segunda-feira, 16 de março de 2020

[0229] Uma reflexão de José Gil sobre «O medo»


Porque é particularmente pertinente para os tempos que todos estamos a viver:

O que vem aí, ninguém sabe. Adivinha-se, teme-se que seja devastador. Em número de mortes, em sofrimento, em destruição. Mas, como não temos uma ideia clara do que poderá ser uma tal catástrofe, a ignorância e a confusão amplificam o nosso medo. Será um desastre planetário e regional, colectivo e individual, já presente e ainda futuro, conhecido e familiar, mas sempre longínquo e estrangeiro, destinado aos outros mas cada vez mais perto. Não é o simples medo da morte, é a angústia da morte absurda, imprevista, brutal e sem razão, violenta e injusta. Rebenta com o sentido e quebra o nexo do mundo.
As forças que provocam a pandemia pertencem a uma ordem de causas estranha à ordem humana. E, no entanto, põem-na radicalmente em questão. Constatamos agora que a sociedade, as instituições e as leis que criámos para nos protegerem, e nos assegurarem uma vida justa, falharam redondamente. Não construímos uma vida viável para a espécie humana. Os extraordinários disfuncionamentos dos serviços de saúde de tantos países, a falta de coordenação e solidariedade dos estados-membros da União Europeia quando se tratou de ajudar a Itália, a criminosa e leviana arrogância de Trump no caso dos testes, a incapacidade de todos os governos de executar uma política sanitária eficaz sem utilizar meios mais ou menos autoritários, todo esse desnorte que deixou proliferar o vírus mostra de sobremaneira que qualquer coisa de profundamente errado infectou, desde o início, a história dos homens. Emmanuel Macron acaba de descobrir que “a saúde não é uma mercadoria” que tenha um preço. O coronavírus, pondo em perigo qualquer um, independentemente da sua riqueza ou estatuto, torna todos iguais – não perante a morte, mas perante o direito à vida, à saúde e à justiça.
Não se trata, como já ouvimos dizer, de pôr em causa a nossa civilização, mas as suas formações de poder e, com elas, o desenvolvimento de laços sociais cada vez menos aceitáveis. Esta terrível experiência que estamos a viver constitui apenas uma antecipação, e um aviso, do que nos espera com as alterações climáticas.
O que fazer? Dos órgãos políticos responsáveis vêm-nos ordens e injunções contraditórias. Por um lado, dizem-nos que a luta contra a epidemia só terá êxito se juntarmos todos os nossos esforços individuais, se agirmos solidariamente na consciência da pertença comum à comunidade. Por outro lado, somos incitados a isolarmo-nos, a ficar em casa, a manter o distanciamento social requerido, a não beijar, abraçar, tocar. Cancelam-se os eventos e espaços de lazer, fecham-se as fronteiras. Reduzir-se-á então o nosso contributo a obedecer passivamente ao auto-isolamento anti-social?
Está a surgir, espontaneamente, uma solução “tradicional” de compromisso: a comunidade reencontrar-se-ia na acção de governação de um líder firme. Giuseppe Conte, primeiro-ministro italiano, até aqui sem grande popularidade, tem hoje o apoio da grande maioria do povo. Tomou medidas drásticas, mostrou certezas, acalmou a ansiedade e o pânico da população. Sem dúvida que idêntica adesão popular recebeu António Costa, pelas mesmas razões e com a mesma empatia. A energia do medo é absorvida pelo líder e transformada em adesão. Qualquer que seja a sua eficácia, esta não pode ser a única e exclusiva “solução”. Que podemos e devemos fazer, nós que nos fechamos em casa, e que não queremos que o auto-isolamento se torne apenas uma defesa egoísta da família, numa atitude que reforça, afinal, o corte com a comunidade?
É preciso, primeiro, combater o medo da morte. Para tanto, dois requisitos essenciais, a recusa da passividade e o conhecimento do “inimigo”. Quanto mais activos, mais aptos, mais fortes para afastar o medo. Se bem que o medo acorde a lucidez, e neste sentido possa ser benéfico, sabemos que ele encolhe o espaço, suspende o tempo, paralisa o corpo, limitando o universo a uma bolha minúscula que nos aprisiona e nos confunde. Comunicar com os outros e com a comunidade é furar a bolha, alargar os limites do espaço e do tempo, tomar consciência de que o nosso mundo se estende muito para além dos quartos a que estamos confinados. Foi certamente o que sentiram e fizeram os napolitanos que se puseram a cantar à noite, de varanda para varanda, exorcizando o medo e criando um novo espaço público comum.
