domingo, 28 de junho de 2020

[0241] Parte de uma entrevista a Nuno Santos, ou ao rapper Chullage


Nuno Santos nasceu em Lisboa, em 1977, filho de pais cabo-verdianos, mas cresceu e vive na Margem Sul, primeiro no Monte da Caparica, depois na Arrentela. Licenciou-se em Sociologia, foi um dos fundadores da «Khapaz — Associação Cultural de Afrodescendentes», com sede no Seixal, e desenvolve trabalho de acção social e cultural.
É um dos músicos fundamentais do hip hop português, com uma carreira de mais de duas décadas, onde é conhecido por Chullage. Através das suas letras questiona as desigualdades sociais e o racismo, como nos álbuns Rapresálias (2001), Rapensar (2004) e Rapressão (2012).
Nos últimos anos alargou a sua intervenção a outras áreas, integrando o «Teatro Griot», co-fundando o «Peles Negras Máscaras Negras - Teatro do Escurecimento» e colaborando com os artistas visuais Vhils e Mónica de Miranda. Actualmente dedica-se ao desenvolvimento de «Prétu», alter-ego artístico em que explora as suas origens africanas.

Fotografia de Daniel Rocha para o jornal «Público»

Cinco perguntas (de Mário Lopes), cinco respostas (de Nuno / Chullage), de uma entrevista ao jornal «Público»:

É músico e sociólogo, trabalha em teatro e em artes visuais. Todas actividades afectadas pelas pandemia. Como foi a sua vida neste período?
Devo confessar que aqueles primeiros dias até foram bons. Estava muito cansado e há muito que me propunha estar em casa. Ao mesmo tempo que o meu corpo estava a entrar num espaço de descanso, a cabeça estava a acelerar, a tentar perceber o que se estava a passar. A minha preocupação, inicialmente, não foi tanto do ponto de vista da saúde, mas de tentar perceber, do ponto de vista político e económico, o que se poderia instalar a partir disto.

Como dizem os manuais de auto-ajuda e como ouvimos tantas vezes durante a crise financeira anterior, esta crise também será uma oportunidade?
Esta crise é trágica, mas será uma oportunidade para a grande finança e para o fascismo tecnológico. Quando for dito às pessoas que serão instalados sistemas de vigilância para que possam circular em segurança e saber quem está contaminado, vão aceitar. Porque têm medo de morrer. Aceitando isso, terão de aceitar também tudo o que permitirá essa tecnologia: saber onde estás a cada momento, como bate o teu coração, o que acabaste de comprar, com quem estiveste. As tecnologias trazem possibilidades e trazem o outro lado, mais sombrio. O que me assustou foi não saber se iremos reflectir sobre tudo isto a tempo, com a mesma velocidade com que esta acção da natureza chegou e se impôs enquanto nós andamos aos tropeções a tomar medidas. Não acho que devamos pôr a nossa saúde em risco, digo é que temos de ser críticos e não ficar pela câmara de eco do Twitter e do Instagram. Se já nem podemos tomar como verdade o que é tido por informação, quanto mais viver numa sociedade em que a opinião se tornou a verdade.

Durante a pandemia, foi abordada a forma como a crise de saúde pública espelhou as desigualdades sociais. Por exemplo, o Bairro da Jamaica, no Seixal. Foi estigmatizado como foco do vírus, ou levantou a discussão sobre a falta de condições de habitação?
A questão do Jamaica é consequência de um discurso que se está a instalar de que os pretos e os ciganos é que estão a passar o covid. Mas, como disse o presidente da câmara de Loures, “e os transportes?”. As pessoas foram postas em casa, a seguir disseram-lhes que tinham de ir trabalhar e os transportes não acompanharam essa necessidade. Já viajei em hora de ponta num transporte público e era como se não houvesse covid. É um discurso que está a aparecer cada vez mais: “Estes gajos é que propagam isto”. Não é verdade, existem focos, de várias formas, em sítios diferentes. Tal como acontece nos Estados Unidos, há uma racialização desta doença. É uma situação complicada, mas haverá gente a ter epifanias: “temos de melhorar as condições de habitação”. Mas essa consciência devia vir associada à ideia de que a habitação é um direito, porque este tipo de habitação não pode existir para ninguém. Temos mais de 40 anos de democracia e desde o início desta democracia que se definiu que a habitação é um direito. Não é só um direito quando a falta de condições de umas pessoas põe em causa a saúde de outras. Não pode haver luxo e miséria porta a porta. Habitação não é mercadoria, é um direito.

