domingo, 4 de fevereiro de 2018

[0115] Explorando, na Nossa Banda, a era pós-ranking das escolas

O jornal «Público» divulgou ontem, 3 de Fevereiro de 2018, o seu ranking anual das escolas portuguesas, tal como já vem fazendo desde 2001.
Este e outros rankings têm vindo a ser bastante criticados, sendo a razão central das críticas o afunilamento de perspectivas que eles, implicitamente, promovem: pressupõem um modelo particular de educação e as escolas são seriadas em função da sua capacidade de promover esse modelo.

Este ranking oferece-nos, no entanto, algumas oportunidades para pensar no que poderia ser diferente se as escolas deixarem de ser pressionadas para a uniformidade. E uma das oportunidades que nos proporciona decorre da informação sobre a média da escolaridade dos pais e das mães dos alunos de cada escola. Abaixo figuram as 28 escolas públicas dos concelhos de Almada e Seixal que, segundo o ranking do «Público», tiveram no final de 2016-17 pelo menos 50 alunos examinados no 9º ano (não estão indicados os seus nomes, apenas a sua localização aproximada no mapa, mais a respectiva média da escolaridade dos pais, em 2015-16):


Há neste mapa três regiões com escolas cujas médias da escolaridade dos pais são particularmente baixas (fundo verde). Em duas dessas regiões essas escolas estão situadas lado-a-lado com escolas cujas médias são substancialmente mais altas (fundo rosa).

Esta realidade (e a crítica que é feita aos rankings) sugere que se encare a seguinte questão: sendo cada aluno diferente, sendo cada família diferente, sendo cada escola diferente, não deverá a educação, em qualquer destas escolas, ser capaz de ter em conta essas diferenças, de modo a potenciar o melhor e a compensar o mais fraco de cada um?

Fonte: Público (2018), que pode ser descarregado a partir da página «Documentos» (na pasta «Documentos sobre Portugal»)

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

[0114] «Plantas Silvestres do Concelho de Almada»: o novo livro de Manuel Lima

Escrito pelo mais prolífico divulgador da Nossa Banda, este livro descreve, pela fotografia e pelo texto, 346 espécies botânicas que ocorrem naturalmente no concelho de Almada, ordenando a sua apresentação de acordo com o percurso evolutivo das respectivas famílias:


Contacto do autor: prof.manuel.lima@gmail.com

Fonte: Lima (2017)

domingo, 28 de janeiro de 2018

[0113] Um balanço sobre o nosso sistema educativo, por António Nóvoa

Entrevistado recentemente, António Nóvoa avaliou assim a situação do nosso sistema educativo, estando assinaladas algumas intervenções dos entrevistadores:


A Educação é central, como a Ciência e Cultura. Julgo que nestas áreas o que tem sido feito tem sido feito de uma forma correcta — tanto na Educação, como na Ciência e no Ensino Superior. Mas tem sido pouco. Isto é: tem havido mais um gerir e resolver situações que vinham do passado ...

Em 2015 disse que devíamos viver uma revolução nas escolas: mudança nos currículos, na organização e modelo da escola. Estamos a atrasar-nos?

Estamos longe. Infelizmente não estamos neste momento numa dinâmica do que é o futuro da escola e da educação. E o mesmo se diga para as universidades, que estão muito ...

Estagnadas?

Muito contidas, a palavra estagnada seria injusta. Há muita coisa que se tem feito bem. Eu, pelo meu mandato de reitor, tenho um fantasma, que é a burocracia. E o complicador imenso em que se transformou a vida das escolas, dos professores, a gestão das universidades, a vida da ciência. Fazer um projecto científico é uma coisa do outro mundo. E temos de nos libertar disso. O tema da autonomia, que é para mim central ...

Tem-se falado muito na autonomia ...

... mas é conversa. As escolas deviam ser ambientes vibrantes, estimulantes.

O que é que custa mais a ultrapassar? Burocracias, as medidas do Governo, os professores, a sociedade ...

Há um conjunto dessas coisas todas. Mas há uma rigidificação burocrática que se criou nas nossas instituições, que é um factor que dificulta muito essa espécie de liberdade. As pessoas, às vezes, para fazerem coisas, quase têm de sair das instituições.

Como é que se ultrapassa isso?
No caso das universidades é consagrando um verdadeiro estatuto de autonomia, com responsabilidades claras. Precisamos de ter uma muito maior autonomia das instituições, dos professores, das universidades, da ciência. Hoje, a ciência é a chave da sociedade do século XXI. A chave de tudo o que nos vai acontecer está na ciência e na tecnologia. Mas não é só a que se faz nos grandes laboratórios, não, é a que se faz dentro das escolas, na sociedade. Se não formos capazes de fazer isso, vamos andar enredados ...

