sábado, 28 de setembro de 2019

[0206] Duas actividades do Centro de Arqueologia de Almada, em Outubro


Já no próximo Sábado, dia 5 de Outubro, apresentação do livro Sobreda ontem e hoje, da autoria de Elisabete Glória Gonçalves, no Salão Nobre do Solar dos Zagallos, pelas 16h00:


E no dia 24 de Outubro, na Travessa Luís Teotónio Pereira (Cova da Piedade 2805-187 Almada), pelas 18h00, conversa sobre a história do Serviço Educativo do Centro de Arqueologia de Almada, animada por Ana Braga, Elisabete Glória Gonçalves e José Carlos Serra


quarta-feira, 25 de setembro de 2019

[0205] A revolta estudantil de 2015 e 2016 no Brasil


Em 2015, milhares de alunos do ensino secundário de São Paulo (Brasil), procurando resistir ao projecto de reorganização do ensino público do então governador do estado de São Paulo, Geraldo Alckmin, ocuparam mais de 200 das suas escolas. Organizaram-se para nelas permanecerem de dia e de noite e aí realizaram assembleias de autogestão e aulas sobre pensamento crítico. Letícia Karen, então com 15 anos, recordou as razões da resistência: “A gente só ficou sabendo do projecto de Geraldo Alckmin através do jornal. Até lá, nem os professores nem as classes estudantis sabiam de nada (…). Todos sabíamos que era um corte na educação pública, que não era para melhorar: para quê fechar escolas quando o que precisamos é de muitas mais?

Imagem retirada de: https://focasnaarea.wordpress.com

A mobilização tinha, aliás, sido iniciada por manifestações de rua, apoiadas por entidades escolares e por sindicatos de professores, mas rapidamente se tornou autónoma. E como os estudantes se aperceberam de que as manifestações não eram suficientes, decidiram ocupar as escolas, inspirando-se no exemplo da Revolução dos Pinguins dos alunos do ensino secundário chilenos, em 2006.
As ocupações duraram dois meses, e o que os estudantes viveram e aprenderam equivaleu ao que viveriam e aprenderiam ao longo de muitos anos. De novo o testemunho, hoje, de Letícia Karen: “A gente desconstruiu aquele ensino baseado na escola ditatorial e construiu junto outra coisa. Fomos descobrindo outras possibilidades de existência ali dentro, coisa que nunca tínhamos feito antes.

No final de 2015, este movimento conseguiu que o projecto de reorganização do ensino público paulista fosse suspenso. Mas ainda havia muitos outros problemas: as más condições das escolas, os salários em atraso das empregadas de limpeza e dos professores, as salas de aula superlotadas (40 a 50 alunos para um professor). “A gente costuma dizer que nós ocupamos as escolas não só porque elas iam fechar, mas por toda a precarização do ensino público”, precisa Letícia.” Por isso, em 2016, os estudantes juntam à sua lista de protestos questões como o desvio do dinheiro das merendas, os projectos de lei ligados ao movimento conservador e retrógrado Escola sem Partido e a reforma do ensino secundário anunciada pelo governo de Michel Temer. De São Paulo, a mobilização estende-se a outras cidades, com manifestações e mais de 1000 escolas e universidades públicas ocupadas.
A repressão policial aumenta. “Havia muita perseguição, eles já sabiam quem nós éramos. Havia, do nada, espancamentos na rua de companheiros nossos”, diz Letícia. Obrigados por decreto-lei a sair das escolas e com a polícia à porta para os receber à saída, os estudantes estavam “muito afectados psicologicamente” e não sabiam “como continuar” este tipo de luta.

O projecto de reorganização do ensino acabou por ser posto em prática, de outro modo, com outro nome, e as escolas continuaram precarizadas.
Os estudantes, no entanto, perceberam que tinham uma voz: “Surgiram várias associações estudantis dentro das escolas, muitas direcções foram derrubadas e a gente recebe notificações de manifestações todos os dias. Criou-se uma rede de apoio a partir do movimento.” E também perceberam que podiam agir por outros meios: A ocupação não era mais viável, então resolvemos continuar a resistir através da arte.