Parece certo que estamos num momento de transição, mas não sabemos ainda para que futuro.
Não temos de saber. Temos sempre construído a História sem saber em que direcção, muitas vezes em reacção a algo que deixa de ser possível. Acredito que há pessoas que estão a pôr em causa os seus velhos hábitos. Teremos de transformar-nos, porque isto assustou-nos e é bom que nos tenha assustado, para entendermos que a natureza ainda tem poder e que nós podemos ter o poder de queimar a Amazónia, mas não conseguimos lidar com este bichinho que nem vemos. A natureza não são só as árvores, os leões e os elefantes para tirar uma foto. A natureza regenera-se. E nós? Se o ser humano quer mais umas centenas de anos de vida tem de pôr em causa o seu paradigma económico e social. É interessante pensar em como coexistir com os outros animais e plantas, mas também reflectir neste modelo económico que assenta no racismo, na exploração, na habitação como mercadoria pura, nas relações de poder hemisfério norte-hemisfério sul, que vive de conflitos mundiais para extrair. Uma economia global em que as pessoas circulam à toa a toda a hora, com os aviões a subirem e a descerem em low-cost ininterruptamente, o combustível a poluir tudo.

Deste lugar em que estamos agora, em plena pandemia, olha para o futuro e sente-se optimista ou pessimista?
Estamos numa transição e esta era que vamos atravessar agora será um desafio. Não quero pensar que transformação será essa porque me assusta. Quero assumir que é um tempo de transformação e que não nos permitirá ficar quietos. Vamos viver tempos muito polarizados, mas alguma mudança advirá deles e é a mudança que temos de procurar. Há um escrito anarquista que diz que ficamos à procura da luzinha lá ao fundo sem nunca sair do túnel porque, se cavássemos um buraco no túnel, íamos ter medo daquela luz toda. Mas se o agora não nos serve, por que é que haveremos de lutar para ficar com ele? Vamos tentar manter o que temos agora porque lá à frente está o desconhecido? Mesmo que se instalem regimes totalitários, tecnológicos ou económicos, isso não será novo. Já aconteceu antes e sempre houve resistência. Este marasmo, esta ideia feita de que o capitalismo e a globalização são o fim da História, é que não pode continuar. Não digo que o desafio não seja assustador, pela crispação, pela falta de sítios a que nos agarrarmos no meio de tantas vozes e de tantas verdades, mas isso obriga-nos a procurar o nosso centro, espiritual e ideologicamente. Gosto de pensar que há um sítio na História em que não somos pretos e brancos, homens e mulheres, mas em que somos humanos e em que, como humanos, somos como outro bicho qualquer, com as nossas características específicas. Há um caminho tecnológico que nos quer transformar em Deus e há um pensar económico que quer massacrar todas as outras espécies em prol da nossa. Esse é o caminho que seguimos até agora e esse é o caminho que não serve. Esta transformação vai trazer conflito, mas também vai trazer uma mudança de pele.

Esta entrevista pode ser acedida na sua totalidade através da página Documentos deste blogue, clicando na pasta Documentos da Nossa Banda

Fonte: entrevista de Chullage a Lopes (2020)

domingo, 21 de junho de 2020

[0240] Três formas de perspectivar as Cidades Educadoras


A Rede de Cidades Educadoras abrange hoje 505 cidades, situadas em 34 países de todos os continentes, e tem como referência comum a Carta das Cidades Educadoras (ver mensagem «0014»).
Esta Carta resultou de um processo iniciado no 1º Congresso Internacional das Cidades Educadoras, realizado em Barcelona (em 1990), em cujo final as cidades nele representadas aprovaram a sua primeira versão, depois foi revista nos congressos realizados em Bolonha (1994) e em Génova (2004). Externamente, ela inspirou-se na Declaração Universal dos Direitos do Homem (1948), no Pacto Internacional dos Direitos Económicos, Sociais e Culturais (1966), na Declaração Mundial da Educação para Todos (1990), na Convenção nascida da Cimeira Mundial para a Infância (1990) e na Declaração Universal sobre Diversidade Cultural (2001).


