica exercer controlo. Quando os relógios mecânicos foram introduzidos, no final do século XIII, impuseram horários religiosos regulares às atividades tradicionais das aldeias; seiscentos anos mais tarde, relógios mais precisos disciplinavam a sociedade, de forma cada vez mais estrita.

Com os extremos a que este controlo está hoje a chegar, não será necessário alterarmos a ênfase na «defesa do tempo que temos» para a ênfase na «afirmação do modo como o queremos usar»?

Fontes: Keucheyan (2017); Chagas, cantado por Camané (2015); Fara (2013; p. 261)

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

[0027] Tópicos inspiradores de debate, vindos das 26 mensagens de 2016

Dinâmicas dos actores educativos

Jovens tomam a iniciativa nas suas escolas

Mensagem «0021»:
Há cerca de 1 000 escolas ocupadas pelos seus alunos no Brasil. Dá trabalho ocupar uma escola. Os alunos escreveram:Sua saúde mental vale mais que suas notas”. E também: “NADA DEVE PARECER IMPOSSÍVEL DE MUDAR”. E disseram: “A escola tradicional não oferece muito pra gente”

Investigadores colocam desafios educacionais e organizativos

Mensagem «0001»:
A revista «Apogeo», da Associação de Professores de Geografia, dedicou o nº 48 ao tema «Educação e Território»

Mensagem «0025»:
Os arquivos escolares são particularmente importantes para a salvaguarda e preservação dos seus documentos, que constituem instrumentos fundamentais para a história da escola e a construção da memória educativa, afirmou a investigadora Maria João Mogarro

Escolas procuram vias curriculares alternativas

Mensagem «0006»:
Em 2008-12, na escola EB1 de Vale da Amoreira, situada entre a Moita e o Barreiro, os alunos de uma turma do 1º ciclo (filhos de portugueses, de cabo-verdianos, de angolanos, de guineenses, …) aprenderam simultaneamente em Crioulo e Português, com as professoras Ana Josefa e Ana Carina, durante uma hora e meia por dia; os seus pais ficaram orgulhosos

Mensagem «0013»:
A Casa da Floresta Verdes Anos, colégio em Lisboa onde não há computadores nem quadros interactivos, não é a única a seguir uma via menos convencional.
N’Os Aprendizes, em Cascais, além do edifício onde decorrem as aulas, há uma casa, o Reino dos Sentidos, dedicada sobretudo à arte-terapia: não é só para meninos com necessidades educativas especiais, qualquer criança pode ir lá e tentar ultrapassar uma dificuldade através da pintura, música, neuroterapia, entre outras hipóteses.

Estes colégios são privados, mas a Escola da Ponte, Santo Tirso, do pré-escolar ao 3.º ciclo, é pública. Sem aulas expositivas, são os alunos que escolhem as matérias e quando querem ser avaliados.


Mensagem «0023»:
«Há seis, sete anos começámos a sentir que havia alguns problemas com a Matemática. Por outro lado, notávamos que os alunos davam muitas opiniões mas eram incapazes de argumentar. Não conseguiam construir um caminho para chegar a uma conclusão. Sabíamos de experiências do uso do xadrez em escolas lá fora e decidimos avançar», explicou Vítor Rodrigues, director da Escola 31 de Janeiro, na Parede

Grupos procuram estabelecer pontes entre todos os actores

Mensagem «0007»:
O Núcleo de Almada e Seixal da Rede Educação Viva, membro da «Rede de Educação Alternativa» (Reevo), promoveu um encontro regional, visando “dar vida a uma comunidade de partilha e aprendizagem, estimulante e participativa, num encontro com dinâmicas para todas as idades.”


Mensagem «0008»:
O grupo «Educação: Pontes na Outra Banda» divulgou o seu objectivo de estabelecer «pontes» entre os diversos envolvimentos profissionais na Educação, nomeadamente no âmbito da Educação Patrimonial

Mensagens «0008» e «0018»:
Um grupo de educadores divulgou a preparação de um Encontro sobre as «Memórias em Educação no Território de Almada e Seixal», a realizar no início de 2018

Mensagem «0010»:
Um grupo de educadores promoveu uma visita conjunta a três exposições patentes nas instalações do Presídio da Trafaria: «As Vinhas de Almada. O vinho na história local» (da autoria do Centro de Arqueologia de Almada); «Objecto - Projecto» (realizada no âmbito da Trienal de Arquitectura, com curadoria do arquitecto Godofredo Pereira); e «O Presídio e a Trafaria. 450 Anos de História» (da autoria do Centro de Arqueologia de Almada)


Comentário dirigido a esta mensagem:
Aqueles que nós consideramos «o outro», consideram-nos por sua vez como «o outro» …
Se esta distinção é estéril, que se ganhará se nos reconhecermos mutuamente como complementarmente diferentes?
Stephen Stoer e António Magalhães escreveram um livro para acentuar que «A Diferença Somos Nós» (2005). E o ensaísta Alberto Manguel, referindo-se a Dom Quixote e a Sancho Pança, afirmou: “Tornaram-se espelhos enobrecidos postos frente a frente, reflectindo as qualidades que, invisíveis num, são visíveis no outro, e vice-versa.” (2011; p. 108)

Mensagem «0022»:
Um grupo de amigos do Museu de Metrologia promoveu uma visita guiada a este Museu

Instituições promovem encontros de divulgação

Mensagem «0002»:
O Instituto Português da Qualidade promoveu um encontro sobre Metrologia e Ensino, com os objectivos de divulgar a Metrologia e de interagir com outras organizações ligadas à educação ao nível do 2º, 3º ciclo do ensino básico, do ensino secundário e do ensino superior.