Trata-se de combater este medo da morte. Que não é o medo, digamos, habitual, de morrer, mas uma espécie de terror miudinho, subterrâneo e permanente, que toma conta da vida. Não na apreensão do mal final, mas como se a morte, enquanto avesso da vida, enquanto letargia absoluta, rigidez definitiva, paralisia e abismo, viesse ocupar o terreno do nosso tempo quotidiano. É contra a tendência a sermos capturados por um tal sentimento de medo que é preciso lutar – precisamente, mantendo-nos activos e preocupados com os outros e a vida social de que fazemos parte.
Este medo é, sobretudo, o medo dos outros. O contágio vem inopinadamente, violentamente e ao acaso. Qualquer um, estrangeiro ou familiar, pode infectar-nos. O acaso e o contacto passam a ser perigo e ocasião de morte possível, e todo o encontro, um mau encontro. Neste sentido, o outro é o mal radical. A relação com os outros e a comunidade sobre um abalo profundo. O laço social, que, mais do que na inveja e no amor-de-si, se enraíza no “amor” ao outro (como afecto gregário da espécie), encontra-se comprometido, ameaçando romper-se. O outro é o inimigo, que quer a minha morte: do medo do ataque mortal ao pânico paranóico vai apenas um passo. A epidemia do novo coronavírus faz também emergir, à tona da consciência social, o pior das nossas pulsões mais sedimentadas. Mas também o melhor: aquele afecto, presente desde sempre em certas profissões, como a dos médicos e enfermeiros, torna-se agora plenamente visível aos olhos do cidadão planetário.
Um fenómeno inédito está a surgir: a pandemia transforma a percepção que se tinha da globalização. Sabíamos que ela existia, conhecíamos os seus efeitos (financeiros, climáticos, turísticos), mas só raros tinham dela uma experiência vivida. Graças ao coronavírus, e pelas piores razões, o homem comum tem agora, ao longo do seu tempo quotidiano, a experiência da globalização. Deixou de ser abstracta, tornou-se uma globalização existencial. Vivemos todos, simultaneamente, o mesmo tempo do mundo.
Qual o futuro desta transformação? Pode-se adivinhar já certos efeitos. A consciência planetária do perigo de morte traz consigo uma certa percepção, imediata e concreta da humanidade, como comunidade viva e nua. Para além do que separa os homens, há o que os faz simplesmente humanos, a vida, a morte, o poderoso direito a existir, sem condições nem prerrogativas. O que implica um igualitarismo primário e primeiro, entre os indivíduos e entre os povos. As peripécias dos proteccionismos xenófobos e racistas de Bolsonaro e de Trump, em tempo de crise pandémica, parecem patéticas quando confrontadas com este espírito mundial que se está a formar.
Por outro lado, a informação veiculada pela comunicação social, a dependência de cada cidadão de um país relativamente aos cidadãos de outros países, a exigência premente de coordenação das políticas de saúde (e não só) de diferentes nações, o trabalho em rede de cientistas por todo o mundo, está a levar à criação progressiva de poderes transnacionais. São tudo bons sinais que se desenham no horizonte. Acreditamos que tal evolução das consciências só poderá beneficiar a luta decisiva, que virá em breve, contra as alterações climáticas.
Mas os bons sinais não chegam para nos sossegar. Tanto mais que o medo que nos invade não pára de se avolumar. No momento em que escrevo, chovem de todos os lados, da Europa, da América, do Médio Oriente e da Ásia, as notícias mais alarmantes. A pandemia cresce como um tsunami mundial, derruba e mata numa avalanche incontrolável. O medo não é uma atmosfera, é uma inundação. Como resistir, como desfazer, ou pelo menos atenuar o medo que nos tolhe? Com mais conhecimento, sim, e mais informação, e mais entreajuda e racionalidade. Resta-nos sobrepor ao medo que nos desapropria de nós, o medo desse medo, o de sermos menos do que nós. Resta-nos, se é possível, escolher, contra o que nos faz tremer de apreensão e nos instala na instabilidade e no pânico, a forças de vida que nos ligam (poderosamente, mesmo sem o sabermos,) aos outros e ao mundo.