Têm sido propostas diversas perspectivas para o conceito e a prática de Cidade Educadora:

A cidade como meio educativo envolvente (aprender na cidade)

A cidade é considerada como o contexto, a não ignorar, da educação.

A cidade como agente educativo (aprender da cidade)

Os habitantes e a vida da cidade são considerados como agentes da educação.

A cidade como conteúdo educativo (aprender a cidade)

A cidade, onde os aprendentes se situam, é considerada um conteúdo da sua educação.

Há, neste momento, 82 cidades portuguesas integradas na Rede de Cidades Educadores:

(clicando em cada um deste nomes acede-se à informação sobre a participação dessa cidade na rede)

A Carta das Cidades Educadores pode ser acedida através da Página Documentos deste blogue (clicando em Documentos de outras organizações internacionais)

Fontes:
para a rede, sítio da Rede das Cidades Educadoras / Portugal (acedido em 21 de Junho de 2020);
e, para as diferentes perspectivas, tese de mestrado de Helena Bernardo (2007; ponto 1.4.)

segunda-feira, 8 de junho de 2020

[0239] Uma ferramenta digital para identificar plantas


O projecto internacional PlantNet disponibilizou uma ferramenta digital que nos permite identificar plantas ao vivo (observando-as através de uma aplicação instalada num Smartphone) ou a partir de imagens de arquivo (colocando-as num sítio acedido por computador): https://identify.plantnet.org.

Algumas experiências com esta ferramenta aconselham a sua aplicação a vistas / imagens próximas e nítidas e a não aplicação a plantas muito pouco frequentes (caso das plantas dos sapais).
Como em relação a tudo, é preciso utilizar esta ferramenta criticamente.

Três exemplos que mostram o resultado da identificação de árvores / arbustos da Nossa Banda (a partir de imagens digitais arquivadas):

Fotografia de 29 de Março de 2016, em Setúbal:


Identificação pela flor e pela folha:
Trata-se (com probabilidade 2,55 em 5) de uma Árvore-de-São-Tomé
(espécie Bauhinia variegata, da família Leguminosae),
ou de (probabilidade 1,48 em 5) uma Bauhinia purpúrea, também Leguminosae

Fotografia de 13 de Maio de 2017, no Barreiro:


Identificação pela flor:
Trata-se (com probabilidade 4,27 em 5) de um Metrosídero
(espécie Metrosideros excelsa, família Myrtaceae)

Fotografia de 9 de Fevereiro de 2018, no Museu da Música Mecânica, Pinhal Novo:


Identificação pelo fruto e pela folha:
Trata-se (com probabilidade 3,05 em 5) de uma Aroeira-vermelha
(espécie Schinus terebinthifolia, da famíla Anacardiaceae)

Fonte: sítio do Projecto PlantNet
Fotografias: Eva Maria Blum

quinta-feira, 28 de maio de 2020

[0238] Se só 10 % dos nossos alunos «gostam muito da escola», será que se brinca suficientemente nela?!


Hoje, 28 de Maio, comemora-se o Dia Mundial do Brincar.
Que nos diz este Dia acerca de todos os outros Dias que as crianças passam na escola?

Tendo há dias sido publicado o relatório em que a Organização Mundial da Saúde (OMS) analisou o que se passava em 2018 com o comportamento das crianças em idade escolar, o Health Behaviour in School-aged Children (HBSC), é inevitável começar por dar uma vista de olhos ao que aí se escreveu.

