terça-feira, 31 de janeiro de 2017

[0032] Pormenores marítimos da exposição «Almada. Uma história milenar. Entre a terra e o mar»

A exposição está ainda patente no Museu Naval de Almada (situado no Olho de Boi).
Há nela um pequeno destaque para a influência Fenícia, agora que se equaciona o futuro arqueológico da importante estação da Quinta do Almaraz.

Não se sabe como os Fenícios chamariam a esta sua povoação, situada acima de Cacilhas, e que aqui disporia de salgas de peixe e de um porto.

Mas foi aí que se encontraram, datados do século VII antes de Cristo, os seguintes objectos (em bronze e sobre cerâmica) que nos mostram um pouco do que seria o modo de vida marítimo destes Fenícios e dos povos locais que com eles conviviam:


Agulha de fazer redes, em bronze     
Grafito com representação de Corvina


Grafito com representação de uma embarcação indígena     
com proa curva, vela «latina» e espadela     
(Todas as fotografias: Eva Blum)


sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

[0031] Na próxima 2ª feira: reunião de preparação do Encontro «Memórias em Educação no Território de Almada e Seixal»

A reunião decorrerá na Escola Secundária Emídio Navarro, às 15h00 da próxima
2ª feira (dia 30 de Janeiro). O local de encontro é a entrada da Associação dos Antigos Alunos, mas o local da reunião deverá ser na Biblioteca.


Para resolver qualquer desencontro, por favor telefonar para 964 156 395 (Pedro Esteves).


Tema principal desta reunião: distribuição dos contactos para confirmar os primeiros intervenientes no Encontro e o(s) assunto(s) sobre que querem intervir.
Será com base nesta primeira lista que mais tarde será feita a divulgação para a participação com outras intervenções e para a participação sem intervenções.

sábado, 21 de janeiro de 2017

[0030] O Núcleo de História Local e de Arqueologia Os Investigadores (1990-96)

No dia 4 de Abril de 1990, na Escola Preparatória da Cova da Piedade (que tem hoje como patrono o Comandante Conceição e Silva), foi fundado o «Núcleo de História Local e de Arqueologia Os Investigadores».

Até 1995-96, inclusive, este projecto foi apoiada por três professores: Rui Miguel Salvado, Cristina Rodrigues de Matos e Clara Salvado. Que acumulavam esta «actividade de complemento curricular» com as normais tarefas lectivas e com outros empenhamentos na escola.

Participaram entusiasticamente neste projecto algumas centenas de alunos. E também, de outros modos, os pais, os encarregados de educação, a comunidade escolar e a comunidade educativa. Pelo que a organização se tornou muito rica:


(imagem de Salvado & Salvado, 1998; p. 51)

Um dos apoios indispensáveis, face aos enormes desafios a responder: a autorização, por parte do Ministério da Educação, da equivalência a «serviço lectivo» de algumas das horas deste trabalho. Assim sucede até 1994-95; para o ano seguinte, face à não autorização, dois dos professores solicitam um «ano sabático», e aguentam o projecto em 1995-96.
Mas o Ministério da Educação não mudou a sua política; e os professores não podem solicitar tão cedo novo ano sabático. E assim o projecto se extinguiu.


sábado, 14 de janeiro de 2017

[0029] A peça «Os Dias do Pão»

O rato «Carcaça» e o antigo moleiro «Quixote» encontram-se e visitam ficticiamente o antigo moinho de vento deste. Ficamos a saber que aí entravam cereais, de que se faziam farinhas, e das quais se faziam alimentos como o pão, a bolacha e os bolos. Ficamos também a saber que estes moinhos já não existem e (porque entra uma menina no moinho à procura de farinha) que há fome, pois uns têm demais e outros de menos. No fim, com todo o público presente (crianças e adultos), fez-se um ateliê pedagógico, em que se procura recordar o essencial do que foi dito na peça, mas também se procura passar algumas mensagens que têm a ver com o 2º Objectivo de Desenvolvimento Sustentável da ONU (Organização das Nações Unidas), «Erradicar a Fome»: usar energias renováveis, respeitar a diversidade da natureza e comprar produtos locais, partilhar alimentos.

(modelo de «quantos queres», para dobrar e usar pelos miúdos)

Este projecto resultou da colaboração entre Ângela Ribeiro (atriz marionetista) e o Centro de Arqueologia de Almada (CAA), cabendo a dramaturgia, interpretação e cenário à Ângela e a oficina ao CAA.

Mais informações:
                                   
Cevada                                                                                                                                      

Imagem de «Flora von Deutschland, Österreich und der Schweiz»       



[0028] De 6 a 8 de Abril: simpósio «Museus, Investigação & Educação»

O Museu de Arqueologia e Etnografia do Distrito de Setúbal (MAEDS) / Associação de Municípios da Região de Setúbal (AMRS), o Forum Intermuseus do Distrito de Setúbal (FIDS), os Museus Municipais de Almada (Câmara Municipal de Almada), o ICOM-Portugal e a Associação Portuguesa de Museologia (APOM) decidiram levar a efeito um simpósio de reflexão sobre o papel dos Museus na sociedade contemporânea, com particular enfoque nas funções Investigação e Educação, perspectivada às escalas local, regional e global.


A inscrição é gratuita: sem comunicação ou poster, até 30 de Março; com comunicação ou poster, até 28 de Fevereiro.

Mais informações e inscrição em: http://simpom.maeds.amrs.pt/.