Fonte: artigo de opinião de José Gil (2020)

quarta-feira, 11 de março de 2020

[0228] Reactivação da «Plataforma pelo Património Cultural»


Esta Plataforma, abreviadamente conhecida por PP-Cult, foi publicamente divulgada em 16 de Outubro de 2008. Na altura, as cerca de duas dezenas de associações de cariz técnico-científico, profissional e cidadão que a elaboraram também apresentaram um manifesto a que deram o títuloo «O património como valor estratégico e oportunidade nacional» (e a que ainda é possível aceder em: http://icomos.fa.utl.pt/documentos/DeclaraPlataformaPPCULT.pdf).

Afirmava-se, nesse manifesto, que o Património Cultural constitui o valor mais precioso de qualquer país, em especial dos que possuem percursos históricos mais antigos e cujos recursos naturais foram parcialmente exauridos com o tempo, um valor “de que cada geração, presente e futura, se deve considerar como fiel depositária e cuja amplitude transcende a esfera estritamente nacional. Não podemos considerar-nos donos de tudo quanto nos foi colectivamente legado e que pertence em grande medida a quem nos antecedeu, cabendo-nos a nós apenas reparti-lo com os nossos contemporâneos e com quem nos há-de suceder. Cuidar e desenvolver o Património Cultural, muito mais do que uma decorrência da lei, nacional, europeia ou universal constitui, pois, um imperativo civilizacional e de cidadania.


A actividade da PP-Cult durou até cerca de 2014. Agora, em 1 de Março de 2020, pouco mais de uma década passada, e com uma visão mais alargada acerca do Património Cultural, as associações que a haviam criado decidiram reactivá-la, perguntando-se:
O que se passa com o inventário e monitorização pelo Estado dos bens móveis e imóveis integrantes do património cultural e nomeadamente dos classificados?
Que condições têm os serviços do Estado, a todos os níveis, para executarem as suas funções, num contexto que sabemos ser de despovoamento e desqualificação?
Que lugar para a desconcentração ou a descentralização administrativa, a regionalização político-administrativa e a municipalização no que se refere a políticas de património cultural?
Que políticas culturais há para os novos patrimónios que se encontram em processo de afirmação social?
Quando se prevê a participação legal do associativismo patrimonial na construção do nosso legado comum, retomando designadamente as práticas emergentes de Abril de 1974 da sua participação extensiva nos organismos de consulta do Ministério da Cultura?
Como assegurar o cumprimento das leis de enquadramento, visando a protecção dos acervos e a concretização das missões de museus, bibliotecas e arquivos, quando verificamos que vários destes últimos têm vindo até a fechar ou se tornaram praticamente inacessíveis por falta de pessoal?
Para quando a regulamentação da actividade de restauro de bens patrimoniais?
Que medidas foram tomadas para garantir a protecção do património arqueológico (sítios e colecções), seja em meio urbano, seja em meio rural, seja ainda em meio subaquático, num contexto cada vez mais dominado pela actividade empresarial?
Como enfrentar a gentrificação, a crise climática ou a degradação dos ecossistemas e das paisagens culturais, processos inexoráveis do nosso tempo?
Conhecendo os prejuízos, potenciais e reais, que benefícios são retirados pelos bens patrimoniais da explosão turística e quem realmente determina como aplicar os recursos daí resultantes?
O que foi feito em favor do desenvolvimento de políticas integradas interdepartamentais e interministeriais, visando a valorização e boa gestão do património cultural?