O modo como a jornalista Andreia Sanches descreveu a evolução do gosto dos adolescentes portugueses em relação à escola, ao longo dos últimos vinte anos, está resumida nesta expressão: uma queda a pique.


Em 1998, primeiro ano em que Portugal participou no HBSC, 29 % dos nossos adolescentes gostavam muito da escola (entre 28 países, estavam em 2º lugar, a seguir à Letónia).
Em 2018, apenas 9,5 % dos nossos adolescentes responderam do mesmo modo (entre 45 países estavam em 38º lugar)

Este estudo da OMS é realizado de 4 em 4 anos, sendo baseado em amostras representativas de alunos com 11, 13 e 15 anos e repetindo um conjunto de perguntas, de edição em edição, para poder comparar as respostas.
A pergunta que permite ter uma ideia do sentimento dos adolescentes acerca de pressão exercida pela escola diz respeito aos trabalhos de casa. Segundo a coordenadora portuguesa do HBSC, Margarida Gaspar de Matos, “Sobretudo os mais velhos e as raparigas põem Portugal nos piores lugares, o que acontece desde 1998”: seis em cada dez alunos portugueses de 15 anos (49 % dos rapazes e 73 % das raparigas) dizem sentir-se pressionados ou muito pressionados com os trabalhos académicos. Mas a média de 45 países analisados também subiu nos últimos anos, estando agora nos 44 %.
A escola está realmente a ser «menos amada» por toda a Europa”, afirmou Margarida Gaspar de Matos. “Depois, pela Europa inteira há empregos mais incertos e fica mais indefinido o papel da escola nesses «bons empregos». Os alunos desinteressam-se (ou stressam pelas classificações), a concorrência é grande, o que aprendem depois até parece que «não serve para nada» e quando conseguem arranjar um emprego parece que têm sempre «poucas competências» e vão fazer cursos de preparação. Acontece um pouco por todo o lado.

Os alunos portugueses queixaram-se sobretudo do excesso de matéria nas aulas e do aborrecimento sentido na escola. Mas estão acima da média quanto ao apoio dos colegas que referem: 70 % dos rapazes e 60 % das raparigas de 15 anos sentem-se muito apoiados pelos colegas, contra uma média de 60 % e 51 %, respectivamente, a nível internacional. E 80 % sentem-se seguros na escola, envolvendo-se menos em lutas do que os adolescentes de outros países.


O Dia Mundial do Brincar relembra-nos que brincar é um direito, tal como foi declarado no artigo 31º da Convenção sobre os Direitos da Criança das Nações Unidas. E também nos relembra que esse direito se mantém como essencial para todas as idades, por nos proporcionar diversão, convívio e concentração, por nos desafiar à exploração e à criatividade. Tal como se defende no seguinte vídeo:

https://www.youtube.com/watch?v=xBJSGcOFe7c

Não poderá a escola ser organizada de modo a que possamos aí aprender através do brincar: experimentando, exprimindo, simulando, cooperando, organizando, sonhando?!

Fontes: notícia de Sanches (2020); sítio do Calendarr Portugal

segunda-feira, 25 de maio de 2020

[0237] Em tempos de apresentações virtuais: o Instituto Português da Qualidade e o seu Museu de Metrologia


Em 20 de Maio passado celebrou-se o Dia Mundial da Metrologia.
A origem desta celebração remonta a 1875, quando, precisamente no dia 20 de Maio, foi assinada por 17 países, entre os quais Portugal, a chamada Convenção do Metro.

Habituado a celebrar este dia com um evento aberto a especialistas e ao público, o Instituto Português da Qualidade, decidiu celebrá-lo desta vez, devido às restrições que visam conter a expansão da pandemia do Covid-19, divulgando um vídeo onde mostra a importância da Metrologia em muitas das áreas das nossas vidas, incluindo nele uma breve apresentação do Museu de Metrologia, nele integrado:

Clicar em: https://www.youtube.com/watch?v=ABk6d5w12AY

Imagem: sítio do Instituto Português da Qualidade

segunda-feira, 18 de maio de 2020

[0236] 18 de Maio: Dia Internacional dos Museus


Espaços vocacionados para estar abertos, os Museus encontram-se agora, forçosamente, fechados!