Fonte (citação): Nóvoa (entrevistado por Dinis e Lourenço, 2018; p. 11)
Fotografia (pormenor): Nuno Ferreira Santos

sábado, 20 de janeiro de 2018

[0112] Memórias de almadenses sobre a sua educação

A 1ª República (1910-26) determinou em 1919 a obrigatoriedade de 5 anos de escolaridade para todas as crianças.
O Estado Novo (1926-74) só em 1956 exigiu o 4º ano do primeiro ciclo aos rapazes e em 1969 às raparigas; mas em 1972 ainda aceitava que a escolaridade obrigatória estivesse cumprida desde que as crianças entre os 7 e os 13 anos tivessem sido aprovadas no exame da 3ª classe, ou pelo menos tivessem frequentado a escola.

Em 2014 e 2015, no âmbito de um estudo mais geral, foram realizadas 30 entrevistas individuais sobre as histórias de vida a 15 mulheres e a 15 homens, maiores de 65 anos, residentes no concelho de Almada. A duração média dessas entrevistas foi de de 2h30, cada uma distribuída por dois dias consecutivos. Muitos destes almadenses não terão nascido nem frequentado a escola no concelho de Almada, só aqui tendo chegado em idade adulta.


Partes dessas entrevistas dizem respeito aos percursos escolares dos entrevistados.

Uns gostavam da escola, pelo que aí aprendiam:

Tinha um certo gosto em andar na escola, porque eu gostava muito de escrever, e ainda gosto de escrever, gostava de fazer letras, tudo. Aprendi muita coisa.
Entrevistado 17; 67 anos; 1º Ciclo do Básico

Outros gostavam da escola, pelas outras oportunidades de que aí dispunham:

Eu não era muita boa na escola (…). Eu gostava de ir à escola para a paródia, mas não era para as letras, porque eu para as letras não tinha grande jeito. As minhas irmãs tinham mais. Não tinha grande jeito, não. Queria era paródia.
Entrevistada 15; 81 anos; 1º Ciclo do Básico

Gostava, pela mesma maneira das camaradagens que a gente tinha, e tudo o mais, amigos.” (p. 39)
Entrevistado 17; 67 anos; 1º Ciclo do Básico

Uns não gostavam da escola, não tendo obtido qualquer grau de escolaridade:

Não, não gostava de ir à escola. Palavra de honra que não. (…) eu queria era galderice, fugia sempre, não aprendia nada, nada.
Entrevistada 14; 75 anos; sem escolaridade

Chegava ao fim e já não queria saber da escola. Já não sei o ABC (…) fugia da escola, fugia.
Entrevistado 16; 75 anos; sem escolaridade

Outros estudaram, mas não quiseram continuar a estudar, ou resignaram-se à vida, ou às posses, do seu tempo:

Eu fiz a quarta classe quando era para fazer a quarta classe (…). Lá não havia [sítio] para se estudar, não havia (…), tinha que se vir cá para fazer a admissão ao liceu, e os meus pais perguntaram se eu queria estudar, e eu não queria, não quis estudar. Criança, coisas de criança.
Entrevistada 25; 79 anos; 1º Ciclo do Básico

E também a mentalidade daquele tempo, não. As meninas … Já lhe disse que só uma família lá, eram dois, mas eram primos, é que os filhos estudaram. E outras pessoas que tinham quintas e tudo mas não passava pela cabeça deles irem estudar, tinham que continuar a tomar conta das coisas que tinham, os pais ensinavam aos filhos e eles começavam logo a trabalhar.
Entrevistada 9; 76 anos; 1º Ciclo do Básico

Uns quiseram estudar, ou continuar a estudar, mas não o puderam concretizar:

Eu queria ir para a escola, queria, mas o meu pai não me deixava, tinha isto para fazer, tinha o me irmão para cuidar, tinha isto para fazer, tinha tudo para fazer (…). Eu poucos dias fui à escola. e os dias que eu lá fui adorava.
Entrevistada 2; 74 anos; sem escolaridade

A vida não me dava essa possibilidade, não me dava esse valor de eu poder estudar. Quem é que não gosta de estudar e de tirar um curso? eu sonhava um dia ser … Gosto de mexer em ferros, gostava em garoto, agarrei-me aos carros e isso tudo, e «um dia hei-de ser um engenheiro de máquinas, um arquitecto», somos nós a pensar, não é? Mas ada disso foi possível.
Entrevistado 12; 74 anos; 3º Ciclo do Básico

Eu gostava de ter podido [estudar], ter possibilidades para enfermagem.
Entrevistada 20; 76 anos; 1º Ciclo do Básico