Contactos do MAEDS - Museu de Arqueologia e Etnografia do Distrito de Setúbal
Morada: Avenida Luisa Todi, nº 162, 2900-451 Setúbal, Portugal
Telefone: +351 265 239 365

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

[0027] Tópicos inspiradores de debate, vindos das 26 mensagens de 2016

Dinâmicas dos actores educativos

Jovens tomam a iniciativa nas suas escolas

Mensagem «0021»:
Há cerca de 1 000 escolas ocupadas pelos seus alunos no Brasil. Dá trabalho ocupar uma escola. Os alunos escreveram:Sua saúde mental vale mais que suas notas”. E também: “NADA DEVE PARECER IMPOSSÍVEL DE MUDAR”. E disseram: “A escola tradicional não oferece muito pra gente”

Investigadores colocam desafios educacionais e organizativos

Mensagem «0001»:
A revista «Apogeo», da Associação de Professores de Geografia, dedicou o nº 48 ao tema «Educação e Território»

Mensagem «0025»:
Os arquivos escolares são particularmente importantes para a salvaguarda e preservação dos seus documentos, que constituem instrumentos fundamentais para a história da escola e a construção da memória educativa, afirmou a investigadora Maria João Mogarro

Escolas procuram vias curriculares alternativas

Mensagem «0006»:
Em 2008-12, na escola EB1 de Vale da Amoreira, situada entre a Moita e o Barreiro, os alunos de uma turma do 1º ciclo (filhos de portugueses, de cabo-verdianos, de angolanos, de guineenses, …) aprenderam simultaneamente em Crioulo e Português, com as professoras Ana Josefa e Ana Carina, durante uma hora e meia por dia; os seus pais ficaram orgulhosos

Mensagem «0013»:
A Casa da Floresta Verdes Anos, colégio em Lisboa onde não há computadores nem quadros interactivos, não é a única a seguir uma via menos convencional.
N’Os Aprendizes, em Cascais, além do edifício onde decorrem as aulas, há uma casa, o Reino dos Sentidos, dedicada sobretudo à arte-terapia: não é só para meninos com necessidades educativas especiais, qualquer criança pode ir lá e tentar ultrapassar uma dificuldade através da pintura, música, neuroterapia, entre outras hipóteses.

Estes colégios são privados, mas a Escola da Ponte, Santo Tirso, do pré-escolar ao 3.º ciclo, é pública. Sem aulas expositivas, são os alunos que escolhem as matérias e quando querem ser avaliados.


Mensagem «0023»:
«Há seis, sete anos começámos a sentir que havia alguns problemas com a Matemática. Por outro lado, notávamos que os alunos davam muitas opiniões mas eram incapazes de argumentar. Não conseguiam construir um caminho para chegar a uma conclusão. Sabíamos de experiências do uso do xadrez em escolas lá fora e decidimos avançar», explicou Vítor Rodrigues, director da Escola 31 de Janeiro, na Parede

Grupos procuram estabelecer pontes entre todos os actores

Mensagem «0007»:
O Núcleo de Almada e Seixal da Rede Educação Viva, membro da «Rede de Educação Alternativa» (Reevo), promoveu um encontro regional, visando “dar vida a uma comunidade de partilha e aprendizagem, estimulante e participativa, num encontro com dinâmicas para todas as idades.”


Mensagem «0008»:
O grupo «Educação: Pontes na Outra Banda» divulgou o seu objectivo de estabelecer «pontes» entre os diversos envolvimentos profissionais na Educação, nomeadamente no âmbito da Educação Patrimonial

Mensagens «0008» e «0018»:
Um grupo de educadores divulgou a preparação de um Encontro sobre as «Memórias em Educação no Território de Almada e Seixal», a realizar no início de 2018

Mensagem «0010»:
Um grupo de educadores promoveu uma visita conjunta a três exposições patentes nas instalações do Presídio da Trafaria: «As Vinhas de Almada. O vinho na história local» (da autoria do Centro de Arqueologia de Almada); «Objecto - Projecto» (realizada no âmbito da Trienal de Arquitectura, com curadoria do arquitecto Godofredo Pereira); e «O Presídio e a Trafaria. 450 Anos de História» (da autoria do Centro de Arqueologia de Almada)


Comentário dirigido a esta mensagem:
Aqueles que nós consideramos «o outro», consideram-nos por sua vez como «o outro» …
Se esta distinção é estéril, que se ganhará se nos reconhecermos mutuamente como complementarmente diferentes?
Stephen Stoer e António Magalhães escreveram um livro para acentuar que «A Diferença Somos Nós» (2005). E o ensaísta Alberto Manguel, referindo-se a Dom Quixote e a Sancho Pança, afirmou: “Tornaram-se espelhos enobrecidos postos frente a frente, reflectindo as qualidades que, invisíveis num, são visíveis no outro, e vice-versa.” (2011; p. 108)

Mensagem «0022»:
Um grupo de amigos do Museu de Metrologia promoveu uma visita guiada a este Museu

Instituições promovem encontros de divulgação

Mensagem «0002»:
O Instituto Português da Qualidade promoveu um encontro sobre Metrologia e Ensino, com os objectivos de divulgar a Metrologia e de interagir com outras organizações ligadas à educação ao nível do 2º, 3º ciclo do ensino básico, do ensino secundário e do ensino superior.