Original da Declaração «Património Cultural, condição cidadã de futuro»:

Associações subscritoras desta Declaração:
Associação dos Arqueólogos Portugueses; Associação Portuguesa de Antropologia; Associação Portuguesa dos Amigos dos Castelos; Associação Portuguesa de Arqueologia Industrial; Associação Portuguesa de Museologia; Associação Portuguesa de Bibliotecários, Arquivistas e Documentalistas; Confederação Portuguesa das Associações de Defesa do Ambiente; Federação dos Amigos dos Museus de Portugal; Fórum CIDADANIA LX; Fórum de Conservadores-restauradores; Fórum do Património; ICOMOS Portugal; OPRURB – Ofícios do Património e Reabilitação Urbana; Associação Portuguesa de Turismo Cultural; Sindicato dos Trabalhadores de Arqueologia

Notícia sobre esta Declaração na imprensa diária:

Imagem: jornal Público

quinta-feira, 5 de março de 2020

[0227] «Educação Patrimonial em Ação: Tecendo relações entre museus, escolas e territórios»


Esta Conferência Internacional decorrerá de 13 a 14 de Julho de 2020, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, no âmbito Projecto EPITEC (“Educación Patrimonial para la inteligencia territorial y emocional de la ciudadanía. Análisis de buenas prácticas, diseño e intervención en la enseñanza obligatoria”):


Este Projecto e esta Conferência visam a “produção de espaços de educação profundamente relacionais e de encontro entre museus / coleções, educadores e visitantes”, sendo neles ultrapassadas as “fronteiras disciplinares”, renegociados os “significados” e desafiadas as “práticas representacionais ou formas de ver”, “abrindo caminho a outras narrativas e novos modos (ou modos modificados) de ver, interpretar e sentir.

Algumas questões orientadoras propostas na Conferência:
“Como podemos trabalhar com os públicos escolares de maneira mais relevante?
Com que modelos de prática podemos aprender?
Como são concebidos, planeados, desenvolvidos e avaliados estes programas de educação patrimonial e museal? E para que fins?
Como programar/avaliar de maneira a transformar as nossas relações com as ecologias contemporâneas de maneira propositiva e justa?
Que práticas de programação/avaliação alternativas e experimentais têm surgido em resposta às crises sociais e ambientais do nosso presente?
Que linguagens comuns e práticas compartilhadas com os públicos escolares desenvolvemos? E neste contexto: o que e como descolonizar?
Quem beneficia dos nossos esforços e que tipo de impacto temos?
Como programamos/avaliamos para tal?
Que ferramentas, nomeadamente tecnológicas, utilizamos ou melhor nos servem?
Que temas interpretativos, tópicos e técnicas interpretativas funcionam para diferentes públicos e porquê?
Qual o papel dos estudos de públicos neste contexto?”

As inscrições estarão abertas partir do dia 20 de Abril de 2020.

Fonte: blogue da Conferência Internacional Educação Patrimonial em Acção


segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

[0226] O arquivo da «Ephemera»


Criada em 2003, na Vila da Marmeleira, foi institucionalizada como Ephemera – Biblioteca e Arquivo de José Pacheco Pereira em 2009, estando-lhe associada, desde 2017, uma associação:


O arquivo, tal como um jornal já o definiu, é o arquivo privado mais público de Portugal, tendo como objecto principal a história contemporânea (social, cultural e política). Os documentos e materiais recolhidos têm sido reunidos na Vila da Marmeleira (concelho de Rio Maior), em Lisboa (no 1º andar da Livraria Ler Devagar, situada na Lx Factory) e no Barreiro (no Parque Empresarial situado nas instalações da antiga CUF / Quimigal), dispondo de pontos de recolha em Viana do Castelo, Porto, Lamego, Guarda, Figueira da Foz, Coimbra, Santarém e Torres Vedras.