Eu estudei, fiz a quarta classe, na altura até era difícil lá as pessoas fazerem a quarta classe, nem era obrigatório, era só a terceira. Eu tive que esperar um ano para conseguir entrar numa turma com mais duas raparigas e o resto era tudo rapazes. Pronto, naquele tempo era assim. E a minha mãe não me pôde pôr a estudar porque a vida não dava, não dava para isso.
Entrevistada 10; 72 anos; 3º Ciclo do Básico

Também não havia dinheiro. Porque a gente, depois da quarta classe, a gente já sabe que havia a admissão ao liceu, o que é é que não havia já. Também para a quarta classe o dinheiro já era escasso, quanto mais para liceus.
Entrevistado 17; 67 anos; 1º Ciclo do Básico

Outros, só mais tarde perceberam o que perderam por não terem estudado mais:

Tenho, tenho [pena de não ter estudado]. Pois, a estudar já a gente sabia, e assim olhe, estamos sempre com os olhos assim fechados, onde quer que a gente vá está sempre com os olhos, nunca sabe nada, pois, nunca sabe nada. Elas lêem e fazem coisas, saem e sabem para onde vão, e a gente não. A gente não sabe ler, não sabe nada.
Entrevistada 18; 82 anos; sem escolaridade

Mas uns tantos regressaram à escola e obtiveram algo do que queriam:

Na altura não tinha posses, andava a trabalhar, por aqui, por ali, onde calhava, e nunca pensei bem nisso. E depois lá na fábrica houve a possibilidade e então eu e mais outras tirámos a quarta classe, na altura em que havia pouco trabalho, estivemos na reciclagem, e então aproveitámos, aproveitaram para dar a quarta classe, várias coisas.
Entrevistada 20; 76 anos; 1º Ciclo do Básico

Eu queria tirar a carta de motorista, mas eu só tinha a terceira classe, e naquele tempo Salazar já exigia a quarta, e então eu fui à escola, com os meus dezasseis, dezassete anos, e tirei a quarta classe.
Entrevistado 19; 86 anos; 1º Ciclo do Básico

Andei no liceu (…) até ao segundo ano (…). Depois interrompi, e depois fui até ao quinto, o antigo quinto ano [hoje 9º ano]. (…). Era uma ou duas disciplinas, e ia andando assim, durante uns anos (…). Fui fazendo por disciplinas, até que atingi isso, não é? Foi assim durante uns anos, eu ia fazendo, ia fazendo o que podia, e cheguei lá.
Entrevistado 12; 74 anos; 3º Ciclo do Básico

Fonte: Lopes, Zózimo, Ramalho, Pegado & Pereira (2016; pp. 17-18, 36, 37, 38, 39, 44, 45, 47, 48, 76, 77 e 77-78)

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

[0111] €cos da Europa na Nossa Banda

difusão das moedas de €uro cunhadas em diferentes países tem vindo a ocorrer desde 2002. Tendencialmente, a mistura das moedas com faces nacionais diferentes tenderá para uma percentagem equivalente à da massa monetária com origem em cada país. Portugal terá nessa mistura uma participação um pouco inferior a 2%, correspondendo os restantes 98% às moedas com origem nos outros países.

A que velocidade se irá processar essa mistura?
Admitindo que (1º) a quantidade de moedas de cada país se manteve e manterá constante (de facto não é nem será assim, sendo uma das razões o aumento dos países que usam este sistema monetário, que inicialmente eram 12 e hoje são 25) e que (2º) a taxa de crescimento anual das moedas com origem estrangeira (adiante designada por «Δ» para o caso português) é constante em cada país, então, em Portugal, ao fim de «n» anos a proporção de moedas vindas de outros países será igual a:
Φ(n) = 0,98 {1 – [1 – (100 Δ) / 98]n}
Um bloguer da Nossa Banda teve a curiosidade e a paciência de verificar a velocidade com que as moedas de €uro se difundiam por aqui, registando os trocos recebidos no seu do dia-a-dia (no café, no supermercado, nos transportes, …).

E o que concluiu para todas as moedas e para as moedas de 1 e 2 €uros nos concelhos de Almada e Seixal figura no seguinte gráfico, no qual também constam as correspondentes evoluções teóricas de «Φ(n)», para os respectivos «Δs» verificados no final de 2002:


De acordo com estes dados, a barreira dos 50% ocorreu por volta de 2007 no caso das «moedas de 1 e 2 €uros» e por volta de 2011 no caso de «todas as moedas».

Que países estiveram representados entre as 1031 moedas registadas em 2017?