Mensagem «0003»:
O Museu de Arqueologia e Etnografia do Distrito de Setúbal e o Fórum Intermuseus do Distrito de Setúbal divulgaram a realização das «Jornadas Arqueológicas da Região de Setúbal»

Mensagem «0011»:
O Museu Naval, de Almada, divulgou uma exposição sobre as origens «milenares» deste concelho

Caminhos para a construção de uma «comunidade»

Jovens dão a sua opinião

Mensagem «0012»:
«Se fosse ministro da Educação reduzia as cargas horárias para que tivéssemos tempo de ser crianças e jovens. Em vez de aulas com o professor a expor a matéria promoveria a aprendizagem por experimentação e observação, porque assim como é em 50 minutos de aulas com o professor a falar apenas retemos cinco a 10 minutos do que ele diz», disse a Mariana

Mensagens «0015», «0016» e «0017»:
O último estudo «Health Behaviour in School-aged Children», que a Organização Mundial de Saúde realiza de 4 em 4 anos, e que visa avaliar hábitos, consumos e comportamentos com impacto na saúde física e mental dos adolescentes, aos 11, aos 13 e aos 15 anos, foi apresentado em Março passado, em Bruxelas. Os dados são de 2013-14 e correspondem às respostas de mais de 220 mil adolescentes, norte americanos e europeus (6 mil eram portugueses), de 42 países e regiões

Educadores formulam as suas memórias

Mensagem «0019»:
Foram lembrados os 30 anos decorridos desde o dia 22 de Novembro de 1986, em que se  realizou na Escola Secundária Emídio Navarro um «Encontro Debate sobre a Situação do Ensino em Almada-Seixal»


Comentário dirigido a esta mensagem:
Em Almada e no Seixal o problema das instalações e dos recursos melhorou muito nestes 30 anos. Bem como o «sucesso escolar», tal como em todo o país.
A inadequação dos «programas» continua, nos exactos termos em que a formulámos em 1986. E o «sucesso educativo» foi sendo secundarizado.
A ligação entre os dois concelhos piorou. E fazem falta outros debates públicos (em que a maioria não vá apenas ouvir os «especialistas» e os «gestores»). Fazem sobretudo falta encontros entre a grande diversidade de educadores que, ao longo destes 30 anos, surgiu e se afirmou.
Por todo o país, aumentou, e muito, a «hierarquização», problema que pouco se sentia há 30 anos. E que hoje tem um reflexo devastador no ambiente escolar e no estado de espírito dos professores.

Mensagem «0026»:
Foram lembrados, através de um livro, «A Cidade do Teatro [edição comemorativa pelos 20 anos da MOSTRA DE TEATRO DE ALMADA / 1996-2016]», não só 47 os grupos participantes nas 20 edições desta Mostra como um pouco da história do teatro neste concelho e algumas das suas ligações à educação


Comentário dirigido a esta mensagem:
Este será o primeiro exemplo de uma «comunidade real» (teatral, mas também educativa) que se desenvolveu no seio da nossa «comunidade educativa virtual».
Deveriam ser estudadas as condições e as iniciativas que geraram esse desenvolvimento.

Investigadores divulgam os seus estudos e dão a sua opinião

Mensagem «0004»:
Um terço dos nossos professores portugueses foi descrito por um estudo como estando «exaustos, desiludidos ou baralhados»

Mensagem «0024»:
Chris Whitehead, investigador e professor de Museologia na Universidade de Newcastle, afirmou, numa entrevista, ser necessário os museus aprenderem a «lidar com o passado»: “Os museus têm tendência a concentrar-se nas dificuldades do passado, mas parecem não ver que elas nos seguem até ao presente. É obrigatório fazer essa ligação.” (Chris Whitehead)

Municípios adoptam uma filosofia educativa

Mensagem «0014»:
A Associação Internacional das Cidades Educadoras tem membros em todos os continentes. A Rede Territorial Portuguesa das Cidades Educadoras inclui, actualmente, 61 cidades, 5 delas do distrito de Setúbal:
O 1º Congresso Internacional das Cidades Educadoras foi realizado em Barcelona, em 1990. Nele foi elaborada a Carta das Cidades Educadoras, mais tarde revista nos congressos de Bolonha, em 1994, e de Génova, em 2004

Instituições internacionais divulgam os seus estudos

Mensagem «0005»:
Foi divulgado o relatório «Education at a Glance», de 2016, através do qual a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico) compara e comenta o estado da educação nos seus países membros (e em mais alguns associados)

Mensagem «0020»:
Foi divulgado o relatório do TIMSS - Trends in International Mathematics and Science Study (Estudo Internacional sobre as Tendências em Matemática e Ciências) – realizado em 2015 pela IEA - International Association for the Evaluation of Educational Achievement (Associação Internacional para a Avaliação dos Resultados Educativos), e no qual participaram alunos portugueses

Comentário dirigido a esta mensagem:
A propósito dos «resultados» deste TIMSS [de 2015], houve quem destacasse que os miúdos portugueses da 4ª classe já estavam melhor que os finlandeses em Matemática. Mas «estar à frente dos outros» não é o objectivo dos finlandeses. Eero Väätäinen [citado por Descamps, 2013], que coordenou uma escola e o sector da educação duma cidade, descreveu assim o espírito das reformas educativas na Finlândia:
“Não devemos esquecer que as crianças não andam na escola para fazer testes. Elas vêm aprender a vida, encontrar o seu próprio caminho. Acaso se pode avaliar a vida?” 


sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

[0026] «A Cidade do Teatro» e a Educação

No passado dia 19 de Novembro foi apresentado na Casa da Cerca, em Almada, o livro «A Cidade do Teatro».
Trata-se de uma apresentação dos 47 grupos que participaram nas 20 edições do Mostra de Teatro de Almada (portanto de 1996 até este ano), enriquecida por um percurso através dos seus contextos histórico, político e social.
Muito desta história e vários destes grupos teve uma forte e interessante à educação.