A Associação, cujo logótipo foi concebido por Henrique Cayatte, inspirado num relógio existente no arquivo (símbolo da passagem do tempo), apresenta-se como “de âmbito cultural sem fins lucrativos”, tendo “por fim promover e patrocinar a preservação de patrimónios de carácter cultural, histórico, científico e educativo, o desenvolvimento de acções de investigação e estudo nos domínios da história, da sociologia e da literatura, bem como prosseguir a organização e manutenção do arquivo e biblioteca de José Pacheco Pereira e de todos os outros que aí sejam incorporados por compra ou doação.

Fonte: Wikipédia e blogue da Ephemera

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

[0225] Memória e História



Alguns apontamentos interessantes vindos dos intervenientes na 1ª Conferência Internacional Usos do Passado, Memória e Património Cultural (que a mensagem «0215» anunciou):

A memória não reproduz o passado. Ela tanto o lembra, como o esquece: para lembrar, é preciso esquecer, silenciar.
A memória, por um lado, responde aos desafios dos sucessivos presentes. Por outro, ela está mais virada para o futuro do que para o passado.

A memória histórica é um esforço consciente dos grupos humanos. Ela tanto pode legitimar as narrativas dominantes como contribuir para desenvolver interpretações alternativas.

É simplista distinguir a memória da história opondo-as assim, dicotomicamente:
é subjectiva e poética versus é objectiva e prosaica;
é pessoal, é de grupo versus é de todos
aceita o esquecimento versus recupera o esquecimento
vive dos factos versus determina as causas
convive com a imaginação versus afasta a imaginação.

Onde existe poder, existe resistência.

Os traumas ficam para a vida; e muitas vezes para a vida de sucessivas gerações; as memórias pós-traumáticas visam contrariar o não falemos nisso.

sábado, 15 de fevereiro de 2020

[0224] A Reserva Ecológica Nacional do concelho do Seixal


A versão mais actualizada dos limites e dos conteúdos desta reserva foi estabelecida através da Portaria nº 3 de 2016 (18 de Janeiro). As suas origens remontam, no entanto, a cerca de duas décadas e meia antes.

Em 1997, numa publicação da Câmara Municipal do Seixal, o professor Manuel Lima destacou e descreveu as principais zonas que então a integravam (a tracejado no seguinte mapa):


Os mais de 733 hectares desta reserva correspondem a cerca de 8 % da área total do concelho do Seixal, sendo grandemente constituída por um contínuo de sapais, portanto marcados pelos níveis das marés que ritmam as águas do estuário do Tejo e ambiente favorável para uma grande diversidade de plantas e de animais.

A principal excepção a este contínuo é a zona dos Redondos da Catrapona, situada no interior do concelho, que se destaca pelo seu pinhal, não lhe correspondendo, também, qualquer património cultural.

O modo como os ocupantes das margens destes sapais deles tiraram proveito (e nalguns casos ainda tiram) está bem patente numa grande diversidade de evidências arqueológicas.
As águas situadas no subsolo do sapal de Corroios, as areias que cobrem a Ponta dos Corvos e os barros que se vão formando em qualquer sapal, foram, e continuam a ser hoje, recursos geológicos. E os vestígios de antigos fornos mostram uma das possíveis formas de eles serem aproveitados (um, romano, em Corroios; outro, de cal, na Azinheira).
As quintas, que por aqui foram abundantes, testemunham o trabalho da terra e a abundância dos produtos que dela se retiravam: a fruta, o azeite e o vinho. E porque nem toda esta riqueza se destinava a consumo local, existem muitos vestígios de estaleiros destinados à construção naval em madeira e de portinhos por onde chegavam as matérias primas e se escoava o que a Lisboa se destinava. E também existem os restos de diversos moinhos de maré (dois em Coina, quatro na Azinheira, quatro na Ponta dos Corvos), estando um deles (em Corroios), hoje, musealizado.
Mais recentes são as grandes estruturas que lembram o tempo em que diversas indústrias se situaram nestas bandas: para a produção de tijolos, de lanifícios e de vidros, para a preparação da cortiça (caso da Fábrica Mundet, situada à entrada do Seixal), para a seca do bacalhau (a Companhia Atlântica, na Ponta dos Corvos) e para produção de aço (a Siderurgia Nacional, em Paio Pires).