Fonte: blogue Cosmovivências (com informações suplementares do bloguer)

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

[0110] Uma visita à exposição «Loulé. Territórios, Memórias, Identidades»

A exposição é assim genericamente apresentada no sítio do Museu Nacional de Arqueologia (em Lisboa), onde está patente ao público:

Loulé, no sul de Portugal, é o mais extenso concelho do Algarve, que cruza de norte a sul e da serra ao mar. Dotado de bons recursos naturais, foi habitado pelo Homem ao longo dos tempos.
A história da Arqueologia de Loulé remonta ao trabalho pioneiro de Estácio da Veiga (1828-1891), que reuniu uma coleção para constituir o Museu Arqueológico do Algarve, mas que foi incorporada no então Museu Etnográfico Português em 1894. Assim, o património de Loulé ficou para sempre ligado ao Museu Nacional de Arqueologia.
Entre o século XX e o presente, a Arqueologia foi uma prática amadurecida no território louletano e no seu museu, pela ação de vários arqueólogos envolvidos nesta exposição.
São estas as razões que unem o Museu Nacional de Arqueologia e o Museu Municipal de Loulé na organização desta mostra, inscrita numa linha de colaboração prosseguida pelo Museu Nacional com as autarquias há duas décadas.
Esta exposição assume-se como o estado da Arte da investigação arqueológica do concelho de Loulé e conta a história das comunidades que o constituíram entre a Pré-História e a Idade Média, assente nos vestígios arqueológicos e nas fontes documentais conservados nas instituições que laboriosamente constroem as memórias e as identidades de Loulé.

As comunidades que terão sucessivamente vivido neste território podem assim ser imaginadas a partir das evidências arqueológicas aí encontradas, sendo a compreensão de cada uma delas indissociável da compreensão da vida nos territórios mais castos a que estava ligada:
·      entre os 6 e os 2 mil anos antes da nossa era (tempo de sociedades camponesas), a rede de exploradores do cobre que unia o Sul de Espanha e de Portugal;
·     na Idade do Bronze (IIº Milénio a. C.) e na Idade do Ferro (Iº Milénio a. C.), a persistência dos anteriores laços, que levaram à emergência da mais antiga escrita da Península Ibérica, a escrita do Sudoeste (pelo menos a partir do séc. VI a. C.) e que indiciava a existência de influências mais longínquas (parentesco com o alfabeto fenício);
·      entre os finais do séc. II a. C. e o séc. V d. C. (tempo de integração no mundo romano), a ligação ao mundo mediterrânico;
·      entre o século V e o século VIII d. C. (com a afirmação do cristianismo e a unificação visigótica), a manutenção das ligações com o Oriente e o Norte de África;
·      entre 712 / 713 e 1248 / 1250 d. C. (tempos islâmicos), a convivência entre os mundos muçulmano, cristão e judeu;
·      e desde o séc. XIII (tempos cristãos ), a mistura da anterior convivência com nova vaga de influência vindas do Norte.

O concelho de Loulé surge, deste modo, como se fosse uma das quadrículas arqueológicas que, conforme a profundidade a que é escavada, revela ligações mais fortes ou com os mundos próximos a Leste / a Sul, ou com os mundos mais afastados do Mediterrâneo / a Norte:


Seria interessante perceber como estas sucessivas comunidades foram reproduzindo, ou transformando, até hoje, a sua língua, os seus ditos e contos, a sua poesia, as suas actividades práticas como a pesca, o artesanato e a gastronomia, mas também as plantas e os animais que as acompanharam …

Fontes: sítio do Museu Nacional de Arqueologia e folheto da exposição (Museu Nacional de Arqueologia & Museu Municipal de Loulé, 2017), que é possível aceder através da Dropbox (página «Documentos / Portugal» deste blogue)

sábado, 6 de janeiro de 2018

[0109] Exposição na Nossa Banda: «Com Conta, Peso e Medida – A Coleção do Aferidor Municipal»

Será inaugurada no dia 21 de Janeiro, pelas 15h00, no Moinho de Maré de Corroios, aí sendo visitável até 30 de Setembro de 2018, tendo sido produzida pela Ecomuseu Municipal do Seixal em parceria com o Museu de Metrologia do Instituto Português da Qualidade.


Estarão patentes nesta exposição os instrumentos metrológicos da oficina do aferidor municipal, acervo integrado no Ecomuseu Municipal do Seixal, visando contribuir para a sua salvaguarda e divulgação e para a valorização da memória colectiva.

Fonte (informação e imagem): sítio da Câmara Municipal do Seixal

domingo, 31 de dezembro de 2017

[0108] Por um 2018 vindo de todos nós!