A Cidade do Teatro [edição comemorativa pelos 20 anos da MOSTRA DE TEATRO DE ALMADA / 1996-2016] foi coordenada por Sarah Adamopoulos e editada este ano em Almada, pela Câmara Municipal de Almada e pelo Ninho de Víboras.


Eis um seu apanhado, parcialmente histórico, sobretudo as ligações entre o teatro e as escolas ...

Em 1509 Gil Vicente escreve e estreia em Almada o «Auto da Índia», para entretenimento da corte (pp. 39-40).
E, em 1843, Almeida Garrett faz decorrer em Almada o seu «Frei Luís de Sousa» (pp. 44-45).

A partir daí, o teatro em Almada é marcado pelos que em Almada vivem.
Com a fundação, em 1848, da mais antiga colectividade de Almada, a «Sociedade Filarmónica Incrível Almadense» (pp. 52-53), e com a cisão que levou à fundação, em 1895, da «Academia de Instrução e Recreio Familiar Almadense» (p. 53), o teatro encontrou duas das colectividades onde se desenvolveria durante todo o século XX, a elas se tendo juntado outras (pp. 53-61).
As lutas operárias no início do século XX, em Almada, nomeadamente nos sectores corticeiro e moageiro, foram uma das origens para o surgimento de novas associações, visando a solidariedade, a instrução e o recreio, algumas fundadas ainda no século XIX, nelas tendo surgido grupos musicais e grupos cénicos (pp. 62-65).
“O teatro fazia-se com todos e para todos, incluídos os de outros lugares, por vezes distantes, e de outros costumes – característica constitutiva do teatro não burguês.” E, usado também como forma de tomada de consciência pelos anarquistas e socialistas, “o teatro toma uma parte considerável do lugar anteriormente ocupado pela música, que já não chegava para sossegar os espíritos de todos.” (p. 63)
“Compostos por diferentes actuações, os programas dos espectáculos promovidos pelas colectividades de cultura e recreio integrarão o teatro, a música e a poesia, terminando muitas vezes com bailes, cuja música era executada pelas filarmónicas e outros agrupamentos musicais – distinguindo-se do que sucedia nos palcos burgueses, onde havendo teatro não havia música, o inverso sendo também verdadeiro.” (p. 65)

A criação, em 1929, da Inspecção-Geral dos Espectáculos iniciou um longo período de fiscalização e repressão da liberdade de expressão (pp. 65-68): “Os anos mais pesados no Estado Novo uniformizam o teatro, popularizando sobremaneira o teatro de revista, as operetas musicais, e, enfim, o teatro mais ligeirinho e de entretenimento.” (p. 69)
Algumas colectividades irão resistir a esta pressão e serão baluartes da oposição ao regime (pp. 69-71). Em 1969, em Almada, “o Jornal das Colectividades celebrava o teatro amador feito pela população como uma manifestação de expressão e liberdade do carpinteiro, do electricista, da modista ou da cabeleireira que encontravam na arte dramática uma actividade que engrandecia os seus horizontes e os poupava à platitude da mais banal quotidianidade.” (p. 71)
As colectividades foram sempre as universidades e os palcos do povo, e também lugares onde as pessoas puderam aprender o que era a democracia, através das assembleias de associados e dessas práticas participativas.” (Domingos Torgal, citado na p. 72)

Entre 1967 e 1969: Rogério Carvalho, professor de Matemática na Escola Industrial e Comercial Emídio Navarro (e mais tarde na Anselmo de Andrade) organizou “grupos de teatro escolares, trabalhando com a professora de Português Elsa Rodrigues dos Santos.” (António Matos, citado nas pp. 74-75)
Em 1967: Helena Peixinho, professora de Português e Francês, cria um Clube de Teatro na Escola D. António da Costa, onde também “havia ateliers de Jornalismo, de Poesia, de História”, “actividades extracurriculares que aconteciam fora do horário escolar, sendo contudo muito participadas, por alunos que tinham idades compreendidas entre os 9 e os 14 anos (p. 76).
Em 1972: nasce na Emídio Navarro o grupo de teatro Amadores de Almada, resultado do “trabalho de experimentação teatral de um professor de Matemática [Rogério Carvalho] para quem o teatro era já então uma forma de existir, de estar no Mundo e de olhar para todas as coisas que há nele.”
Em 1974: alguns dos estudantes envolvidos nos Amadores de Almada cria o Teatro de Acção Cultural de Almada (pp. 73-74)
Em 1981: as actividades do Clube de Teatro da Escola António da Costa são designadas por Linguagem Teatral (p. 76); “pretendíamos relacionar a Expressão Dramática com o Teatro, utilizá-los como instrumento de afirmação do eu (ser único e autónomo) e no respeito pelo outro.” (Helena Peixinho, citada na p. 77)
A partir de 1986, ano em que a Lei de Bases do Sistema Educativo foi aprovada: “Na sequência dessa legitimação foram criados cursos de formação para professores e foram formados muitos professores em Almada. João Mota, Miguel Loureiro ou José Pedro Caiado, entre outros, vinham aos sábados a Almada, à Sala de Dança da Escola D. António da Costa, fazer formação gratuita aos professores. E Joaquim Benite recebia os professores-formandos no antigo Teatro Municipal de Almada, actual Teatro-Estúdio António Assunção. Eram sábados inesquecíveis. Porque eram transformadores. O teatro atingia as pessoas de forma intensa, continha uma implicação emotiva. O que teve repercussões importantes na formação de públicos, pois talvez mais importante do que fazer nascer nos alunos e formandos, em geral, o desejo de ser actor é aprender a ver teatro.” (Helena Peixinho, citada na p. 77)