Fonte: notícia de Duarte (2019), livremente resumida nesta mensagem

A mensagem «0023», de Outubro de 2016, já havia referido este movimento estudantil

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

[0204] O relatório Education at a Glance de 2019


A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) divulgou há dias o seu relatório anual Education at a Glance. Nele, os jovens portugueses surgem com taxas de inscrição no ensino superior acima da média dos países parceiros desta organização, mas com o dobro de «nem-nem» (jovens que nem estudam nem trabalham) que procuram emprego há mais de um ano.
De facto, entre os 19 e os 20 anos, 41 % dos nossos jovens estão matriculados numa universidade ou num instituto politécnico, enquanto na generalidade da OCDE a média é de 37%. Por outro lado, Portugal, com a Itália, a Espanha e a Grécia, integra o grupo de países onde há mais jovens que não estudam nem trabalham:


Há pelo menos dois tipos de dificuldades para aqueles que colocam a possibilidade de continuar a estudar. As instituições do ensino superior continuam muito focadas em cursos que prolongam o ensino secundário, não se interessando por prolongar os cursos profissionais. E os cursos do ensino superior têm vindo a garantir vencimentos no mercado de trabalho cada vez mais próximos de quem os não tirou, tal como Sofia Escária, presidente da Federação Académica de Lisboa (FAL), explicou: “De que serve investir tanto para ter um curso, se num primeiro emprego vamos ganhar pouco mais do que quem não tem formação?


Este relatório pode ser acedido em http://www.oecd.org/education/education-at-a-glance/, com versões em inglês, alemão e francês.

Mensagens que referiram os relatórios Education at a Glance dos últimos anos: «0005» (2016), «0089» (2017) e «0158» (2018).

Fonte: notícia de Silva (2019b)

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

[0203] O que é um museu?


Segundo a definição vigente, “um museu é uma instituição permanente sem fins lucrativos, ao serviço da sociedade e do seu desenvolvimento, aberta ao público, que adquire, conserva, investiga, comunica e expõe o património material e imaterial da humanidade e do seu meio envolvente com fins de educação, estudo e deleite”.
A maior organização não-governamental dos museus e dos seus profissionais, o Conselho Internacional dos Museus (ICOM), pretendendo actualizar esta definição, lançou um processo de participação do qual resultou uma nova proposta, a debater e ser votada na Assembleia Geral Extraordinária que terá lugar no dia 7 de Setembro de 2019, após a Conferência Geral do ICOM que se realiza em Quioto (Japão) na primeira semana deste mês.


A definição proposta pode ser consultada aqui. E uma sua possível tradução, efectuada pelo ICOM Portugal, é a seguinte:

Os Museus são espaços democratizantes, inclusivos e polifónicos, orientados para o diálogo crítico sobre os passados e os futuros. Reconhecendo e lidando com os conflitos e desafios do presente, detêm, em nome da sociedade, a custódia de artefactos e espécimes, por ela preservam memórias diversas para as gerações futuras, garantindo a igualdade de direitos e de acesso ao património a todas as pessoas.
Os museus não têm fins lucrativos. São participativos e transparentes; trabalham em parceria activa com e para comunidades diversas na recolha, conservação, investigação, interpretação, exposição e aprofundamento dos vários entendimentos do mundo, com o objectivo de contribuir para a dignidade humana e para a justiça social, a igualdade global e o bem-estar planetário.

Fontes: notícia de Canelas (2019), para a definição vigente de museu, e sítio do ICOM Portugal, para a proposta de nova definição

sábado, 31 de agosto de 2019

[0202] A cidade e o futuro, no cinema

Exceptuando o mês de Agosto e, ao longo do ano, os Domingos, a Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema, situada em Lisboa, disponibiliza um intenso programa de visionamento de filmes das mais variadas origens, organizando-o de acordo com ciclos.

No dia 20 de Setembro, às 19h00, a Cinemateca exibe o filme Metropolis, dirigido pelo austríaco Fritz Lang e estreado em 1927. Foi, na altura, o filme mais caro produzido na Europa; e hoje é considerado uma das principais obras do expressionismo.




O guião deste filme baseou-se no romance de Thea von Harbou, tendo sido escrito por Harbou e Lang. Trata-se de “uma parábola sobre as relações sociais numa cidade do futuro. Os privilegiados vivem nas alturas, enquanto a massa de trabalhadores oprimidos vive nos subterrâneos, trazendo o desfecho uma reconciliação artificial entre as classes. O que faz de METROPOLIS uma obra-prima é a realização de Fritz Lang, os impressionantes e excecionais cenários futuristas, o domínio absoluto das massas de figurantes, a oposição entre homens e máquinas. É uma obra de múltiplos restauros, conhecida pela mutilação a que foi submetida logo depois da sua estreia em Berlim em janeiro de 1927.

Será apresentado na Cinemateca, legendado em português, na versão do último restauro, digital, de 2010, com mais 25 minutos de duração (a partir da descoberta, na cinemateca da Argentina, de uma cópia de 16 mm conforme à versão original de Lang), e pode permitir uma nova visão da obra, segundo o historiador e arquivista Martin Koerber, responsável pelos restauros de 2001 e de 2010: “Deixou de ser um filme de ficção científica. O equilíbrio da história foi reposto. Trata-se agora de um filme que abarca muitos géneros; um épico sobre conflitos antigos. A máscara da ficção científica é agora muito, muito ténue.