Desejo para 2018:


Para ganhar um Ano Novo / que mereça este nome, / você, meu caro, tem de merecê-lo, tem de fazê-lo novo. / Mas tente, experimente, consciente. / É dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempre.

Carlos Drummond de Andrade (poeta brasileiro, 1902-1987)






Ao longo deste ano que vai começar este blogue reorganizará a página «Debates» e substituirá a página «Projectos» por outra que espera ser mais adequada: «Recursos».

Fonte: Andrade, citado por Fiolhais (2017), num jornal

sábado, 16 de dezembro de 2017

[0107] Luís Raposo: «Luzes e sombras em vésperas do Ano Europeu do Património Cultural»

O texto completo:

O Ano Europeu do Património Cultural foi oficialmente lançado em Milão, durante o Fórum Europeu da Cultura. Discursos de circunstância, inflamados na sua irreverência de salão, testemunhos de jovens bem-sucedidos e muito fluentes nas técnicas de cativar audiências ... E pronto. Nem mais seria de esperar daquele ali. Quando a apresentadora de serviço fez a ingénua pergunta sobre qual a origem profissional da audiência, descobriu-se como nela eram raros os artistas, os autores e bem assim todos os que se consomem, dia-a-dia e por dentro, no acto resistente e criativo de fazerem viver museus, teatros e demais casas de cultura (estariam certamente muito mais ocupados nessa labuta e também se calhar ninguém lhes pagaria para a viagem), e como abundavam os membros das tutelas públicas e os empresários das indústrias criativas. Houve excepções neste quadro, claro. Uma delas a intervenção vigorosa da secretária-geral da Europa Nostra, reclamando que se levantassem os militantes do Ano que está para começar: as três dezenas e meia de representantes de Organizações Não Governamentais do Património e dos Museus, que ali estávamos, cumprindo o nosso dever, mas com o pensamento e o instinto da acção postos noutra galáxia, aquela em que dias antes navegáramos quando a percorremos entre nós e quando fomos informados do primeiro Eurobarómetro sobre temas de Património Cultural, que vale mais do que mil discursos.
Sabíamos já do impacte económico deste sector: mais de 300 mil postos de trabalho directos e quase oito milhões indirectos (criação de até 26,7 empregos indirectos por cada um directo, quando no sector automóvel, por exemplo, essa taxa é de 6,3). Mas faltava-nos o principal, a sua dimensão cidadã, e é disto que trata este Eurobarómetro. Demonstra ele, expressivamente, o apego relativamente aos valores do Património Cultural, de que mais de quatro quintos dos respondentes dizem ter orgulho quanto aos do seu próprio país e mais de dois terços quanto aos de outros países. Dá depois também conta do envolvimento pessoal e cívico nestes domínios: mais de metade dos inquiridos visitaram monumentos, sítios ou museus no último ano — índices muitíssimo superiores aos da frequência da maior parte dos espectáculos de artes performativas. Comprova o poder do Património na promoção do conhecimento e da tolerância mútuas: ele constitui critério de escolha das férias para a maior parte, com especial relevo dos segmentos mais jovens, 72 % da faixa compreendida entre 15 e 24 anos (contra 63 % das idades acima de 65 anos), sendo que a Internet é já usada por mais de metade na preparação desses circuitos. Assinala-nos os bloqueios que ainda existem, dos quais sobressaem os da falta de tempo e do custo das entradas nos espaços patrimoniais. Aponta-nos enfim o caminho que os cidadãos gostariam ver seguido: ensino dos temas patrimoniais nas escolas (88 % dos inquiridos) e maior investimento público em geral, 74 %, contra apenas 14% que prefeririam maior investimento privado, o que também diz muito da percepção que se tem da natureza destes bens.