Mas nem os museus, nem os seus públicos, se resignam!


Na Nossa Banda, o Museu do Trabalho / Michel Giacometti disponibiliza interessantíssimos (e muito bem feitos) vídeos que nos ajudam a mantermo-nos em contacto:


Veja-os, antes ou depois de visitar este Museu!

terça-feira, 12 de maio de 2020

[0235] Visitas ao Museu Municipal de Sesimbra (sem sair de casa)


Aproveitando o desafio que o confinamento nos coloca, o Museu Municipal de Sesimbra está a criar e a acessibilizar vídeos sobre os seus núcleos.

O programa «Um Museu Mais Perto de Si» já disponibilizou 5 episódios passados no Museu Marítimo de Sesimbra:


Episódio 1 (sobre os anzóis de pesca; aproximadamente 5 minutos):

Episódio 2 (sobre os nós usados na pesca; aproximadamente 5 minutos)

Episódio 3 (sobre os barcos de pesca; aproximadamente 6 minutos e meio)

Episódio 4 (sobre o que se pesca; aproximadamente 9 minutos e meio)

Episódio 5 (sobre histórias de Sesimbra, descritas através de marionetas; aproximadamente 9 minutos)

E o programa «Museu Fora de Portas» já disponibilizou 3 episódios sobre o Museu Marítimo de Sesimbra




… e outros 2 sobre o Núcleo Museológico da Capela do Espírito Santos dos Mareantes:



terça-feira, 21 de abril de 2020

[0233] O segundo adeus à «Escola Primária da Sobreda»


O ensino oficial na Sobreda começou em 1779, quando a rainha Dª. Maria I atribuiu a função de mestres aos frades Agostinhos Descalços do convento da Sobreda (os Capuchos da Caparica também receberam essa função). A instrução que ministravam era dirigida apenas a rapazes, que mais tarde podiam, ou não, professar votos naquela Ordem Religiosa. O convento encerrou em 1834, devido à lei que extinguiu as Ordens Religiosas.” Assim começa o capítulo sobre o Ensino no mais recente dos livros dedicados pelo Centro de Arqueologia de Almada à História e ao Património da Sobreda (Almada).

Nas décadas seguintes houve, certamente, outras formas de escolaridade na Sobreda. Sabe-se que, em 1881, existia uma escola laica, para rapazes, “fruto da iniciativa de alguns moradores”: os seus alunos e o seu professor surgem numa fotografia tirada nesse ano, e nela a escola está designada por Escola da Sobreda.

A Escola Primária a que esta mensagem se refere apenas chegou com a República. E surgiu assim, segundo aquele livro: “Em 1913 abriu a primeira escola pública e mista, no contexto da reforma educativa levada a cabo pelo governo republicano.” E paralelamente foi “criada a Caixa Escolar da Sobreda, uma associação que fornecia livros, materiais escolares, vestuário e calçado, gratuitamente ou a preço inferior ao do mercado, e também organizava excursões, conferências e festas. Tinha três tipos de sócios: Efetivos, que eram alunos inscritos com uma quota semanal mínima; Protetores, que fixavam livremente a sua quota; e Beneméritos, que prestavam serviços, faziam donativos ou contribuíam com géneros. É interessante verificar que alguns ideais republicanos estão patentes nos estatutos: «Os sócios da Caixa professarão o culto da bandeira e o culto da árvore, e serão protetores dos animais.»

Capa dos Estatutos (em CAA, 2019; p. 50)

Em 1918 esta escola era designada nos documentos administrativos por Escola Mista da Sobreda de Caparica, sendo uma das onze escolas primárias oficiais no concelho de Almada.