Fontes: sítio da Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema (texto) e Wikipédia, versão inglesa (imagem)

sábado, 24 de agosto de 2019

[0201] As Escolas de Segunda Oportunidade


Na Europa, as Escolas de Segunda Oportunidade começaram a surgir na segunda metade dos anos 1990. A rede que estas escolas criaram em 1999 inclui, actualmente, cerca de 40 parceiros (associações e estabelecimentos de ensino), na sequência do reconhecimento da educação de segunda oportunidade pela Comissão Europeia.

Em Portugal a primeira escola que se juntou a esta rede foi a Escola de Segunda Oportunidade de Matosinhos, criada em 2008:


Escola de Segunda Oportunidade de Matosinhos
(imagem retirada de https://escolasegundaoportunidade.blogspot.com/)


Foram entretanto criadas outras, sobretudo no Norte (Maia, Porto, Valongo), mas também no Sul (Samora Correia).

Estas escolas destinam-se aos jovens que, com mais de 15 anos e sem qualificação profissional, tenham abandonado os estudos há pelo menos um ano, tendo sido, há pouco mais de duas semanas, legalmente enquadradas pelo Ministério da Educação (Despacho nº 6954/2019).
Para concretizar este enquadramento em 2019-20, serão assinados protocolos entre cada uma destas escolas, a Direcção-Geral dos Estabelecimentos Escolares e as entidades parceiras (autarquias, empresas, instituições de solidariedade social, movimento associativo). Haverá, portanto, um ambiente comunitário a rodear estas escolas.

Fonte: notícia de Silva (2019)

sábado, 10 de agosto de 2019

[0200] Se numa noite de Agosto vir «estrelas cadentes», inspire-se neste documento


Acabou de ser divulgado o primeiro documento internacional que procura dar uma resposta à pergunta: “O que deverão os cidadãos, em qualquer lugar do mundo, saber sobre astronomia?” Foi intitulado Big Ideas in Astronomy: A Proposed Definition of Astronomy Literacy (Grandes Ideias na Astronomia: Uma Proposta de Definição da Literacia da Astronomia) e produzido por um grande número de colaboradores de todo o mundo, sob coordenação do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço, do Observatório de Leiden e da Universidade de Leiden (Holanda):



Descarregue aqui este documento.

Ao longo de 65 páginas, são abordados diversos aspectos da astronomia: a história, a tecnologia, as observações, as teorias, as implicações sociais e filosóficas, organizados em onze ideias:

A Astronomia é uma das mais velhas ciências;

Os fenómenos astronómicos podem ser experienciados no nosso quotidiano;

O Céu, à noite, é rico e dinâmico;

A Astronomia é a ciência que estuda os objectos celestes e os fenómenos do Universo;

A Astronomia beneficia do desenvolvimento tecnológico e também o estimula;

A Cosmologia é a ciência que explora o Universo como um todo;

Todos nós vivemos num pequeno planeta do Sistema Solar;

Todos somos feitos do pó das estrelas;

Há centenas de biliões de galáxias no Universo;

Podemos não estar sós no Universo;

Devemos preservar a Terra, a nossa casa no Universo.


Fonte: notícia do Público (2019)

domingo, 4 de agosto de 2019

[0199] Faça chuva, ou faça sol, consulte o Instituto Português do Mar e da Atmosfera


O IPMA (Instituto do Mar e da Atmosfera) é o laboratório de Estado que tem por competência promover e coordenar a investigação científica, o desenvolvimento tecnológico, a inovação e a prestação de serviços no domínio do mar e da atmosfera, assegurando a implementação das estratégias e políticas nacionais nas suas áreas de actuação, contribuindo para o desenvolvimento económico e social, sendo investido nas funções de autoridade nacional nos domínios da meteorologia, meteorologia aeronáutica, do clima, da sismologia e do geomagnetismo:


O IPMA criou um e-Museu do Mar e da Atmosfera, ainda numa fase embrionária, através do qual disponibiliza uma experiência virtual interativa recorrendo à tecnologia multimédia como forma de partilhar o seu acervo:


Fonte: página do IPMA nas redes sociais


domingo, 21 de julho de 2019

[0198] Desenho arqueológico em exposição em Almada


Perguntou há dias o arqueólogo Luís Raposo [mensagem «0197»] se aquilo que pretendemos fazer com os nossos arquivos memoriais é consumi-los em nome apenas da parasitagem hedonista hodierna ou interrogá-los constantemente, potenciando o seu poder criativo, e já agora conservá-los para aqueles que virão depois de nós?
E, de certo modo respondendo, lembrou como o regresso da democracia em 1974 trouxe com ela todo um novo entusiasmo pelo estudo libertador do passado, como condição da libertação do presente e da garantia da liberdade no futuro.