E Portugal, como surge neste retrato? Bom, sem prejuízo de análise mais aprofundada, tendo em conta nomeadamente as variáveis geracionais e de género, níveis de literacia, inserção profissional, capacidade económica, local de residência, etc., que os dados brutos disponíveis permitem alcançar, poderíamos dizer que detectamos também aqui aquela irritante esquizofrenia que nos esquarteja entre o primeiro mundo, quanto ao discurso proclamatório, e o terceiro mundo, quanto à prática efectiva. Com efeito, e atendendo apenas aos indicadores em que saímos da média, situando-nos nos dois quartis opostos, verificamos que nos destacamos pela positiva quanto a considerar que o Património Cultural representa elemento essencial da identidade nacional e constitui barreira à globalização (à frente de nós apenas os gregos, no primeiro caso, e os malteses, no segundo), que cria emprego e confere qualidade de vida, que deveria ser ensinado nas escolas e mais financiado pelo Estado. Mas depois, em muito maior número de indicadores, ocupamos o fundo das tabelas: somos os últimos, ou dos últimos, em todos os parâmetros relacionados com o envolvimento activo no Património (participação em actividades e movimentos sociais, voluntariado e contribuição em dinheiro ou espécie...), somos os últimos na visita a locais patrimoniais e museus (com alguns progressos relativamente ao Eurobarómetro de 2013 sobre práticas culturais, mas ainda assim novamente os últimos) ... mas, pasme-se, somos os primeiros a indicar que não frequentamos esses locais por falta de tempo (pretexto cuja sinceridade se mede por sermos também dos que mais assumem claramente a falta de interesse em tais programas).
Ou seja, estamos na vanguarda no plano do discurso e da reivindicação para que outros façam; e estamos na retaguarda quando se trata de efectivamente fazer. Quem tem culpa de tal estado de coisas? A quem atribuir a vergonha de sermos o povo que menos visita museus ou o que menos considera os bens patrimoniais no planeamento de férias? Às políticas governativas ou autárquicas das últimas décadas, as quais, passado o impulso dado pelo “dia inicial inteiro e limpo” do qual nasceram cerca de 200 Associações de Defesa do Património, se rendem cada vez mais ao mercantilismo (“quem quer cultura, paga”)? Sim, elas pouco ou nada têm ajudado a corrigir este terceiro mundismo quase endémico. Mas não nos iludamos: a culpa mora principalmente em nós, seja este nós “o povo”, sejam os que dele nos consideramos intelectuais e nos encapsulamos prazerosamente nos poucos bares onde todos nos conhecemos, todos (mal)dizemos e pouco fazemos. Poderá a coisa mudar um dia? Diríamos que sim, com o optimismo que a militância associativa e cívica nos manda ter. E talvez a gazua esteja na introdução do ensino para o Património Cultural nas escolas, ambição de 93 % dos respondentes portugueses, que neste particular dão cartas.
No imediato, temos então este Ano Europeu, que ficará certamente marcado por centenas ou milhares de iniciativas, que as administrações públicas do Património Cultural se encarregarão de promover ou apenas de parasitar, oferecendo diligentemente plataformas de divulgação. Serão na maior parte ocorrências avulsas e fugazes, que pouco terão de europeu. No plano nacional, a sua validação será feita por coordenadores nomeados pelos governos. No plano da UE e para acções no quadro de programas existentes, as direcções-gerais respectivas sancionarão o que entendam. Mas no plano da cidadania europeia, serão as ONGs reunidas no conselho das “Vozes da Cultura” que asseguram a certificação das actividades propostas — e esperam que as mesmas explorem audaciosamente as quatro linhas estratégicas que verdadeiramente poderão projectar o Ano para além dele mesmo: envolvimento cidadão, sustentabilidade ambiental e social, protecção contra as forças do camartelo e do tráfico, inovação entendida como ciência cidadã. Neste quadro, faremos com que os sinos dobrem em toda a UE, em prol do Património; acenderemos tochas que percorrerão regiões e países, entoaremos em uníssono o Hino à Alegria, promoveremos debates e acções de lóbi ... Enfim, não ficaremos parados. Possa também em Portugal ser este o momento do nosso estremecimento colectivo e que dele fique não apenas a fugacidade dos “eventos”, mas alguma potencial semente de futuro.

Fonte jornalística: Raposo (2017)

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

[0106] Vinte e sete das escolas dos concelhos de Almada e Seixal: organigrama das suas origens

A expansão económica que se seguiu à IIª Guerra Mundial originou grandes migrações e um enorme aumento da procura educativa. As escolas que já tinham sido criadas, a maioria destinadas apenas à instrução primária, tornaram-se então insuficientes para as aspirações das populações e para as necessidades dos empregadores.

Na outra banda dos concelhos de Almada e Seixal, em Lisboa, a escolaridade mais prolongada já era proporcionada pelos Liceus (tradicionalmente vocacionados para os filhos das elites) e pelas Escolas Técnicas e Industriais (destinados à preparação de futuros trabalhadores). Na Nossa Banda esta abertura só começou na década de 1950.
Começou, institucionalmente, pela escola que hoje é a Emídio Navarro. No entanto, as restritíssimas condições da altura rapidamente tornaram esta primeira escola pós-primária insuficiente. Pelo que, durante três décadas, se assistiu a um curioso fenómeno de multiplicação das escolas:
·      por vezes, como aconteceu com a Emídio em relação à António da Costa, uma escola dividiu-se em duas (setas verdes no organigrama inserido a seguir), o que foi sempre acompanhado pela partilha, durante algum tempo, das instalações (setas vermelhas)
·      doutras vezes houve uma separação física imediata, mantendo-se, durante algum tempo, a dependência institucional (setas azuis), sendo as novas escolas «secções» das escolas-mãe, como aconteceu com a Fernão Mendes Pinto (no Pragal) e com a José Afonso (nas Cavaquinhas).