Uma das motivações para esta formação de professores visava o uso do “teatro na actividade lectiva”, o que Helena Peixinho já fizera em relação ao Português e ao Francês (p. 78).
O Mundo do Espectáculo começou por ser “um projecto apresentado por Helena Peixinho e Ângela Mota à ESE de Setúbal e aprovado pelo seu Conselho Científico”, com “residência na Escola D. António da Costa”, tendo mais tarde dado origem à associação almadense com o mesmo nome. A esta associação “estão ligados vários pedagogos” (p. 78), como “Manuel João, fundador e director do Teatro & Teatro, projecto nascido numa escola de fronteira entre Almada e Seixal, de carácter assumidamente formativo e composição continuamente variável e aberta à comunidade em geral.” (p. 79)
“Com Helena Peixinho e os seus pares e continuadores, o teatro mudou o rosto da escola e dos seus habitantes, e abriu outros horizontes – desde logo, a possibilidade de criar algo novo, mesmo se com materiais preexistentes, como amiúde sucede com os textos dramáticos que são usados nas escolas. As Férias Artísticas e o Festival Inter-Escolas (cujo objectivo inicial foi o de proporcionar o intercâmbio de experiências e aprendizagens das escolas integradas no projecto, e não a competição entre aquelas) são frutos ainda sobreviventes desses tantos anos em que o teatro esteve tão presente nas escolas de Almada e do Seixal (os lugares de onde provinham os professores-formandos.” (p. 79)
(…) estas actividades extracurriculares potenciavam uma melhoria ao nível do comportamento e do aproveitamento dos alunos. O teatro mudava a forma de estar na escola e na vida.” (Ângela Mota, citada na p. 79)

Nos anos de 1970 surgiram em Almada outras fontes, não escolares, para o teatro, como o Grupo de Iniciação Teatral da Trafaria, nascido em 1972 (p. 81), e o Centro Cultural de Almada, fundado em 1979 (p. 88). E na década seguinte nasceu a Companhia de Teatro de Almada (p. 91), uma “parceria estratégica” entre o Grupo de Campolide, que lhe deu origem, e a autarquia almadense (p. 101).
Alguns dos actores envolvidos nestes grupos deram continuidade ao “trabalho de formação teatral nas escolas” que havia sido iniciado nos anos 70 (p. 94).
Em 1984, o Teatro da Academia Almadense organizou a primeira edição da Festa de Teatro de Almada (p. 95), que mais tarde se internacionalizou, e se transformaria no actual Festival de Almada (pp. 95-96).

1996 é o primeiro ano da Mostra de Teatro de Almada (p. 149), “iniciativa que partiu da Câmara Municipal de Almada” (p. 135): “Penso que um dos aspectos interessantes da Mostra foi ter proporcionado aos [diversos] grupos [de teatro com actividade em Almada] esse encontro e o conhecimento mútuo. (…). Os grupos são hoje uma comunidade, que se encontra fora do espaço da Mostra, para aí estabelecer trocas. Há uma enorme mobilidade nalguns elementos, que colaboram com grande naturalidade nos projectos de outros, coisa que antes da Mostra não acontecia, creio.” (Teresa Pereira, citada na p. 136)
A Mostra é a única plataforma de comunicação entre os grupos e a Câmara, uma oportunidade imperdível de contactar com os responsáveis autárquicos e estes comprovarem que o parco apoio público que lhes é dado tem resultados muito positivos, quer na relação de proximidade que existe na comunidade quer na dignidade das suas realizações.” (Maria João Garcia, citada na p. 139)

Outras pistas, respigadas aqui e acolá neste livro, sobre a ligação entre «escola» e «teatro»:
·      Karas (João Teixeira), do grupo «Ninho de Víboras», começou a fazer teatro na Escola Secundária do Monte de Caparica (p. 124);
·      O grupo Artes e Engenhos, com sede na Faculdade de Ciências e Tecnologia, da Universidade Nova de Lisboa (p. 207);
·      O grupo As Raparigas … de Três Pontinhos foi “formado por ex-alunos da disciplina de Oficina de Expressão Dramática da Escola Básica e Secundária Anselmo de Andrade, no ano lectivo 1999-2000, que haviam trabalhado em contexto escolar A Casa de Bernarda Alba, de Federico Garcia Lorca.” (p. 211)
·      O grupo B.O.T.A. foi criado por “alguns jovens recém-saídos do ensino secundário – onde tinham participado num clube de teatro, muito activo, dirigido por Isabel Canto, professora de Português e Francês, em colaboração com outras duas docentes, na Escola Secundária nº 2 do Laranjeiro” (p. 215);
·      O Novo Núcleo de Teatro da FCT foi criado por estudantes da Faculdade de Ciências e Tecnologia (p. 277);
·      O grupo Teatro & Teatro teve por “génese o teatro feito em contexto escolar a partir de 1988 pelo professor, encenador e pedagogo teatral Manuel João”, sendo “inicialmente integrado unicamente por ex-alunos de Expressão Dramática da Escola Básica de Corroios” (p. 351).

sábado, 17 de dezembro de 2016

[0025] A importância dos arquivos escolares

Maria João Mogarro publicou em 2006 um artigo intitulado «Arquivos e Educação: a Construção da Memória Educativa».