Fonte: Lima (1997)


quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

[0223] Botânica e História, no renovado Jardim Botânico Tropical, de Lisboa


Fechado para obras de reabilitação durante cerca de um ano, reabriu há uma semana ao público o Jardim Botânico Tropical de Lisboa:


Em 2015 este jardim foi transferido do extinto Instituto de Investigação Científica Tropical para a Universidade de Lisboa, tendo a reabilitação de que agora foi alvo incidido especialmente no Jardim dos Cactos (inacessível desde a década de 1960) e no Jardim das Ninfas e, em geral, na repavimentação dos caminhos, na modelação do terreno, na melhoria da sinaléctica, na substituição de algumas espécies e no restabelecimento dos circuitos de água ou na modernização da rede de rega.

O Jardim dos Cactos teve origem numa estufa de plantas suculentas, cuja construção terminou em 1949; as suculentas e os cactos, ao crescerem, romperam a estufa e formaram a sua própria paisagem, levando ao encerramento da estufa ao público. Mas a actual remodelação deixou as suas ruínas parcialmente visíveis, para que possamos compreender hoje como o planeado pelo Homem interage com o decidido pela Natureza.

Entre as plantas que é possível observar, encontram-se um pinheiro australiano de grande porte, um dragoeiro do século XIX, tipuanas e sumaúmas dos trópicos, casuarinas da Oceânia, antigas espécies como as magnólias e sobretudo as cicadáceas, o Ficus sycomorus (a árvore mais citada da Bíblia), alguns sobreiros portugueses, altíssimas palmeiras e uma sequóia da Califórnia.

Os inícios históricos deste jardim estiveram na vontade do rei D. João V criar a Real Quinta de Belém, que se estenderia desde o Palácio de Belém até à Ajuda. Para tal adquiriu o Palácio dos Condes da Calheta e os terrenos anexos por 50 000 cruzados, reservando a parte superior do actual jardim para a sua regis hortus suburbanus, uma horta gigante destinada a alimentar as suas visitas e a sua família.
O terramoto de 1755 não danificou este espaço. Em 1758, dá-se nas proximidades do palácio o atentado contra o rei D. José I. ao longo de quase todo o século XIX o jardim foi usado para a realização de caçadas reais, mantendo-se o palácio disponível para acomodar as visitas reais.

No início do século XX, sendo necessário repensar o ensino agronómico colonial, foi aberto por decreto régio o Jardim Colonial de Lisboa, nas Laranjeiras, perto do então Instituto de Agronomia e Veterinária. Num «Diário do Governo» de 1906 escrevia-se sobre ele: é “indispensável o exemplar vivo para que a demonstração seja rigorosamente scientifica e educativa, para que o alumno não fique imaginando somente como são os animaes e os vegetaes, mas tenha a noção viva da realidade”. No entanto, em 1912, o Jardim Colonial de Lisboa foi transferido das Laranjeiras (onde já se revelava pequeno) para Belém, onde a proximidade ao rio, o suave declive do terreno e a capacidade de criar microclimas permitia albergar plantas originárias desde a Escandinávia até ao Equador. Funcionando como dependência pedagógica do Instituto Superior de Agronomia, situado nas proximidades, era também centro de estudo de culturas e de recolha de informação sobre a agricultura colonial. Em 1951, ainda foi designado por Jardim e Museu Agrícola do Ultramar.

Fonte: informação jornalística de Serafim (2020)

Imagem: sítio dos Museus da Universidade de Lisboa

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

[0222] Doze palestras no Teatro Romano de Lisboa em 2020: «O Rio Como Horizonte»


O Teatro Romano de Felicitas Julia Olisipo (hoje cidade de Lisboa) terá sido edificado no princípio do século I d.C. e teria capacidade para cerca de 4 mil espectadores. As suas ruínas foram há alguns anos musealizadas e integradas no Museu de Lisboa.