A origem das vinte e sete escolas referidas abaixo (e que é referida no recente livro de Carlos Abreu sobre a Emídio Navarro) levou 45 anos a completar-se!


Fonte bibliográfica para a construção do organigrama: Abreu (2017)

sábado, 2 de dezembro de 2017

[0105] 10 de Dezembro: Dia dos Direitos do Homem

Em 10 de Dezembro de 1948 a Assembleia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas) proclamou a Declaração Universal dos Direitos do Homem (a versão em inglês e francês, conforme o original publicado pela ONU, está acessível através da página «Documentos»).
Tem sido particularmente citado o primeiro artigo destes direitos, fundamento de todos os outros:


Dois anos depois da aprovação desta declaração, a ONU propôs que os dias «10 de Dezembro» fossem uma referência para celebrar os Direitos do Homem e para lembrar os esforços ainda necessários para os implementar. Eis a versão em francês dessa proposta, retirada do jornal com as resoluções desta organização:


Fontes: sítios da Calendarr e da ONU

terça-feira, 28 de novembro de 2017

[0104] Os 30 anos da Escola Secundária Daniel Sampaio lembram a expansão da rede de escolas nos concelhos de Almada e Seixal ao longo da década de 1980

O enorme aumento da procura de educação formal que se vinha verificando desde os anos 60 esteve na origem do maior aumento do número de escolas nos concelhos de Almada e Seixal cerca de vinte anos depois, tendo sido inauguradas escolas um pouco por todo este território (em Cacilhas, Cavadas, Cova da Piedade, Feijó, Fogueteiro, Laranjeiro, Sobreda, Vale de Milhaços, …). E os educadores locais deram uma ajuda quando, em 2 de Novembro de 1986, o reivindicaram num «Encontro Debate sobre a Situação do Ensino em Almada-Seixal» realizado na Escola Secundária Emídio Navarro (mensagem «0019»).

A criação legal da Escola Secundária da Sobreda em 1987, que seria inaugurada no ano seguinte, é um exemplo dessa expansão da oferta educativa. A Escola Secundária Daniel Sampaio, como hoje é designada, está portanto a comemorar os seus 30 anos de existência ao longo deste ano lectivo.


Fontes: para o texto, Abreu (2005); para a imagem, sítio da E. S. Daniel Sampaio

sábado, 25 de novembro de 2017

[0103] Dia Mundial da Ciência / Dia Mundial da Ciência ao Serviço da Paz e do Desenvolvimento

Para uns, este «dia» é comemorado em 24 de Novembro; para outros, é-o em 10 de Novembro.

(fundo do cartaz para 2017, criado por Razan Jilani)

Promovendo a segunda data, a UNESCO, através do sítio das Organizações Unidas, defende que ela é uma oportunidade para “lembrar a importância da ciência na vida quotidiana” e para “envolver o grande público nos debates” que lhe dizem respeito.

Tema escolhido pela UNESCO para a celebração deste ano:
«A ciência para um entendimento global»

Fontes: sítios da Calendarr (que refere a primeira designação e o dia 24) e da Organização das Nações Unidas (que refere a segunda designação e o dia 10, e proporciona o texto e a imagem)

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

[0102] O Dia Mundial da Filosofia, celebrado em Novembro

A UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) instituiu este dia em 2005, celebrando-o na terceira Quinta-feira de Novembro (que este ano ocorreu no passado dia 16).

O termo «filosofia» vem do grego e traduz-se literalmente por «amor da sabedoria». Se precisássemos de descrever a filosofia, podíamos dizer que ela é constituída por um conjunto de reflexões críticas e argumentadas que dizem respeito ao mundo e ao lugar que nós ocupamos nele. A filosofia fornece a base conceptual dos princípios e dos valores de que depende a paz mundial: a democracia, os direitos do homem, a justiça e a igualdade. Por outro lado, a filosofia contribui para consolidar os verdadeiros fundamentos da coexistência pacífica e da tolerância.

Muitos pensadores afirmam que o «espanto» se encontra no centro da filosofia. De facto, a filosofia nasce dessa tendência natural dos humanos para se espantar acerca de si próprios e do mundo em que vivem.
Esta disciplina que se pretende «sabedoria» ensina-nos a reflectir sobre a reflexão, a colocar em questão as verdades bem estabelecidas, a verificar as hipóteses e a encontrar as conclusões.
Desde há séculos e em todas as culturas, a filosofia produziu conceitos, ideias e análises, estabelecendo assim os fundamentos do pensamento crítico, independente e criativo.
Este Dia também nos oferece a ocasião para nos interrogarmos sobre questões frequentemente esquecidas:
  • Acerca de quê nos temos esquecido de reflectir?
  • A que realidades intoleráveis nos temos habituado?”