Podemos encarar a educação como um encontro com as memórias colectivas, onde as questionamos à luz do que desejamos para o presente e para o futuro.

Está em exposição no Quarteirão das Artes, em Almada, a exposição Desenho Arqueológico do Centro de Arqueologia de Almada, concebida e organizada pela Associação Cidadão Exemplar:

Capa de Jorge Raposo para o nº 1 da IIª série
da revista «al madan» (Dezembro de 1992),
onde está em destaque o desenho arqueológico de uma peça medieval
recolhida em Almada, feito por Armando Sabrosa (1965 – 2006) e patente nesta exposição

Na apresentação desta exposição pode ler-se:
O desenho arqueológico é uma ferramenta essencial para o arqueólogo durante o trabalho de campo e posteriormente quando o espólio arqueológico é estudado.
A representação gráfica das peças recuperadas nas escavações arqueológicas tem como objectivo ajudar o investigador na interpretação das mesmas e muitas vezes do contexto de proveniência. Essa representação é mais esquemática ou com maior rigor técnico, conferindo textura e perspetiva de acordo com o nível de pormenor e a complexidade do objeto que queremos ver representado. Auxilia na perceção de morfologias, tipologias, padrões decorativos e mesmo funcionalidades.

Fonte: sítio do Centro de Arqueologia de Almada

quarta-feira, 17 de julho de 2019

[0197] Que fazer com os nossos arquivos memoriais?


Queremos “consumi[r os nossos arquivos memoriais] em nome apenas da parasitagem hedonista hodierna ou interrogá-los constantemente, potenciando o seu poder criativo, e já agora conservá-los para aqueles que virão depois de nós?”
Foi para ilustrar esta pergunta que Luís Raposo contou a seguinte estória:

Era uma vez, um homem, José Leite de Vasconcelos, que moveu céus e terra em finais de oitocentos para fazer um museu que contasse as origens remotas do «ser português», muito mais do que do ser Portugal. Conseguiu finalmente instalá-lo em Belém, na ala recém-reconstruída do Mosteiro dos Jerónimos, que na altura e por influência do positivismo e do evolucionismo progressistas se preferiu politicamente consagrar a tal narrativa, em detrimento da que contasse a grandeza imperial. Passaram os anos, as décadas, os regimes, caminhou-se da Monarquia para a República, desta para a Ditadura Militar e o Estado Novo… e o «Museu de Belém» (assim simplesmente chamado porque não havia outro nas redondezas) foi singrando, reunindo arquivos da terra, promovendo ou até criando novos campos de estudo e novos oficiais dos mesmos. Chegou a Democracia e com ela todo um novo entusiasmo pelo estudo libertador do passado, como condição da libertação do presente e da garantia da liberdade no futuro.
É aqui que o contador da estória entra em cena. Nesse museu, no museu onde trabalho faz agora precisamente quatro décadas, havia, quando entrei, guardas de dia e de noite, estes com cães e licença de porte de arma, havia auxiliares de limpeza (as primeiras cuidadoras das colecções, como enfaticamente dizia Adília Alarcão, uma das pessoas com quem, mesmo sem disso me ter dado conta, mais aprendi a amar os museus pelas pequenas coisas do dia-a-dia), havia conservadores para várias colecções, havia arqueólogos com actividade de campo ao serviço do museu (eu próprio, era um deles), havia telefonistas, havia técnicos de laboratório (inclusive uma engenheira química, isto para além do sector de arqueociências, com diferentes especialidades, como a geologia ou a paleobotânica), havia secretaria com chefia própria, havia bibliotecária, havia fotógrafo, havia almoxarife, havia marceneiro e havia carpinteiro, havia, havia… éramos quase uma centena e apenas recorríamos a aquisições de serviços externas quando realmente justificadas, em situações técnicas (caso do transporte de peças para o exterior) ou para alargar o leque da criatividade (caso dos projectos de exposições).
Havia também desenhadores (no plural), conforme a longa, secular, tradição de uma Casa por onde passaram Guilherme Gameiro, Francisco Valença, João Saavedra Machado, Dario de Sousa … E até o grande Stuart aí colaborou, ocasionalmente. Em algumas décadas do século XX, especialmente durante o Estado Novo, era no «Museu de Belém» (ou «Museu Etnológico», que ainda ostentava no nome, conforme o baptismo que lhe deu o fundador) que se reuniam alguns destes mestres e aí conversavam, trocavam experiências, talvez também ideias, como o demonstram numerosas caricaturas do Sempre Fixe, resistentes dentro dos limites que o lápis azul e a tesoura (repetidamente representados por Valença) o deixavam. Diversas técnicas de representação gráfica em arqueologia foram testadas, desenvolvidas, no que constituiu uma escola prática. Os álbuns desses mestres, que no museu se guardam, constituem por si sós tesouros nacionais. E nunca é demais lembrar que, em Arqueologia, seja de campo seja de gabinete, incluindo registo de peças em museu, o desenho é muito mais importante do que a fotografia: esta, para usar a expressão de Mortimer Wheeler, «é mentirosa», porque dá a errada (e ingénua) sensação de autenticidade; aquele é verdadeiro, porque expõe sem filtros a interpretação do autor, desenhador e arqueólogo.