A situação topográfica deste antigo e imponente edifício público permitia-lhe ser visto destacadamente sobre toda a cidade por aqueles que navegavam no Tejo ou a estas paragens chegavam vindos de longínquas terras:

Imagem 3D de Olisipo, produzida por «César Figueiredo Illustration»
para o documentário «O Fundeadouro Romano de Olisipo»
(o Teatro Romano está situado no lado direito da imagem)

Explorando esta relação entre a cidade e o seu rio, o Núcleo Museológico do Teatro Romano agendou para 2020 um ciclo de palestras que designou por

O Rio Como Horizonte – O Outro Palco do Teatro Romano

Haverá uma palestra por mês, sempre às 18h00, sendo a entrada livre:


Fonte: sítio do Museu de Lisboa

quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

[0221] Os temas das Nações Unidas em 2020


O Ano Internacional da Saúde dos Vegetais visa sensibilizar todos para o modo como os cuidados fitossanitários podem contribuir para eliminar a fome, reduzir a pobreza, proteger o ambiente e estimular o desenvolvimento económico.


Todos têm um papel:
·      TODOS devemos evitar atravessar fronteiras com plantas ou produtos vegetais
·      Os TRABALHADORES nos transportes devem assegurar-se de que navios, aviões e comboios não introduzem invasoras, nem doenças das plantas, em novas zonas
·      Os GOVERNOS devem reforçar o apoio aos organismos nacionais e regionais de protecção dos vegetais que estão na primeira linha de defesa

O Ano Internacional das Parteiras e do Pessoal de Enfermagem visa destacar o papel essencial que estas profissionais desempenham na prestação dos serviços de saúde: frequentemente, numa comunidade, elas são a primeira pessoa, senão a única, com que se pode contar para prestar estes cuidados.

Até ao ano 2030, o mundo precisa de mais 9 milhões de parteiras e de pessoal de enfermagem para que sejam universais os cuidados de saúde.


Fonte: sítio das Nações Unidas

terça-feira, 31 de dezembro de 2019

[0220] O problema da década


A transição entre 2019 e 2020 é uma mudança de década, ou esta só ocorrerá quando transitarmos de 2020 para 2021?
As opiniões dividem-se, tal como já se dividiram em 1999, altura em que à transição de década se juntaram as transições de século e de milénio

Há duas tradições que instigam esta divergência, tendo cada uma delas bons argumentos.

A tradição matemática, que posiciona os números num eixo e que, a começar no ZERO, faz crescer os positivos numa direcção, e os negativos na outra.
Para ela, o primeiro ano após o nascimento de Cristo seria o «Ano Zero», pelo que cada década terminaria nos anos em que se passasse da unidade 9 para a unidade 0. Então, agora, 31 de Dezembro de 2019, estaríamos na transição da 2ª para a 3ª década do século XXI.

A tradição cultural não organizou tão rigorosamente o calendário, pensou de modo mais prático: o primeiro ano após o nascimento de Cristo seria o «Ano Um», aliás como se estaria no «Século UM» e no «Milénio Um». Então, em 31 de Dezembro de 2019 ainda estaremos a terminar o 9º ano da 2ª década deste século, pelo que precisaremos de aguardar mais um ano para a transição apregoada.

A tradição cultural tem ligações à tradição de contagem na História: houve outros sistemas de contagem do tempo, como o número de anos de uma cidade, ou o número de anos de reinado de um rei. Mas também tem ligações a outros fenómenos de mais curta duração: Janeiro não é o «Mês Zero», mas sim o «Primeiro Mês». No entanto, é a intuição matemática que está presente noutras manifestações do nosso dia-a-dia: quando dizemos a nossa idade referimos quase sempre os anos completos que já temos – de um bebé diz-se, por exemplo, que «ainda só tem 10 meses».

Levar demasiado à letra a tradição matemática tem um grande contra: o 0 só terá sido introduzido na Europa por volta do século XIII depois de Cristo.
E levar demasiado à letra a tradição cultural também tem um grande contra: é que os historiadores concordam em que Cristo não terá nascido quando se diz que nasceu, mas sim uns anos antes.

Portanto, que as décadas não nos separem: se acharmos que vivemos em década diferentes, aproveitemo-nos disso para entender um pouco melhor este nosso mundo!