Traduzido do sítio da Organização das Nações Unidas

sábado, 18 de novembro de 2017

[0101] Premiada a reprodução do Carvalho de Monchique em viveiro do Grupo Flamingo

O Grupo Flamingo (mensagem «0094») criou um Centro de Investigação e Reprodução de Plantas Autóctones (CIRPA) que integra dois viveiros de plantas autóctones - um na Mata Nacional dos Medos (na Fonte da Telha) e o outro no Parque da Quinta da Marialva (em Corroios) - tendo em vista a produção para reflorestações de áreas sensíveis com interesse de conservação e em locais onde existiu uma forte pressão humana na paisagem original. Este projecto pretende também fomentar a investigação na área da produção florestal e conservação da natureza e ainda servir para sensibilizar e familiarizar o público em geral em relação a estas temáticas.


O CIRPA está empenhado desde 2013 na conservação e recuperação do Carvalho de Monchique (Quercus Canariensis Wild), com o objectivo de produção em viveiro e posterior reforço das populações desta árvore, extremamente ameaçada em Portugal, bem como produzir e conservar as plantas que se encontram associadas a florestas desta espécie. Em Outubro de 2014 cerca de mil destes carvalhos germinados nos seus viveiros foram plantados em áreas dizimadas pelos incêndios no concelho de Monchique.
Este ano, o trabalho feito com a Quercus Canariensis Wild ganhou uma menção honrosa da 18ª edição do Prémio Nacional de Ambiente, atribuído anualmente pela Confederação Portuguesa das Associações de Defesa de Ambiente e que se destina a galardoar a pessoa, instituição ou empresa que em cada ano se distinga na sua acção como «amiga do ambiente».

Este projecto tem-se também focado na Educação Ambiental, envolvendo, nomeadamente, escolas situadas nas proximidades dos viveiros.

Fonte: sítio do Grupo Flamingo

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

[0100] 20 de Novembro: Dia Internacional dos Direitos das Crianças

As crianças são especialmente lembradas em dias do ano escolhidos pelas tradições locais.
A Organização das Nações Unidas, como forma de lembrar a aprovação da Declaração Universal dos Direitos da Criança (em 20 de Novembro de 1959) e da Convenção dos Direitos da Criança (em 20 de Novembro de 1989), adoptou este coincidente dia do ano para comemorar o Dia Internacional dos Direitos das Crianças.


A  Declaração Universal dos Direitos das Crianças foi adaptada da Declaração Universal dos Direitos Humanos, tendo a seguinte redacção:
·       Todas as crianças têm o direito à vida e à liberdade
·       Todas as crianças devem ser protegidas da violência doméstica, do tráfico humano e do trabalho infantil
·       Todas as crianças são iguais e têm os mesmos direitos, não importando a sua cor, raça, sexo, religião, origem social ou nacionalidade
·       Todas as crianças devem ser protegidas pela família e pela sociedade
·       Todas as crianças têm direito a um nome e a uma nacionalidade
·       Todas as crianças têm direito a alimentação, habitação, recreação e atendimento médico
·       As crianças portadoras de deficiências, físicas ou mentais, têm o direito à educação e aos cuidados especiais
·       Todas as crianças têm direito ao amor, à segurança e à compreensão dos pais e da sociedade
·       Todas as crianças têm direito à educação
·       Todas as crianças tem direito de não serem violadas verbalmente ou serem agredidas por pais, avós, parentes, ou mesmo a sociedade

A Convenção dos Direitos da Criança assenta em quatro pilares fundamentais que estão relacionados com todos os outros direitos das crianças:
• a não discriminação, que significa que todas as crianças têm o direito de desenvolver todo o seu potencial – todas as crianças, em todas as circunstâncias, em qualquer momento, em qualquer parte do mundo
• o interesse superior da criança deve ser uma consideração prioritária em todas as acções e decisões que lhe digam respeito
• a sobrevivência e desenvolvimento sublinha a importância vital da garantia de acesso a serviços básicos e à igualdade de oportunidades para que as crianças possam desenvolver-se plenamente
• a opinião da criança que significa que a voz das crianças deve ser ouvida e tida em conta em todos os assuntos que se relacionem com os seus direitos

Fonte: sítios da Calendarr e da UNICEF (também para a imagem)