Desenho humorístico, de Francisco Valença, na capa do “Sempre Fixe”, em 1956. A resistência das colecções do “Museu Etnológico” à decisão governamental da entrega de Belém e dos Jerónimos à celebração do Império e à Marinha, patrocinada ao mais alto nível do regime pelo então ministro daquele ramo das Forças Armadas, Américo Thomaz, “eleito” dois anos depois Presidente da República, na célebre golpada contra a candidatura de Humberto Delgado.

Conto tudo isto porque se reformou por estes dias a Helena Figueiredo, aquela que poderá talvez ter sido a última desenhadora do Museu Nacional de Arqueologia, já que não se vê no horizonte nenhuma possibilidade de inverter a caminhada para o abismo em que os Museus Nacionais se encontram em matéria de pessoal. Abismo que não é só pela falta do mais aparente (vigilantes-recepcionistas), mas pela efectiva falta de pensamento estratégico quanto ao que é ser museu e mormente museu nacional. Éramos próximo de uma centena há quatro décadas, a grande maioria com contratos de trabalho estáveis; cobríamos quase todos os sectores de especialidade necessários à realização da missão do museu e confiávamos na perenidade intergeracional da instituição. Hoje seremos pouco mais de três dezenas, recorremos a torto e a direito a externalidades, à exploração dos mais jovens (bolseiros, estagiários…), à precariedade em geral e até, cada vez mais, ao «voluntariado» …

Vaso neolítico do Monte da Vinha (Santiago do Cacém). 5º milénio antes de Cristo. Doação do escritor Mário de Carvalho ao Museu Nacional de Arqueologia, de cujo Grupo de Amigos é membro. Desenho de Helena Figueiredo do vaso neolítico do Monte da Vinha. Repare-se que a análise inteligente da desenhadora foi ao ponto de ter detectado, e representado, a forma dos instrumentos ou estiletes usados na execução dos motivos impressos.

Pergunto-me o que virá a seguir. A privatização mercantilista dos museus nacionais que possam gerar receita, convertidos em negócios destinados a distribuir lucro; ou, mais pudicamente, a sua semi-privatização, entregues a sociedades de capitais públicos assentes em sistemas de bilhética agressivos (insensíveis à dimensão cidadã), capazes, no melhor dos cenários, de potenciar essas «ilhas de abundância», conservando e promovendo os bens à sua guarda – ou meras centrais de emprego de «amigos» e «correligionários», rodízios de mãos que se lavam mutuamente, no pior dos casos?
E pergunto-me sobre tudo o resto, o que inexoravelmente «não dá dinheiro». Ficará simplesmente ao abandono, entregue à sua apagada e vil tristeza? Deixará o País de possuir arquivos de memória capazes de executarem as suas missões, verdadeiros museus nacionais desde logo, geridos com sentido de entrega à causa pública, com respeito por todos os que nos precederam, todos os que hão-de vir … e para nossa própria felicidade, afinal?
Ou tudo isto não passa de inquietações sem sentido, inerentes à idade, à velhice, à aproximação da reforma e decorrentes de um sentido de patriotismo emancipador, porventura fora de moda?

Fonte (jornal): Raposo (2019)

sábado, 6 de julho de 2019

[0196] Abrem muito em breve as inscrições no «Ciência Viva no Verão» de 2019

Nas férias de Verão haverá centenas de acções de participação gratuita em todo o país, organizadas por centros ciência viva, instituições científicas, autarquias, empresas e associações científicas:


O programa será disponibilizado para consulta no dia 8 de Julho (2ª feira) a partir das 17h e as inscrições serão abertas no dia 9 de Julho (3ª feira) às 15h, em www.cienciaviva.pt/veraocv/home/.

Fonte: sítio da Ciência Viva

domingo, 23 de junho de 2019

[0195] Como surgiram os Serviços Educativos nos nossos museus

Entre 1961 e 2008 o número de museus portugueses mais do que triplicou (de 96 para 300) e o número dos seus visitantes mais do que decuplicou (de 740 mil para mais de 8 milhões). Entre os visitantes, os que o fizeram no âmbito de actividades pedagógicas passaram de menos de 20 % do total, em 1994, para mais de 25 %, em 2008. Catarina Moura, coordenadora do Serviço Educativo do Museu Nacional de Arte Contemporânea, contou uma história do surgimento dos serviços que apoiaram este tipo de visitas.