    

1 de Janeiro
Ano Novo
11 de Junho
Corpo de Deus
25 de Fevereiro
Entrudo
15 de Agosto
Assunção de Nossa Senhora
10 de Abril
Sexta-feira Santa
5 de Outubro
Implantação da República
12 de Abril
Páscoa
1 de Novembro
Dia de Todos-os-Santos
25 de Abril
Dia da Liberdade
1 de Dezembro
Restauração da Independência
1 de Maio
Dia do Trabalhador
8 de Dezembro
Imaculada Conceição
10 de Junho
Dia de Portugal
25 de Dezembro
Natal

terça-feira, 24 de dezembro de 2019

[0219] Em 1957, em 1982, em 2019: a vontade de um Novo que seja Bom


José Mário Branco (1942-2019) musicou e cantou, no duplo álbum Ser Solidário, de 1982 …


… o seguinte poema que Natália Correia (1923-1993) publicou em Dimensão Encontrada (1957):


QUEIXA DAS ALMAS JOVENS CENSURADAS

Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola.

Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade.

Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência.

Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato.
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro.

Penteiam-nos os crânios ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós.

Dão-nos um bolo que é a história
da nossa história sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo.

Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro.

Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco.
Dão-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco.

Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura.

Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante.

Dão-nos um nome e um jornal,
um avião e um violino.
Mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino.

Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte.
Por isso a nossa dimensão
não é a vida. Nem é a morte.

Fonte da poesia: blogue Folha de Poesia
Imagem: CD «Ser Solidário» (1996)

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

[0218] Algumas pistas trazidas pelos resultados da 7ª edição do PISA


Foi divulgado há dias o relatório com os resultados da última edição do PISA, realizada em 2018:

Estes resultados podem ser acedidos e descarregados em www.oecd.org/pisa

A primeira edição do PISA (Programme for International Student Assessment) ocorreu em 2000, por iniciativa da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico). Desde aí, a cada 3 anos, tem havido novas edições, com a intenção de avaliar como os alunos de 15 anos mobilizam os seus conhecimentos na resolução de situações do dia-a-dia.
Para tal foram escolhidas três áreas, Ciências, Matemática e Leitura, avaliadas em todas as edições, sendo uma delas particularmente privilegiada em cada edição. Desta vez tratou-se da Leitura, que já tinha estado em destaque nas edições de 2000 e 2009.

Um dos primeiros países cujos alunos obtiveram melhores resultados neste teste internacional foi a Finlândia, o que levou muitos especialistas e gestores da educação a pretenderem replicar algumas das suas escolhas para a organização escolar e curricular. O Sol finlandês foi, no entanto, de pouca dura: de seguida destacou-se a Coreia do Sul e, agora, para embaraço de quem faz análises baseadas nos rankings, destacou-se a China, Singapura, Macau e Hong Kong. Na Europa, desta vez, destacou-se … a Estónia.
Irão agora aqueles especialistas e gestores defender a replicação de outras formas de organizar as escolas e os currículos?

A China apenas participa nesta avaliação com alunos de escolas de quatro das suas províncias: Pequim, Xangai (que já decidira participar neste estudo, de forma autónoma, em 2009), Jiangsu e Zhejiang (que substituiu Guangdong em relação à edição de 2015). Além da capital, trata-se de três regiões costeiras, não tendo sido considerado o interior do país. Neste país, o Estado investe muito na educação, as escolas são obrigadas a prestar contas detalhadas e existe uma forte disciplina entre os alunos: antes de as aulas começarem já muitos estão na biblioteca a estudar.

Os resultados dos alunos finlandeses desceram em relação aos obtidos na década passada. Mas também aumentaram as desigualdades entre eles: maior número de alunos com melhores resultados; e maior número de alunos com piores resultados.

Este aumento das desigualdades também se verificou nos resultados da Leitura em Portugal: de 2015 para 2018, tanto subiu a percentagem dos melhores resultados (de 4,8 % para 7,3 %) como a dos piores resultados (de 17,6 % para 20,2 %).

Fontes: artigos jornalísticos de Silva (2019c) e de Viana (2019, on-line)