No início da década de 1940 o edifício da escola estava degradado. A família Piano pagou as obras, que incluíram instalações sanitárias para meninas e para meninos.” E no ano lectivo de 1943-44 a escola reabriu. “Vinham crianças da Sobreda, Alto do Índio, Urraca, Vila Nova e Lazarim.” Presume-se que terá assim funcionado até 1974, quando, após 48 anos de interrupção democrática, o entusiasmo pela educação regressou. Para os cursos de alfabetização de adultos, que começaram a funcionar à noite nas suas instalações, esta escola ainda foi capaz de dar resposta; mas para a crescente procura por jovens alunos, durante o dia, foi-se mostrando insuficiente; algumas aulas foram desviadas para o Clube Recreativo Sobredense; e, por iniciativa da Comissão de Moradores, foram sendo encontrados novos espaços de apoio e desdobramento, alguns dos quais viriam a dar origem a novas escolas. Até que a responsabilidade pela actualização da rede escolar foi assumida pelo Ministério da Educação.

Para quem vinha do Solar dos Zagallos e chegava ao cruzamento com a N10-1, o edifício da Escola Primária da Sobreda situava-se em frente, à direita, no início da subida que conduz ao Alto do Índio:

Imagem captada do Google Maps (em 21 de Abril de 2020) e aqui recortada

E a sua vista aérea, onde a Rua do Alto do Índio começa, era a seguinte:

Imagem captada do Google Maps (em 21 de Abril de 2020) e aqui recortada

Este edifício foi demolido há escassos dias. Encontrava-se degradado, mas fazia parte da proposta de edifícios a proteger ao abrigo de Carta do Património Cultural do Concelho de Almada.

Fonte: catálogo com um texto de Abreu sobre as escolas de Almada (2005; pp. 13) e livro com o estudo do Centro de Arqueologia de Almada sobre a Sobreda (2019; pp. 51-54)

terça-feira, 7 de abril de 2020

[0232] Dia Mundial da Saúde, hoje, 7 de Abril


As Nações Unidas escolheram 2020 como Ano Internacional das Parteiras e do Pessoal de Enfermagem (mensagem «0221»). Pelas piores razões, esta foi uma boa escolha.

Adicionalmente a esta circunstância, hoje é comemorado o Dia Mundial da Saúde. Este dia foi criado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), em 1948, de modo a alertar para um dos principais problemas que nos preocupam, sendo comemorado desde 7 de Abril de 1950.
Para a OMS, a saúde é um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não apenas a ausência de doença ou enfermidade.


Para os interessados, a OMS elaborou um relatório mundial sobre a situação e as necessidades destes profissionais, a que podem aceder e descarregar através da Página «Documentos» deste blogue.

Fonte: sítios da Calendarr e da OMS

segunda-feira, 30 de março de 2020

[0231] Porque vale a pena ler «Vulnerabilidades: pensar um país frágil», de José Reis?


Este blogue tem como objecto a Educação; e o objecto da Educação é o Património.
O Património é o que legamos às próximas gerações, e que elas aprendem a conhecer e aprendem a questionar - para o manter, para o ampliar, para o transformar.
A situação que já vivíamos, e especialmente a que agora estamos a viver, interroga tudo quanto pode ser legado entre gerações. E a interrogação é uma parte decisiva do Património.

José Reis dirigiu-se-nos assim:

Falemos de economia política. Falemos da política como deliberação coletiva. Soframos e decidamos. Portugal é uma periferia, mas uma periferia persistente.

No Observatório sobre Crises e Alternativas do Centro de Estudos Sociais, temos vindo a trabalhar na preparação de um livro que designámos Vulnerabilidades: Retrato de um país frágil (uso quase a mesma expressão para título deste artigo). Achávamos que Portugal estava a ser sujeito a processos relevantes de geração de vulnerabilidades e que estas se podiam identificar em diferentes escalas e dimensões. Era pelas nossas mãos, em vários planos, que tal estava a acontecer, visto que as vulnerabilidades são geradas ou induzidas por processos institucionais e políticos, isto é, por deliberações e formas de organização que juntam novas fragilidades à condição necessariamente incerta e contingente da vida individual e coletiva.
Provavelmente este livro era, na análise a que procedíamos, sobre o passado. O passado cuja aceleração se deu nos anos de 1990, quando os capitalismos foram tomados pelo capital financeiro, que passou a comandar intensamente a vida coletiva, incluindo os Estados. Ou o nosso passado mais recente, o que acabou há dias, quando bastava olhar para além do orçamento, do PIB ou do volume de emprego para tentarmos compreender o que de mais profundo a austeridade nos fez. Não pretendia ser um livro profético nem somos prosélitos. As razões que pudéssemos ter nos alertas que queríamos lançar doem-nos hoje profundamente, quando a vida nos foi tomada de assalto de uma forma disruptiva inimaginável.