Mensagem «0003»:
O Museu de Arqueologia e Etnografia do Distrito de Setúbal e o Fórum Intermuseus do Distrito de Setúbal divulgaram a realização das «Jornadas Arqueológicas da Região de Setúbal»

Mensagem «0011»:
O Museu Naval, de Almada, divulgou uma exposição sobre as origens «milenares» deste concelho

Caminhos para a construção de uma «comunidade»

Jovens dão a sua opinião

Mensagem «0012»:
«Se fosse ministro da Educação reduzia as cargas horárias para que tivéssemos tempo de ser crianças e jovens. Em vez de aulas com o professor a expor a matéria promoveria a aprendizagem por experimentação e observação, porque assim como é em 50 minutos de aulas com o professor a falar apenas retemos cinco a 10 minutos do que ele diz», disse a Mariana

Mensagens «0015», «0016» e «0017»:
O último estudo «Health Behaviour in School-aged Children», que a Organização Mundial de Saúde realiza de 4 em 4 anos, e que visa avaliar hábitos, consumos e comportamentos com impacto na saúde física e mental dos adolescentes, aos 11, aos 13 e aos 15 anos, foi apresentado em Março passado, em Bruxelas. Os dados são de 2013-14 e correspondem às respostas de mais de 220 mil adolescentes, norte americanos e europeus (6 mil eram portugueses), de 42 países e regiões

Educadores formulam as suas memórias

Mensagem «0019»:
Foram lembrados os 30 anos decorridos desde o dia 22 de Novembro de 1986, em que se  realizou na Escola Secundária Emídio Navarro um «Encontro Debate sobre a Situação do Ensino em Almada-Seixal»


Comentário dirigido a esta mensagem:
Em Almada e no Seixal o problema das instalações e dos recursos melhorou muito nestes 30 anos. Bem como o «sucesso escolar», tal como em todo o país.
A inadequação dos «programas» continua, nos exactos termos em que a formulámos em 1986. E o «sucesso educativo» foi sendo secundarizado.
A ligação entre os dois concelhos piorou. E fazem falta outros debates públicos (em que a maioria não vá apenas ouvir os «especialistas» e os «gestores»). Fazem sobretudo falta encontros entre a grande diversidade de educadores que, ao longo destes 30 anos, surgiu e se afirmou.
Por todo o país, aumentou, e muito, a «hierarquização», problema que pouco se sentia há 30 anos. E que hoje tem um reflexo devastador no ambiente escolar e no estado de espírito dos professores.

Mensagem «0026»:
Foram lembrados, através de um livro, «A Cidade do Teatro [edição comemorativa pelos 20 anos da MOSTRA DE TEATRO DE ALMADA / 1996-2016]», não só 47 os grupos participantes nas 20 edições desta Mostra como um pouco da história do teatro neste concelho e algumas das suas ligações à educação


Comentário dirigido a esta mensagem:
Este será o primeiro exemplo de uma «comunidade real» (teatral, mas também educativa) que se desenvolveu no seio da nossa «comunidade educativa virtual».
Deveriam ser estudadas as condições e as iniciativas que geraram esse desenvolvimento.

Investigadores divulgam os seus estudos e dão a sua opinião

Mensagem «0004»:
Um terço dos nossos professores portugueses foi descrito por um estudo como estando «exaustos, desiludidos ou baralhados»

Mensagem «0024»:
Chris Whitehead, investigador e professor de Museologia na Universidade de Newcastle, afirmou, numa entrevista, ser necessário os museus aprenderem a «lidar com o passado»: “Os museus têm tendência a concentrar-se nas dificuldades do passado, mas parecem não ver que elas nos seguem até ao presente. É obrigatório fazer essa ligação.” (Chris Whitehead)

Municípios adoptam uma filosofia educativa

Mensagem «0014»:
A Associação Internacional das Cidades Educadoras tem membros em todos os continentes. A Rede Territorial Portuguesa das Cidades Educadoras inclui, actualmente, 61 cidades, 5 delas do distrito de Setúbal:
O 1º Congresso Internacional das Cidades Educadoras foi realizado em Barcelona, em 1990. Nele foi elaborada a Carta das Cidades Educadoras, mais tarde revista nos congressos de Bolonha, em 1994, e de Génova, em 2004

Instituições internacionais divulgam os seus estudos

Mensagem «0005»:
Foi divulgado o relatório «Education at a Glance», de 2016, através do qual a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico) compara e comenta o estado da educação nos seus países membros (e em mais alguns associados)