Subindo e Descendo (M. C. Escher, 1960)

Em 1936 a lei portuguesa já previa e recomendava “a visita dos alunos e professores dos estabelecimentos de ensino aos museus de arte e monumentos nacionais”, mas foi só em 1953, no Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa, que “um grupo de mulheres pioneiras, autodidactas, num trabalho isolado e de absoluto mérito”, iniciou “uma nova era nos museus”, acompanhando as visitas de alunos e professores e fazendo a mediação com a respectiva colecção.
Depois, nos anos 70, a Fundação Calouste Gulbenkian criou um Serviço Educativo, “com monitores que promoviam visitas guiadas e actividades dirigidas ao público”, iniciativa que, em breve, foi replicada informalmente, mas convictamente, em “muitos museus” do Estado, tornando-se “uma realidade incontestável” apesar de nascida “à margem da lei”. Os novos educadores, então pagos à hora, ou dependentes de um subsídio da Gulbenkian, enfrentaram “todas as adversidades, perante a incredulidade de muitos directores e conservadores”, e demonstraram, na prática, “a possibilidade e a vantagem educativa em estabelecer relações de cumplicidade e criar laços simbólicos entre acervos e públicos.”
Apenas nos anos 80 a “carreira de monitor do serviço educativo” dos museus do Estado foi reconhecida na lei, o que terá estimulado a criação destes serviços em muitos dos nascentes museus autárquicos que, por se encontrarem mais próximos das comunidades, começaram a propor programações mais interactivas com os seus visitantes.
Em 1993 este novo grupo de profissionais decidiu começar a encontrar-se com regularidade, de modo a beneficiar de trocas e reflexões a uma escala maior, pois o seu número era muito reduzido em cada Serviço Educativo. O objectivo desses encontros não seria pequeno, atendendo ao que David Anderson afirmara:
Os objectos têm o poder de mover a mente e o coração das pessoas, exibi-los não chega. Mas, eles por si não são cultura, cultura é o que fazemos com eles”.
Em 2001, “inexplicavelmente”, estes encontros cessaram.

Fontes: livro de Rosa e Chitas (2010; p. 43); pdf de Moura (2012), onde são citados o Decreto-Lei nº 27 084 (artº 10º) e Aderson (conservador do Victoria and Albert Museum, em Londres)

sábado, 15 de junho de 2019

[0194] Os Anos Internacionais propostos pela Organização das Nações Unidas


A Organização das Nações Unidas (ONU) tem adoptado quatro ritmos para propor à comunidade mundial a atenção a temas que considera fundamentais: o mais conhecido, o Dia Internacional, tal como as Semanas Internacionais, são mais vocacionados para a celebração; o Ano Internacional e a Década Internacional apelam, principalmente, à intervenção.

O primeiro tema anual foi o dos Refugiados, proposto para 1959-60.
Desde aí, nem todos os anos estiveram associados a um tema, e alguns estiveram associados a mais do que um.
Para 2019 foram adoptados três temas (entre parêntesis, o acesso à respectiva resolução pela Assembleia Geral do ONU):

Ano Internacional da Tabela Periódica dos Elementos Químicos (A/RES/72/228), já referido na mensagem «0182»

Ano Internacional da Moderação (A/RES/72/129)

Ano Internacional das Línguas Indígenas (A/RES/71/178):



A ONU argumenta assim em relação a este último tema:

As línguas são importantes para o desenvolvimento social, económico e político, a coexistência pacífica e la reconciliação nas nossas sociedades. Sem dúvida, muitas das línguas estão em perigo de desaparecer. Por esta razão, as Nações Unidas declaram o ano de 2019como Ano das Línguas Indígenas a fin de estimular a adopção de medidas urgentes para as preservar, revitalizar e promover.
É através da linguagem que comunicamos com o mundo, definimos a nossa identidade, expressamos a nossa história e cultura, aprendemos, defendemos os nossos direitos humanos e participamos em todos os aspectos da sociedade, só para nomear alguns. Através da língua, guardamos a história, os costumes e tradições das nossas comunidades, a memória, os modos únicos de pensamento, significado e expressão. Também a utilizamos para construir o futuro.
O idioma é fundamental nos âmbitos da protecção dos direitos humanos, da boa governança, da consolidação da paz, da reconciliação e do desenvolvimento sustentável.
O direito a utilizar o idioma da sua preferência é um requisito prévio para a liberdade de pensamento, opinião e expressão, de acesso à educação e à informação, ao emprego, à construção de sociedades inclusivas e outros valores consagrados na Declaração Universal dos Direitos Humanos.
Muitos de nós podem viver na sua língua materna sem limitações nem problemas. Mas esse não é o caso de todos.
Dos quase 7 000 idiomas existentes, a maioria foi criada e é falada por povos indígenas que representam a maior parte da diversidade cultural do mundo.