Há coisas que custa invocar quando a vida está tão convulsa. Dizem-me, não confirmei, que há prateleiras cheias de meios-sapatos nas nossas zonas onde esta indústria se localiza. Sempre foi estúpido montar sapatos onde antes se sabia fazer tudo, mandando agora vir de muito longe algumas partes que aqui se produziam. Há 35 anos estudei a indústria metalomecânica de Águeda e a das bicicletas em particular. Tratava-se de um caso notável de um «sistema produtivo local»: aberto, mas autocentrado em culturas técnicas e na organização, no próprio território, das inter-relações essenciais, que articulavam vários setores e ramos de atividade. Dez anos depois voltei lá. Nas estatísticas já tinha visto que havia bastante trabalho feminino: ótimo, fosse a razão boa. Mas a razão era outra: já não se produziam bicicletas, montavam-se bicicletas. É hoje claro para todos que, para além de estúpido, isto é perigoso. Estes são exemplos singelos. Poupo os outros. Tanto os ainda mais volumosos, como aqueles que poupo por pudor. Estes são tempos de falar serenamente, para que se ouça melhor.

Entre o que subitamente mudou há duas variáveis essenciais: tempo e espaço. O tempo, essa variável com que tentamos compreender a evolução, as mudanças, os ciclos, isto é, os avanços e os retornos, mudou radicalmente. Tornou-se vertiginoso. Revolveu a vida, em vez de apenas a conduzir. O espaço foi-nos devolvido, reposto nas nossas mãos, depois de nos ter sido retirado em nome de cosmopolitismos superficiais, globalizações insensatas e mobilidades quase patéticas. Estragado, mas devolvido. Temos que pegar em ambos e usá-los. Para isso, talvez ajude pensar no que se segue.

Há poderes que não se entregam a quem não usa as mesmas regras ou os mesmos objetivos. Há coisas que são do Estado e dos Estados e elas só fazem sentido nos seus próprios contextos para serem legítimas e servirem para agir, não para servir senhores. Podem partilhar-se, pode até ser muito útil que haja espaços transnacionais de formação de poder. Claro que a União Europeia é um deles. Se for outra. Feita agora e por todos. Eu nunca fui capaz de pensar que a UE é intrinsecamente má, embora ache que ela foi o mais poderoso mecanismo de transferência de poder para o capitalismo iníquo da finança e dos mercados, protegendo-os e desprotegendo quem a podia legitimar. Não deixarei de pensar assim.

Há ativos cuja transação não se promove como quem leiloa coisas comuns. Sim, falo de quem presta serviços coletivos e de interesse geral – não basta regulá-los, é preciso possuí-los coletivamente. Sim, falo do que estrutura a produção. Falo do imobiliário. E falo, enfim, do próprio território, das cidades que se esvaziam para entrarem novos utilizadores, do território de dentro do país, que se esvazia das pessoas que vão servir aqueles que se concentram nos espaços que lhes oferecemos.

Há relações que têm de ser desenvolvidas num quadro preciso, fiável e articulado. Não sob o ímpeto de transações sem lugar nem rosto. Para que o mundo se organize todo assim, e não como se fosse plano. Não há economia sem quem a realiza nem sem aqueles a quem ela se destina, no momento da repartição e da geração de bem-estar. A economia usa os mercados, não é os mercados.