Este é um tema a que o Encontro sobre Memórias em Educação no nosso território, Almada e Seixal, a realizar daqui a pouco mais de um ano, irá trazer maior compreensão.


Maria João Mogarro escreveu sobre o seu artigo o seguinte “Resumo:

Os arquivos escolares motivam profundas preocupações relativamente a salvaguarda e preservação dos seus documentos, que constituem instrumentos fundamentais para a história da escola e a construção da memória educativa. A sua importância tem vindo a ser reconhecida, conduzindo a uma reflexão sobre a sua preservação, as condições de instalação, a organização correcta dos documentos e o acesso as informações que nele estão contidas. Os arquivos escolares constituem o repositório das fontes de informação directamente relacionadas com o funcionamento das instituições educativas, o que lhes confere uma importância acrescida nos novos caminhos da investigação em educação, que colocam estas instituições numa posição de grande centralidade para a compreensão dos fenómenos educativos e dos processos de socialização das gerações mais jovens.
Neste texto pretende‑se reflectir sobre: o lugar dos arquivos escolares nas instituições educativas; os documentos, a sua natureza e as potencialidades para a investigação em educação; os arquivos escolares numa perspectiva interdisciplinar; os arquivos, a cultura escolar e a construção da memória educativa.

Palavras‑chave: cultura escolar, arquivo, fontes históricas, memória.

Para quem estiver interessado neste artigo, ele pode ser consultado no Repositório do Instituto de Educação da Universidade de Lisboa, e a partir daí guardado, acedendo-o através de: pdf do artigo (no fim, em «Ver / Abrir»).

sábado, 10 de dezembro de 2016

[0024] Uma entrevista sobre «museus», sobre «falar do que se passa hoje», sobre «aprender a lidar com o passado»

Lucinda Canelas, jornalista, entrevistou Chris Whitehead, investigador e professor de Museologia na Universidade de Newcastle, Inglaterra.


Chris Whitehead


Alguns excertos, retirados do jornal «Público» de 6 de Dezembro passado:

No contexto dos museus nacionais, como é que um passado histórico difícil pode contribuir para a formação da identidade de um país?
É um assunto muito complexo. No contexto alemão, por exemplo, lidar com o passado tornou-se absolutamente central na formação da identidade contemporânea, mas há muitos outros países que continuam a não olhar para esse passado problemático. A Noruega, por exemplo, só recentemente começou a lidar com a questão do colaboracionismo com a Alemanha de Hitler e em Itália é ainda muito difícil falar de fascismo – a história que os italianos preferem é a que envolve o outro lado, a resistência, o lado dos bons, porque é mais fácil de contar. E, depois há a questão da Turquia, claro, em que simplesmente se nega qualquer culpabilidade histórica [relativamente ao genocídio arménio]. Há muitas maneiras de olhar para a história que é dura, que é difícil, como parte da identidade das nações; é preciso é fazê-lo, se queremos que aquilo que contamos sobre nós esteja próximo do que realmente aconteceu.
A Alemanha é sempre apresentada como um bom exemplo, o bom aluno no que ao passado diz respeito, mas a forma como se tem abordado o Holocausto em muitos museus pelo mundo fora tornou-se quase um cliché de como tratar um acontecimento terrível…
Sim, essa é uma ideia que tem vindo a tomar forma entre os académicos que estudam o universo dos museus. Há um investigador que chama ao Holocausto “horror confortável” precisamente porque sabemos lidar com ele, porque lidamos com o Holocausto há décadas. Ele torna-se um veículo mais fácil para falar de um passado incómodo, muito mais fácil do que as coisas que estão a acontecer neste momento, por exemplo, temas como a intervenção militar no Iraque ou a não-intervenção na Síria … Talvez não consigamos lidar com eles ainda. De certa maneira, em certos contextos, abordar o Holocausto tornou-se fácil, porque ele tem uma espécie de gramática própria, uma terminologia que muitos dominam. Além disso, há uma prática social que lhe está associada que nós somos capazes de executar …”