Mensagem «0020»:
Foi divulgado o relatório do TIMSS - Trends in International Mathematics and Science Study (Estudo Internacional sobre as Tendências em Matemática e Ciências) – realizado em 2015 pela IEA - International Association for the Evaluation of Educational Achievement (Associação Internacional para a Avaliação dos Resultados Educativos), e no qual participaram alunos portugueses

Comentário dirigido a esta mensagem:
A propósito dos «resultados» deste TIMSS [de 2015], houve quem destacasse que os miúdos portugueses da 4ª classe já estavam melhor que os finlandeses em Matemática. Mas «estar à frente dos outros» não é o objectivo dos finlandeses. Eero Väätäinen [citado por Descamps, 2013], que coordenou uma escola e o sector da educação duma cidade, descreveu assim o espírito das reformas educativas na Finlândia:
“Não devemos esquecer que as crianças não andam na escola para fazer testes. Elas vêm aprender a vida, encontrar o seu próprio caminho. Acaso se pode avaliar a vida?” 


terça-feira, 22 de novembro de 2016

[0019] Faz hoje 30 anos!

No dia 22 de Novembro de 1986 realizou-se na Escola Secundária Emídio Navarro um Encontro Debate sobre a Situação do Ensino em Almada-Seixal.


O «Documento Final» que resultou deste Encontro transcreveu as seguintes intervenções:

Secretariado das Associações de Pais de Almada e Seixal
António Matos (vereador da CMS): «Situação da rede escolar em Almada e Seixal»
Luísa Beato (presidente dos Inter Conselhos Directivos da AP 12): «Condições de trabalho nas escolas»
Elsa Oliveira (professora da ES Emídio Navarro): «O insucesso escolar»
Óscar Soares (membro da Direcção do Sindicato dos Professores da Grande Lisboa): «Condições socio-profissionais dos professores»
Sérgio Taipas (vereador da CMA): «A intervenção das Câmaras de Almada e Seixal»
Olga Maria Lopes (membro do Conselho Directivo da EP Vale da Romeira I): «Papel da Acção Social Escolar nos estabelecimentos de ensino»
Araújo (professor na EP Vale da Romeira I)
Rui Miguel Salvado (membro do Conselho Directivo da EP Vale da Romeira I): «Situação da Escola Preparatória do Vale da Romeira I»
António Morais (membro do Conselho Directivo da EP de Corroios): «Segurança nas escolas»
Elsa Farto (membro da Associação de Pais da ES do Seixal)
José Carlos Caldeira (membro da Associação de Pais da EP do Feijó)
Drawin Pedroso (membro da Comissão de Pais da EP de Corroios)
Júlia Loureiro (membro da Associação de Pais da ES do Feijó)
Carlos Alberto Almeida (membro do Secretariado da Associação de Pais dos Conselhos de Almada e Seixal)
Maria João Boléu Tomé (presidente da Confederação Nacional da Associação de Pais)

As intervenções destacaram claramente o problema maior que levou à realização do Encontro: desde os anos anteriores, as escolas dos dois concelhos defrontavam-se “com graves dificuldades, nomeadamente carências de instalações e equipamentos”, que implicavam atrasos “no início de sucessivos anos lectivos, com repercussões nas condições de trabalho e aprendizagem, com elevadas taxas de insucesso escolar.” Naquele momento (era já Novembro!), ainda havia 2 500 alunos sem aulas em 3 das escolas destes concelhos.
Mas as intervenções referiram ainda outros problemas: o insucesso escolar era um problema grave no país (24 % no 5º ano; 19 % no 6º ano; 36 % no 7º ano; 34 % no 8º ano; e 32 % no 9º ano) e resultaria de programas que não tinham sido articulados e que eram desadequados (face ao “interesse dos alunos” e à “realidade do mundo actual”) e insuficientes (para responder às necessidades de “formação do aluno como pessoa e cidadão interessado, crítico e participativo” e para proporcionar a cada um espaço para a manifestação da sua “individualidade”).

A Moção / Proposta de Resolução aprovada, também transcrita no «Documento Final», visava:
Ponto 1: a urgente solução dos problemas que afectavam a Escola Preparatória do Vale da Romeira I, a Escola Secundária de Corroios II e a Secção da Escola Secundária Emídio Navarro;
Ponto 2: a melhor preparação dos anos lectivos seguintes, recorrendo à participação de quem, nas escolas, conhecia e sentia os seus problemas; a substituição das Escolas Preparatórias do Laranjeiro e Vale da Romeira I, a criação da Escola Preparatória de Corroios e das Escolas Secundárias da Sobreda e do Seixal II, a execução da 2ª fase da Escola Secundária do Fogueteiro e o abandono das velhas instalações da ex-Escola Secundária Anselmo de Andrade; a adopção, em paralelo, de medidas sobre os orçamentos das escolas, os livros escolares, a acção social escolar, a segurança das escolas; a concretização participada da Lei de Bases do Sistema Educativo (aprovada pouco tempo antes).