Uma economia é um sistema de produção e de provisão de bem-estar. Não sendo uma simples plataforma de transações, a economia mede-se pelo valor que cria, pela estrutura produtiva que adota, pelas capacidades que desenvolve, pelo nível de autossuficiência que garante, pela dependência face ao exterior que evita. É sujeito e objeto da economia política. Deve haver planeamento, intervenção e organização públicas para satisfazer necessidades e servir a comunidade. É um lugar para fazer e para aprender. Não para se perder nas linhas abstratas de um mapa sem territórios. Aprendemos que é possível parar. Aprendamos que é possível e necessário decidir em nome do povo!

Lugares são sítios de vida, não apenas pontos de passagem. Uma vez, compreendi (isto nunca mais me saiu da cabeça e lembro-me agora a toda a hora) que certos tipos de cidades podem transformar-se em espaços ocupados por teias de aranha, se tiverem sido feitas não para a vida, mas para a vertigem relacional. Basta que um vento mau sopre. (Explico-me para ser mais claro: aconteceu passar no Dubai, lugar que pouco me importa, mas fiquei 24 horas para ver com os meus olhos o que imaginava; atravessei a cidade e ganhei esta ideia que me passou a acompanhar.)  
Sim, vamos discutir muitas coisas, umas velhas, outras novas. Não sabemos se o vamos fazer bem ou mal. Falaremos em primeiro lugar de poder, isto é, de capacidades para deliberar. Falaremos do contexto em que queremos exercer esse mando e das finalidades que lhe atribuímos. Falaremos da finalidade da vida.

Vamos emocionar-nos profundamente, verter lágrimas de tristeza por vítimas, de alegria por heróis, reconhecer-nos em erros, uns evitáveis, outros não, e em desempenhos notáveis. Por favor, não percamos este tempo. Falemos de economia política. Falemos da política como deliberação coletiva. Soframos e decidamos. Portugal é uma periferia, mas uma periferia persistente.

Fonte: artigo de opinião de José Reis no jornal Público (2020), tendo os espaçamentos entre parágrafos e os negritos sido acrescentados pelo responsável por este blogue

quarta-feira, 25 de março de 2020

[0230] O arquivo audiovisual da RTP


O arquivo audiovisual da RTP constitui-se como um verdadeiro repositório da memória coletiva nacional, com um património cujas origens remontam ao início das emissões regulares da Rádio e da Televisão, respetivamente em 1936 e 1957. O seu acervo congrega diferentes suportes e formatos e uma grande diversidade de conteúdos, da ficção ao documentário, da informação ao entretenimento, do institucional ao desporto. A sua permanente salvaguarda, valorização e acesso público têm sido objetivos estratégicos da RTP, no cumprimento da sua missão de serviço público de rádio e televisão.
O portal RTP Arquivos é a nova plataforma de acesso público online aos arquivos audiovisuais do serviço público de rádio e televisão. Vai estar doravante em permanente atualização num trabalho continuado, destinado a disponibilizar progressivamente conteúdos desde a década de 30 do século passado até à atualidade, devidamente catalogados e contextualizados de modo a assegurar uma pesquisa fácil e eficaz.


Além da pesquisa transversal, em opção simples ou avançada, sobre um acervo rico composto por vídeos, áudios, fotografias e textos, tem também disponível, na forma de coleções, uma seleção dos conteúdos mais representativos sobre os temas e personalidades mais marcantes da nossa história. Pode ainda aceder aos programas mais emblemáticos da RTP que estarão disponíveis organizados por géneros.
Por outro lado, constitui-se igualmente como uma nova ferramenta que simplifica e desmaterializa os processos de licenciamento de conteúdos, de acordo com os termos e condições estabelecidas no contrato de concessão do serviço público de rádio e televisão.
Para solicitar cópia de um determinado conteúdo basta registar-se como utilizador e pressionar o botão LICENCIAR CONTEÚDO disponível na página de cada conteúdo, ou, caso o conteúdo que pretenda não esteja ainda disponível neste portal, aceder à área de Serviços  e preencher e enviar o formulário de pedido de licenciamento.

Fonte: sítio dos Arquivos da RTP