Em países como Portugal há uma distância ainda maior do comércio de escravos do império colonial, por exemplo, e mesmo assim os nossos museus não têm o hábito de incluir o tema no seu discurso de forma evidente. Isto acontece também na Inglaterra ou na Holanda? Porquê?
Não sei, talvez por ser mais fácil … No Reino Unido, na Holanda e até na Bélgica continuam a ser temas muito problemáticos. Ainda assim, as pessoas vão a exposições que tocam na história da colonização sabendo que têm de sentir alguma vergonha e algum arrependimento. Mesmo que tudo tenha acontecido no século XVIII ou antes, há uma sensação de ligação deste passado ao que somos, ao que fomos. Os museus dão às pessoas uma oportunidade de ter um comportamento ético em relação a esse momento da história.
Na Holanda, por exemplo, este passado colonial é apresentado com frequência como algo que o país deve lamentar, um episódio vergonhoso que precisa de ser mais explorado. É uma questão de reconhecimento que está ligada a uma política de pedir desculpa publicamente. E os museus podem ser esse lugar onde se pede desculpa pelo passado, algo que os países não fazem oficialmente com facilidade. O que os políticos precisam de perceber é que os museus podem servir para estabelecer um compromisso com a representação do passado tal como ele é e não como preferíamos que fosse. E tudo isto dá um sinal ao presente.
E fazer essa ligação ao presente é essencial para que os museus possam ser melhores na sua relação com o passado?
Certamente. Para melhorar, os museus podem e devem começar por contar a história a partir de diversas perspectivas, não apenas a branca e eurocêntrica. Há sempre muitas leituras a fazer de qualquer acontecimento e elas podem começar agora e depois ir para trás. No caso britânico tivemos abolicionistas e pessoas que, por motivos económicos, estavam interessadas em manter o comércio de escravos. Nessa altura houve um debate público, uma espécie de concurso, e os abolicionistas ganharam. Hoje temos um debate semelhante à volta de perguntas como «Será que o multiculturalismo é positivo?», «Será que está a resultar?». Há uma ligação clara entre estes dois temas separados por centenas de anos e os museus não fazem essa ligação com facilidade e deviam fazê-la para aproximar a discussão das pessoas, para que elas percebam que é uma discussão que também é sua.
Os museus têm tendência a concentrar-se nas dificuldades do passado, mas parecem não ver que elas nos seguem até ao presente. É obrigatório fazer essa ligação. Jo Cox [deputada trabalhista britânica] foi assassinada antes do referendo do «Brexit» por alguém que se dizia movido pela ideologia nazi. O passado está sempre cá.
Porque é que os museus têm dificuldade em lidar com o presente – falta-lhes distância ou vontade?
Há certamente uma falta de vontade, medo da controvérsia. Muitos profissionais dos museus estão mais preocupados com a experiência que oferecem ao visitante, partindo da ideia de que um museu é também um espaço de lazer. Muitos acham que as pessoas não querem ir a um museu para serem confrontadas com as coisas terríveis que vêem nas notícias. Temos de repensar o próprio conceito de museu.
Isso quer dizer que os museus se transformaram em lugares pouco desafiantes do ponto de vista crítico, quando deviam ser sítios para ajudar a pensar?

Sim, podemos olhar para eles assim, como se fossem preguiçosos … Mas também há museus corajosos. O que temos de fazer é descobrir técnicas expositivas para explorar as coisas que estão a acontecer agora. Não temos de contar uma versão final da história, porque ela ainda não acabou, mas precisamos de saber falar sobre o que se está a passar hoje. Para começar, podemos alargar a forma como olhamos para as coisas: porque é que este grupo se comporta desta maneira, porque é que aquele pensa assim, de onde vieram estas ideias? E a intolerância de onde vem? É possível pensar historicamente sobre o presente. Esta é uma maneira de criar uma certa distância que nos permite reflectir sobre o que importa e ter uma perspectiva crítica que não seja demasiado dolorosa.”

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

[0023] Uma outra aprendizagem: os alunos ocupam mil escolas no Brasil

Testemunhou hoje a jornalista Alexandra Lucas Coelho, em artigo no jornal «Público»,
«# Ocupa Pedro II.
Mil escolas ocupadas no Brasil. Dá trabalho ocupar uma escola, um trabalho inédito. Uma geração inédita para um tempo inédito»:

Alexandra Lucas Coelho


1. O moreno Miguel, filho de Mestre Manel, estende a mão para eu entrar na roda. Veio da favela da Rocinha com os rapazes, o tambor, o berimbau, as camisetas que dizem Acorda Capoeira. Lá na favela, é um meio de desviar os meninos do tráfico. Aqui, faz voar os meninos de classe média do Rio de Janeiro, sobretudo brancos, sobretudo de classe média, sobre o chão do colégio público mais antigo e mais famoso do Brasil, fundado há 180 anos pelo imperador Pedro II. Nestes últimos dias do pior ano da vida deles, ocupam a escola há mais de um mês. Votaram por isso, organizaram-se em nove comissões, dormem por turnos, têm oficinas, filmes, palestras, teatro, esta tarde, capoeira. Todos descalços no chão da quadra desportiva do colégio, com os seus pés macios, os seus pulsos delicados, batem palmas, ecoam o canto dos negros trazidos para a colonização do Brasil: Lêlêlê lêlêlê lêlêlê lalala. E, pela primeira vez, um a um, lançam-se no ar.
2. Brasil fora, há umas mil escolas ocupadas por estudantes em luta contra a anunciada reforma do ensino e a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que congela gastos públicos por 20 anos, incluindo educação. Dá trabalho ocupar uma escola, trabalho inédito, mais fácil dormir na praia, frente a algum ecrã. Mas esta geração é inédita mesmo. Gente inédita para um tempo inédito. Trabalho diário e frustração diária. Não é mole, não.
3. Na tarde da capoeira no Pedro II conheci estudantes dos 12 aos 19 anos. O colégio tem 12 campus no Rio de Janeiro, e uns seis estão ocupados. Fui sem aviso ao do Humaitá, na Zona Sul. Cartazes nas grades, portão fechado, mas acenando para a entrada os estudantes do lado de lá do segundo gradeamento gritam que é só puxar o fecho. O gradeamento é para proteger a ocupação enquanto quem vem se identifica. Não me pedem um cartão, só o nome, que anotam num grande caderno. Seguindo pelo pátio-corredor central, palavras de ordem pintadas, escritas, coladas (Sua saúde mental vale mais que suas notas; Sem Temer foi sempre o nosso lema). Numa parede estão afixadas as nove comissões (Comida, Limpeza, Saúde, Actividades, Segurança, Comunicação, Pais, Infraestruturas, Tesouraria), com as tarefas mais imediatas, e o nome dos estudantes responsáveis. Avançando até aos fundos, há uma horta do lado esquerdo, vários meninos lá dentro, e no fim de tudo a quadra onde já vibra o berimbau da capoeira. Dezenas na roda.
4. Quando a roda termina, sento-me com um dos estudantes mais velhos nos degraus da bancada de cimento, aos pés da frase: NADA DEVE PARECER IMPOSSÍVEL DE MUDAR. Qualquer coisa nele lembra um muito jovem Caetano Veloso chegado da Bahia, talvez o corpo esguio, talvez a cor morena, talvez a barbicha, os caracóis, a voz, aquele jeito lento, baiano de falar coisas tremendas com um vagar. Ele tem 19 anos e um brinco balançando na orelha esquerda, mora em Vila Isabel, bairro carioca da Zona Norte onde há cem anos morava Noel Rosa, um dos maiores sambistas da história. É difícil virar estudante do mais célebre colégio público, tem sorteio e tem prova, este finalista entrou por prova, e a primeira coisa que ele me diz não é uma declaração de triunfo, nem de estratégia, mas como estas quatro semanas de ocupação balançaram tanto a cabeça dele que por vezes vira um “distúrbio de personalidade”. De repente, o mundo ficou do avesso. E não é fácil, ele repete, estar aqui junto, fazer coisa junto, não é fácil, ele repete, a gente tem problemas. Uma pequena história da humanidade, não? Esses meninos não estão aqui posando.
5. Poucos aqui são da Zona Norte, como ele. Ele pega dois ônibus para chegar, uma hora até à escola. Nas primeiras semanas da ocupação ficou directo. «Sempre tem um grupo dormindo, no mínimo umas 25 pessoas.» Nas salas de aula do andar de cima, ele aponta as janelas, pede desculpa por não me levar lá, combinaram que iam preservar o dormitório dos olhares exteriores. Cada um trouxe o que precisava para dormir. Há duche, mas só água fria. E há sempre um grupo acordado, vigiando. «Tem um ponto em que a gente fica um pouco desgastado, com necessidade da família.» Muitos pais vêm apoiar, os pais dele também vieram, todos os dias há pais aqui, e professores. Os professores estão em greve, já estavam. É uma luta com várias frentes, a que se juntam em alguns momentos os mais novos. Mas na ocupação, dormindo, eles têm entre 15 e 19 anos. «É muita gente diferente. Tem choque o tempo todo, formam-se grupos, diferentes posicionamentos. A gente tem que buscar se entender.» Pausa, e insiste: «A gente tem dificuldades.» E, de alguma maneira, esta fraqueza é parte do novo, e genuíno.
6. Mas tem que ter essa PEC, tem que ter controle de gastos, diz uma amiga com quem almoço no dia seguinte, que sabe tudo dos podres das finanças, do Brasil em geral. Esses meninos são incríveis, mas onde eles querem chegar?, ela pergunta. Qual o objectivo deles? E, de alguma maneira, estas perguntas já não são deste tempo, ou desta geração. Não tenho uma resposta para o que a minha amiga pergunta. Penso que talvez eles dissessem que não há uma só resposta, ou que mais do que «chegar» eles querem estar acordados, agora, aqui. Só sei que eles estão lutando sabendo bem como é difícil. Como todos os dias no Brasil tem derrota.
7. Nos últimos anos, o Pedro II passou a ter um reitor eleito por professores, funcionários e estudantes (um terço de votos para cada), Oscar Halac. Quando o colégio aboliu a distinção de uniforme consoante o género e foi criticado por isso, o reitor disse que «a escola não deve estar desvinculada de seu tempo e momento histórico». Halav vê o actual movimento de estudantes no Brasil como «uma evolução do processo sociológico», em que «o país começa se auto conhecer, a ter um processo de uma nação democrática». Declarou-se contra qualquer intervenção policial na ocupação, e desvalorizou boatos sobre drogas e relações sexuais dentro do colégio, considerando que isso «só contribui para um maior desentendimento». Rematou com uma citação de Gonzaguinha: «Eu fico com a pureza da resposta das crianças. É a vida, é bonita.»
8. «A escola tradicional não oferece muito pra gente, oferece uma parada enrijecida», diz o meu quase baiano de Vila Isabel, levando-me ao pátio onde está a passar um filme, à sala da limpeza cheia de detergentes e esfregões doados. «A gente aqui reinventa o espaço. Mas não é fácil desenvolver um projecto político pedagógico alternativo. O ideal não é consensual.» Oficialmente não há uma liderança, simplesmente uns dedicam-se mais à ocupação. No início tomavam decisões em assembleia, mas começaram a sentir que isso também era algo velho. Se o colégio tinha uma tradição de grémio (associação de estudantes) ligado ao PSOL (partido de esquerda), agora houve um corte com a partidarização. O meu interlocutor é dos mais activos, está em duas comissões, mas nem eu pergunto para onde eles vão nem ele responde. «Só sei que vou sair daqui com um aprendizado para a vida. Recebo muita informação, a nossa cabeça fica muito cheia, é uma mudança radical, quebrar ociosidade, improdutividade, o ficar encostado. Aqui, a gente está-se propondo fazer coisas.» Coisas políticas fora de partidos. Ele toca tuba, até à ocupação tocava em shows, na rua, mas agora a música está em pausa, tal como a ideia da faculdade. Faculdade, próximo ano: visto daqui, de repente isso é muito remoto.”


Esta pode ser uma oferta dos jovens à escola tradicional …