Já estão previstos temas para mais três anos (embora não para todos os próximos anos):

2020: Ano Internacional da Saúde das Plantas (A/RES/73/252)

2022: Ano Internacional das Pescas Artesanais e da Aquacultura (A/RES/72/72)

2024: Ano Internacional dos Camelídeos (A/RES/72/210)

Fonte: sítio da Organização das Nações Unidas (versão inglesa)

sábado, 8 de junho de 2019

[0193] Tema para o Dia Mundial dos Oceanos de 2019: o papel do género


Em 1992 a Conferência sobre o Ambiente e o Desenvolvimento promovida pelas Nações Unidas no Rio de Janeiro proporcionou a primeira razão para a celebração dos oceanos. Desde 2009, após decisão das Nações Unidas, essa celebração foi transformada em Dia Mundial dos Oceanos e concretizada em cada dia 8 de Junho.

Os temas centrais propostos nos últimos para esta celebração foram:
2013 e 2014: Juntos temos o poder para proteger os oceanos;
2015 e 2016: Oceanos saudáveis, um planeta saudável;
2017: Nossos oceanos, nosso futuro;
2018: Oceanos -- Sensibilizar para agir, Proteger para valorizar.

Em 2019, destacando que 70 %
da superfície do nosso planeta está coberta por oceanos
do oxigénio tem origem nos oceanos …,

… foram dois os temas centrais avançados para esta comemoração:

Juntos, podemos proteger e renovar o nosso oceano e
O género e o oceano.

No argumentário que sintetiza o segundo destes temas refere-se que:
·      as mulheres e as crianças têm um risco 14 vezes superior de ser atingidas pelas catástrofes naturais (e as perturbações provocadas pelas mudanças climáticas atingem, em particular, as costas marítimas);
·      os conhecimentos sobre o mar e as pescas são transmitidos quer por via paterna quer por via materna;
·      metade dos trabalhadores na aquacultura são as mulheres, que recebem apenas 64 % do que os homens recebem como salário, tendo ainda menos acesso aos cargos onde são tomadas as decisões;
·      só 2 % dos 1,2 milhões de marinheiros são mulheres;
·      só 24 % dos membros dos parlamentos e 38 % dos cientistas marinhos são mulheres.



Fontes: sítios da Calendarr Portugal e das Nações Unidas

sábado, 1 de junho de 2019

[0192] A Rede de Museus do Distrito de Beja

Trata-se de uma rede informal que inclui museus dos concelhos de Aljustrel, Almodôvar, Alvito, Beja, Castro Verde, Cuba, Ferreira do Alentejo, Mértola, Moura, Ourique, Serpa e Vidigueira:




A necessidade sentida de troca de experiências, de formação e de um fórum de discussão que, para além do debate de ideias, permita o assumir de posições a uma só voz, levou à criação desta Rede de Museus do Distrito de Beja.
A sua Carta de Princípios, aprovada pelos municípios aderentes, tem como principais objectivos a qualificação, valorização e divulgação das unidades museológicas do Distrito; a cooperação, parceria e articulação entre as unidades museológicas dos concelhos que integrem a Rede; a optimização e rentabilização de recursos, principalmente em termos de meios humanos e da realização de projectos comuns; a difusão da informação relativa aos museus da Rede; e a promoção do rigor, ética e profissionalismo das práticas museológicas.

Fonte: página do Facebook da Rede de Museus do Distrito de Beja

segunda-feira, 27 de maio de 2019

[0191] Apresentação de um livro sobre o cinquentenário das Escolas do Clube Desportivo da Cova da Piedade


No salão nobre do Estádio Municipal José Martins Vieira (Cova da Piedade), será apresentado no próximo Domingo (2 de Junho), pelas 16h00, o livro

50 Anos ao serviço do Ensino Popular e da Democracia,

uma história sobre as Escolas do Clube Desportivo da Cova da Piedade.
A apresentação estará aberta aos interessados.



terça-feira, 21 de maio de 2019

[0190] A exposição «Algarve – Do Reino à Região»

Uma interessante iniciativa da Rede de Museus do Algarve (cujas origens foram referidas na mensagem «0188») foi a coordenação de 13 dos seus membros (oito museus e cinco municípios) para a realização de uma exposição conjunta onde se abordam os últimos mil anos da história e da cultura algarvia, ou seja, desde o Gharb al-Andalus até à actualidade:




Os locais onde se exibe este painel museológico e os respectivos títulos e temáticas são os seguintes:

Câmara Municipal de Alcoutim
Alcoutim, Terra de Fronteira
Através de um aprazível percurso pela vila de Alcoutim desvenda-se o seu crescimento urbano, associado à consolidação dos limites do Reino e ao controlo do comércio fluvial, a importância do rio e as suas relações com Sanlúcar do Guadiana

Câmara Municipal de Castro Marim
Castro Marim, Baluarte Defensivo do Algarve
Castro Marim, terra de fronteira, implantada numa colina sobranceira à foz do Guadiana, constituiu sempre o principal baluarte defensivo de um Algarve constantemente ameaçado por Mouros e Castelhanos

Câmara Municipal de Lagos
O Reino dos Algarves e para Além Mar – Leitura e Resenha da Cartografia Regional
Dois núcleos expositivos que retratam o Algarve na sua dimensão histórica e espacial, como local de partida e de chegada. O primeiro enfoca o Algarve como palco da expansão ultramarina, o segundo cartas de grande importância histórica e artística

Câmara Municipal de Silves
Do Gharb ao Algarve: Uma Sociedade Islâmica no Ocidente
Com uma centena de peças se ajuda a contar a história de um território. Do Gharb ao Algarve fala-nos de um tempo passado (sécs. VIII-XIII), mas também das continuidades que ajudam a compreender a região actual

Câmara Municipal de Vila Real de Santo António
Vila Real de Santo António e o Urbanismo Iluminista
Vila Real de Santo António foi idealizada de raiz de forma a funcionar como “cidade fábrica”, apresenta-se-nos como um exemplo único no panorama português, incomparável a qualquer outra obra da mesma época. É, por excelência, a Cidade do Iluminismo em Portugal

Museu da Cidade de Olhão
Os Compromissos Marítimos no Algarve
A exposição propõe um olhar sobre as diferentes dimensões em que operavam os Compromissos Marítimos, associações de mareantes, também conhecidas por Irmandades ou Confrarias do Corpo Santo, e que tiveram forte impacto nas comunidades onde foram criados

Museu Marítimo Almirante Ramalho Ortigão: Os Descobrimentos Portugueses
A mostra evoca os desenvolvimentos que permitiram o sucesso das navegações de descobrimento portuguesas nos séculos XV e XVI, nomeadamente através de três vectores: navios, cartografia e navegação astronómica

Museu Municipal de Arqueologia de Albufeira
Outras Viagens, Outros Olhares
Venha descobrir outros Algarves, numa viagem através do olhar dos outros! Dos viajantes do séc. XIX, aos testemunhos dos veraneantes de hoje, passando pelos curiosos olhares dos primeiros turistas

Museu Municipal de Faro
Algarve Visionário, Excêntrico e Utópico
A exposição estabelece o século XX como campo de pesquisa, propondo uma releitura da inalienável multiplicidade e radical individualidade que caracteriza o território do Algarve enquanto lugar de reflexão, inspiração e criação

Museu Municipal de Loulé
Mendes Cabeçadas e a Primeira República no Algarve
A exposição sobre José Mendes Cabeçadas Júnior (1883-1965) mostra o militar, o político e opositor a Salazar. Apresenta também os principais eixos do republicanismo português no Algarve

Museu Municipal de Tavira
Cidade e Mundos Rurais
Tavira e os “mundos rurais, do período islâmico à actualidade, numa perspectiva pluridisciplinar. Os usos do território, arquitecturas, economias, festividades, musicologia, … Plantas, mapas, objectos, filmes, fotos, trechos musicais, …

Museu de Portimão
Manuel Teixeira Gomes – Entre Dois Séculos e Dois Regimes, Portimão – Território e Identidade
Um percurso na viragem do séc. XIX, entre a Monarquia e a I República, sobre a vida e obra de Manuel Teixeira Gomes, e a evolução de Portimão, sua terra natal, na passagem de vila rural e cidade industrial

Museu do Trajo de São Brás de Alportel
Sombras e Luz – O Século XIX no Algarve
Numa incursão em ambientes da época, um belo edifício oitocentista recria vivências domésticas, sociais e laborais com pinceladas de etiqueta, educação, religião, música e alguns momentos de interactividade

Fonte: sítio da Rede de Museus do Algarve

domingo, 12 de maio de 2019

[0189] A Rede Nacional de Áreas Protegidas

Agora que o tempo começa a ficar favorável para os passeios a pé pela Natureza, eis um mapa com a localização das áreas protegidas situadas no território continental do nosso país:




O Instituto para a Conservação da Natureza e das Florestas proporciona informações sobre cada uma destas áreas. Para as conhecer, basta clicar abaixo no respectivo nome:







Fonte: sítio do Instituto para a Conservação da Natureza e da Floresta